sexta-feira, 19 de junho de 2015

DAS MINHAS LEITURAS DE INFÂNCIA -

Ainda na minha infância, ouvi muitas vezes minha mãe declamando este poema parnasiano do Raimundo Correia. De tanto ouvi-lo, acabei por decorá-lo. Faz parte de um tipo de poema de tom moralizante ao modo de muitos poetas de então. Ele precisa ser entendido de acordo com o espírito daquela época.  Do "zeitgeist", espírito daquele tempo, diriam os alemães. Para entendê-lo, procure transportar-se para o espírito do receptor desse período da história.

A abelha e a formiga (Raimundo Correia)

Na pétala perfumada
De linda rosa vermelha,
Travaram prosa animada
Uma formiga e uma abelha.

“Conversam.” Diz a formiga:
“Como somos diferentes!
Quão diversos são, amiga,
Os destinos dos viventes.

Enquanto das estimadas
Abelhas se faz cultura,
As formigas maltratadas
São da humana criatura

Ao extermínio votadas!
Para nós outras – a morte!
E vós? Vós sois procuradas,
Desigualdades da sorte.”

Responde a abelha zumbindo
As asas: “É que viveis,
Roças, campos destruindo;
Sem razão, não vos queixeis!

Não fazeis senão o mal.
Nós prestamos bom serviço
À indústria nacional...
Somos queridas por isso.

Adejando pelos ramos,
Entre boninas e rosas,
O doce mel fabricamos.
Somos úteis, proveitosas!”

E termina a abelha assim,
Voando para a colmeia:
Cada um - diz velho anexim -
Colhe conforme semeia.