terça-feira, 23 de junho de 2015

UMA NOITE DE INVERNO - Para meu sogro que não conheci

                                                             Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

Praga

De repente, virei para o lado, na sala, o trabalho, um vulto eu vi. Sorrindo no escuro. Como de sempre, os cabelos grisalhos, encaracolados. De um velho livro, amarelecido do tempo, ressurge falando, contando de ti.
Pois é, releio estas histórias desde o tempo em queque ela era menina. Ela, curiosa, abria o livro. Punha-o ao colo, como se estivesse a lê-lo. Folheava atentamente cada página. Franzia cenho em gesto de reflexão, copiando cada movimento meu diante dos livros. Permanecia desse modo até que se cansava do jogo. Tomava uma de suas bonecas, muitas, e saía sala afora, correndo como o fazem todas as meninas do mundo pelos séculos sem conta.
E o vento na janela punha gelo na cena. Ouvia o tempo passando. Cortando o silêncio da noite gelada, um leve assobio da esquina mais próxima subia e baixava, como o som dos velhos rádios, nos tempos em que não havia televisão. Eu lia o jornal. Notícias de tudo. Do mundo distante, do Estado, daqui: poucas. Folheava uma nota fiscal amassada. O secretário, este crápula, ficou com o troco. É sempre assim, não aprende. Ou aprende demais. Sabe do meu constrangimento. Rouba-me sabendo que sei de tudo. Uns trocos todo dia. A vida. A pobreza, coitado. Os filhos. A mesa. Quem sabe das coisas, só deixa pra lá.
Silêncio na sala de jantar. Só o plic-plic-plic da velha máquina de costura num ritmo sem fim. Roupinhas e peças. Uns panos nos outros. Encantos que surgem das mãos talentosas, dela lá dentro. Atravesso a sala grande. Lá está a menina. O cabelo desfeito. O bico na boca. Chupava como se sorvesse algo. Suas coxinhas roliças. Calcinha colorida. Perninha marrom. Cerrados os olhos, resfolegando macio. Levei-a. Depus sobre os lençóis branquinhos. Continuou a dormir com a paz dos anjos.
Pois sempre fora assim. Foi minha. Muito mais minha. E lia. Crescia como uma flor. A flor dos meus sonhos. Era a minha menina. E moça. Lindésima. Os olhos, cobiça de tantos. Só a dor de perdê-la doía cá dentro. O peito me arfava. Arfava e doía. Detalhes te conto. São tantos. E tantos meus sonhos.
Um dia, nós juntos. Um sonho fantástico. Ela doutora. O juiz escutando. “Sim, doutora”. “Pois, não excelência.” De embalos, tropeços, a vida caminha. E ela mais linda, de dia após dia. Um dia me fui. Na curva da vida, o corpo não pode, o sonho incabível quebrou no meu peito. E tudo se foi. Mas ela ficou. E conto outro dia o resto da história.
Meu velho, onde estás? Não vejo teu vulto. Só sinto nas trevas um sopro que passa. E olho estas páginas. Onde, te foste ocultar? Do amarelo das folhas, saía uma voz. Perdia-se ao longe, sem eco nem nada.
E vi o que não era. Nem voz, nem imagem, nem brancos cabelos, nem sala, nem nada. E eu olho nas folhas. No amarelo do tempo. Eu não te conheço, nem nuca te vi. Mas como te vejo no sebo do livro, no livro do sebo, que trouxe pra mim, tua voz, teu afeto. E sofro, sozinho, com ganas de ver-te. Quem dera poder-te de novo te ouvir! E as falas de longe que escuto na noite? E a voz de teu sonho, escondida na alma, falou-me por ora. Quem sabe, do sonho, em vias estranhas, escute outra vez essa fala sem voz, que a alma recebe e o corpo não vê?
Que pena que sejas apenas a mancha que marca na página o tempo que foi. Fala mais dela. Conta outros sonhos que a sina cortou. Fala, que eu ouço, meu velho, meu sogro. Jamais tu me viste, nem vi o teu rosto. Mas andas comigo, por todos os cantos. E diz do teu sonho que eu faço ocorrer.