sexta-feira, 13 de março de 2015

MITO, CASTIGO E PECADO – A PUNIÇÃO DE TÂNTALO

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Roma - Piazza Spagna
Tântalo (Τάνταλος) é um rei mítico da Lídia, país que corresponde à região da Anatólia turca de hoje. Sua esposa seria Dione. Tântalo fazia parte dos semideuses: era filho de Zeus e de uma princesa, humana, conhecida como Plota(Πλουτώ). O promíscuo Zeus fecundou Plota e, desse relacionamento, nasceu Tântalo.
Um de seus crimes foi testar a onisciência dos deuses. Serviu-lhes, num banquete, as carnes de seu próprio filho Pélops (Πέλοψ). A deusa Deméter (Δημήτηρ), profundamente deprimida pelo rapto de sua filha Perséfone (Περσεφόνη) por Hades (Άδης), aceitou a oferenda e comeu o ombro esquerdo da vítima. Porém, as demais divindades, perceberam o engodo e condenaram o ato de Tântalo. Fizeram o jovem reviver, encomendando um novo ombro ao engenhoso Hefaistos (Ήφαιστος), que produziu o novo membro em marfim.
Como tântalo caíra em desgraça perante os deuses, com outras atitudes que os desagradaram, como o roubo de néctar e ambrosia, e a revelação de segredos que ouvira em festejos no Olimpo, decidiram impor-lhe um castigo singular e terrível.
Seu suplício foi a fome e a sede eternas. Permaneceria mergulhado em água até o pescoço, porém, quando se dirigia para beber, o líquido se afastava de seus lábios. Por sobre sua cabeça, pendiam galhos com apetitosos frutos. No entanto, quando tentava apanhá-los, o vento os afastava de seu alcance.
Uma terrível maldição também atingiu seus descendentes, lançando-os uns contra os outros, numa disputa infindável. Pélops tinha dois filhos Atreu (τρεύς) e Tiestes (Θυέστης) e uma filha (Νιόβη). Esta, pelo excessivo orgulho de exigir ser cultuada em lugar da deusa perdeu todos os filhos e foi metamorfoseada em penhasco.
Essa metáfora marca o empernimento da alma dos orgulhosos que, embora cercados de milhares de pessoas, nada sentem, nada percebem, pois somente cabem em si mesmos. O outro é apenas um ser disponível para servi-los e louvá-los.
Tantalus by Xenophon
Os netos de Tântalo, Atreu e o irmão Tiestes, lançaram-se em luta fraternal. Assim principia a efetivar-se da maldição dos atridas. Seu bisneto Agamenon (γαμέμνων), o grande comandante da Guerra de Troia, foi assassinado pelo outro bisneto, Egisto (Αγισθος), que lhe tomou a esposa Cliptemnestra (Κλυταιμνήστρα).  Egisto, por seu lado, foi assassinado pelo trineto Orestes (Ὀρέστης), filho de Agamenon e da incestuosa Cliptemnestra. Essa sequência de desastres com os descendentes de Tântalo é conhecida como a maldição dos atridas, os descendentes de Atreu.
Outro neto, Menelau, reinou sobre Esparta, casou-se com a famosa Helena (λένη), que provocou a guerra de Troia e se uniu a Páris. Após o retorno da longa disputa militar com os troianos, viveu tranquilamente junto de Helena, que reacolheu em seu leito, durante anos. No fim da vida foi levado aos Campos Elíseos (λύσιον πέδιον), grande honra concedida por Zeus ao seu genro. Helena era filha de Zeus e Leda.
Havia uma região, os Campos Elíseos, reservada aos bons. Aí os homens virtuosos repousavam dignamente sem necessariamente morrerem, rodeados por paisagens verdes e floridas, entre danças e divertimentos, por noites e dias sem conta. 
Essa descrição parece reconstituir o paraíso ou céu, próprios da escatologia cristã e muçulmana. Os habitantes do Elísio ou Campos Elíseos eram apenas alguns privilegiados. Nos tempos homéricos, essa era uma região nos limites da terra, que para eles era plana. Nesses tempos, a morada dos mortos situava-se em regiões subterrâneas, separadas da terra dos vivos pelo sagrado rio Estiges. Hades, divindade infernal, os governava a todos, sem distinção de bons e maus. Os maus tinham suas punições.
A expressão suplício de Tântalo emprega-se para explicar aquele estado de espírito de alguém que deseja muitíssimo algo que lhe é impossível atingir. Ele tenta burlar os deuses. Esta é ma atitude que vai ser concebida como pecado pelo cristianismo. Tântalo deseja uma situação acima da sua, busca igualar-se aos deuses. Depois, revela os segredos divinos aos humanos, como que glorificando-se de participar das festas divinas.
Há, neste mito, uma proximidade com o cristianismo. Quando os deuses aplicam um castigo não apenas ao pecador Tântalo, mas impõem uma maldição que se estenderá a todas as gerações que dele se originarão, a terrível maldição dos atridas, aplicam um castigo a quem não tem pecado, mas herdou o pecado de seu pai, avô, etc. Essa concepção aproxima-se da condição de Adão e do pecado original. Porque Adão pecou, todos os seus descendentes nascem com a culpa original, o pecado original, que deve ser lavado por um ritual de iniciação, o batismo.
A metáfora do mito de Tântalo parece remeter à eterna ansiedade do espírito humano. Embora cercado de tudo o que é essencial à vida, à sobrevivência e às necessidades interiores, o espírito humano é insaciável. Não consegue usufruir da abundância daquilo que o rodeia, porque os ventos dos desejos afastam o que está ao alcance da mão. Está constantemente buscando mais, sem sequer usufruir do que lhe está próximo. Essa é uma eterna condenação, que tortura e suplicia. Seu olhar visa a um horizonte sempre mais longínquo.
Ao mesmo tempo, um paradoxo leva-o a sobreviver porque é a ansiedade e o desejo de infinito que o sustentam. É filho dos deuses, como Tântalo, mas habita um frágil corpo material que lhe impõe limites. E, nessa dupla realidade, vive o embate das lutas diárias, andando na terra, com o olhar voltado para o infinito.