sexta-feira, 27 de março de 2015

HETERAS – MULHERES INDEPENDENTES NA GRÉCIA ANTIGA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Nas ruínas da velha Éfeso das Escrituras
As heteras (ταραι), na Grécia antiga, não eram simplesmente prostitutas, como querem alguns. Eram companheiras cultas de homens cultos e ricos. Como estrangeiras, não se submetiam à legislação local. Podiam ter seus próprios negócios, suas propriedades, seus lucros e dinheiro, o que era vedado à mulher nativa grega, que dependia, ora pai, ora do marido ou do irmão mais velho. Por isso, eram invejadas. Algumas dedicavam-se unicamente à prostituição, mas muitas outras não.
Um caso célebre é o de Aspásia, por quem o grande Péricles, o célebre administrador de Atenas, se teria apaixonado, de tal modo que, por ela, abandonou a própria esposa, com a qual teve um filho.
Aspásia era uma mulher culta, grande conhecedora de filosofia, professora de retórica e exímia escritora de peças de oratória, além de ser dotada de grande beleza e elegância. Caracterizava-se também pela fineza dos costumes.
As hetairai distinguiam-se, nas comunidades gregas antigas, por serem independentes e, até mesmo, destacavam-se por serem mulheres influentes que se adornavam com vestidos elegantes e joias preciosas e, até mesmo, estavam submetidas ao pagamento de impostos, como ocorria com os homens. 
hetera

Muitas vezes entravam no país como escravas provindas de outros países, geralmente como conquistas de guerra. Como, em seus países de origem, haviam sido educadas ora nas cortes, ora em famílias abastadas e privilegiadas, destacavam-se pela cultura e sabedoria e, muitas vezes, também eram especialistas em artes, tais como a poesia, a dança e a música. Por seus dotes pessoais, muitas delas tiveram destaque nas cidades gregas. Diferenciam-se da maioria das mulheres gregas, modestas, simples e submissas. Grande parte delas dedicaram-se ao meretrício, administrando luxuosas casas de prostituição.
Anselm Feuerbach - O Banquete de Platão

Ao contrário da maioria das outras mulheres na sociedade grega da época, portanto, as hetairai eram educadas. Além do mais, elas também eram as únicas mulheres que participavam dos simpósios, onde o seu parecer era acolhido e respeitado pelos homens. 
Simpósios eram banquetes próprios da elite das cidades-estados gregas. O termo simpósio, também traduzido por banquete, provém do termo grego συμπόσιον (sympósion), formado do verbo συμπίνειν (sympínein), cujo sentido original é beber juntos. Portanto, era um encontro para beberem juntos. O próprio diálogo de Platão traduzido geralmente em português como “O Banquete” tem o título em grego como Συμπόσιον (Sympósion).
A hetera Aspásia, compaanheira de Péricles

Na obra de Plutarco “A Vida de Demétrio” (Δημήτριος – Demétrios) o rei é representado como tendo diversas esposas, mas tendo relacionamento com mulheres livres, as heteras. O –ai (-αι) final da palavra grega hetairai (ταραι) é a marca do nominativo plural da primeira declinação grega, que vai corresponder à desinência de gênero e número em português –as.
As heteras foram as únicas mulheres na Grécia a terem acesso e controle sobre uma grande quantidade de dinheiro. Porém, não devem ser elas confundidas com as simples prostitutas, que eram conhecidas como pornai (πόρναι), as quais vendiam sexo nas ruas ou nos bordéis.
Pois, essas mulheres conquistaram um espaço privilegiado na sociedade grega, onde à mulher, geralmente, era atribuído um papel de coadjuvante, tendo poucas categorias, como as sacerdotisas, conquistado um espaço de respeitável prestígio.