segunda-feira, 12 de outubro de 2015

CRÔNICA DE UMA ECOLOGISTA

Prof.Dr. Oscar Luiz Brisolara
Não ingeria carne de há muito tempo. Principiara pelo horror a todo o processo de morte. Gradativamente, foram-se-lhe revelando os métodos horrorosos que transformam as proteínas animais em alimento.
Primeiramente, soubera do sacrifício dos bois. Em tempos primitivos, eram simplesmente degolados. Após, passaram a dar-lhes uma pancada vigorosa no cérebro, que servia de anestésico. Seguia-se o sangramento para a coleta do líquido sanguíneo, usado na composição de certos embutidos.
Depois, esfolamento da pele, esquartejamento, até a final partilha do corpo em pequenas embalagens para consumo caseiro. Homens de branco, manchados de sangue vermelho, luvas, cutelos, horror, tortura. Um arrepio principiava-lhe nas entranhas, chegando à extremidade dos cabelos e morrendo em ínfimo sofrimento no fundo da alma.
As aves não tinham melhor sorte. Na época de nossos avós, torcia-se-lhes o pescoço, jogando-as, ato contínuo, ao chão, em que elas pulavam e se contorciam até ficarem imóveis, já sem vida.
A industrialização foi mais cruel com esses animaizinhos encantadores. Nos grandes abatedouros, jovens vestidas de aventais brancos, enfiam-nas de cabeça para baixo, imobilizadas, dentro de um funil preso a uma corrente que circula e passa diante das abatedoras que, munidas de uma cortante tesoura, decepam-lhes a língua, de cujo ferimento escorre o sangue para uma coletora. Esse líquido vermelho vai servir ao preparo de molho pardo nos restaurantes sofisticados.
O corpo penoso passa por um tanque de água fervente, a fim de que a máquina de depenagem possa exercer sua função, deixando a branca das inocentes completamente higienizada para o consumo humano.
Mãos ágeis, com trinchantes afiadas, separam, membro a membro, das pernas ao coração, tudo o que possa servir ao aproveitamento dos ávidos e vorazes bípedes implumes.
Ainda se alimentava de peixes, quando descobriu que uma fisga penetrante, escondida por uma isca enganadora, penetra nas macias carnes da boca do nadador, que é levado para a mesa de esfolagem e fileteamento, num processo extremo de crueldade e tortura.
Por fim, restavam-lhe os vegetais. Devorava verdes folhas, grãos e bulbos deliciosos, com a mente e a alma inocentes, até que um dia soube dos sentidos e sentimentos das plantas, que sofrem como qualquer ser vivo, apenas nada podendo mover em defesa própria, por sua completa incapacidade motora.
Passara, então, a devorar apenas pós inorgânicos, cuja existência, tinha absoluta certeza, estava desprovida de qualquer princípio vital. Assim mesmo, sua consciência passara a acusá-la de, talvez, involuntariamente, devorar fungos e bactérias, cujo íntimo continha princípios primordiais de vida.
Sua cútis amarelecia gradativamente, chegando a um corpo quase inorgânico, pois a alma, essa já estava completamente desvitalizada, quando encontrou um texto de Chardin que falava da natureza morta como corpos impregnados de um íntimo desejo de vida e de expressão.