sábado, 3 de outubro de 2015

MARIA ANTONIETA – RAINHA DA FRANÇA EXECUTADA NA REVOLUÇÃO FRANCESA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Maria Antonieta
De modo geral, a vida de Maria Antonieta já foi exaustivamente analisada, ora por historiadores, ora por diretores de cinema e ora mesmo por curiosos e fanáticos.
Sabe-se que era filha do imperador do poderoso Sacro Império Romano Germânico, Francisco I e da imperatriz Maria Teresa. Seus pais constituíram um casal muito fecundo: tiveram, ao todo, dezesseis filhos.
Maria Antonieta foi a décima quinta, ou seja, a penúltima, nessa numerosa prole, embora prole não seja o termo mais adequado, pois provém dos filhos de proletários, que eram geralmente muitos. Creio que Francisco e Maria Teresa de Áustria não se encaixem exatamente nessa categoria.
Sua mãe Maria Teresa Valburga Amália Cristina da Áustria (em alemão Maria Theresia Walburga Amalia Christina von Österreich) e em húngaro Habsburg Mária Terézia. Ela foi a verdadeira rainha, pois era filha do imperador Carlos VI do Sacro Império. Francisco I, o príncipe consorte, era filho do duque de Lorena, um ducado de menor importância situado entre a atual Alemanha e a França.
Wien Hofburg Neue Burg Heldenplatz - palácio onde nasceu
Maria Antonieta
Na realidade, quem sempre comandou o império e fundou a casa de Habsburgo foi Maria Teresa. Aliás, o nome Habsburgo vem do nome húngaro da família, como se viu acima, de onde a poderosa rainha descendia. Teve um longo reinado de 40 anos.
Pois Maria Antonieta nasceu em Viena, no suntuoso palácio de Wien Hofburg Neue Burg Heldenplatz, a residência oficial da família real dos Habsburgos. Também, viveu os verões no luxuoso palácio de Schönbrunn, o palácio da fonte encantadora. Esse era o palácio de verão da corte do Sacro Império Romano Germânico, conhecido como o Versailles vienense, dado seu requinte e riqueza.
Schönbrunn Palace - palácio da fonte encantadora
Por outro lado, imagine-se uma menina, quase caçula de dezesseis irmãos, situação agravada por uma mãe ocupadíssima com os encargos de um imenso império, embora de família de imensas riquezas. Imaginemos a falta de afeto e carinho em que cresceu.
No entanto, sua governanta, a condessa Brandeiss, com dó da criança, fazia-lhe todas as vontades. Afirma-se que a mimava em excesso, e procurava suprir a falta do amor maternal que a imperatriz, sempre envolvida nos assuntos de Estado, não teve tempo nem jeito de dedicar-lhe.
Como resultado, aos doze anos, Antônia (Antonieta, pequena Antônia ou Antoninha) ainda não falava nem escrevia corretamente os idiomas francês e alemão, que seria sua obrigação, apenas falando elegantemente o italiano graças aos esforços de seu professor Pietro Metastasio.
Porém, sobre as artes é que recaía sua preferência. Apesar de ter-lhe sido ensinado o manejo da harpa, sua preferência era outra: destacou-se pela forma graciosa e refinada de dançar. No entanto, além de dançar primorosamente, também tocava harpa, cravo e flauta.
Quando a mãe negociou seu casamento com o futuro rei da França, apareceram as deficiências em sua formação. Lia mal nos principais idiomas das cortes europeias, quais sejam, o francês e o alemão, e desconhecia as sutilezas da etiqueta de uma representante do estado. Em razão disso, sua formação foi considerada insuficiente para ser rainha, embora fosse apenas ainda uma criança.
Para recuperar essa situação, em novembro de 1768, o abade de Vermond foi enviado de Paris para Viena, para ser seu novo tutor, objetivando educá-la de acordo com as exigências da etiqueta e do requinte franceses.
A arquiduquesa, embora bela e inteligente, também era descrita como preguiçosa e indisciplinada e não tinha o conhecimento necessário para desempenhar o papel a que se destinava. O abade submeteu-a a um programa educacional projetado especialmente para ela, no qual substituiu o estudo de livros por longas palestras, que versavam sobre história, religião e literatura francesa. Esse programa obteve bons resultados em tempo relativamente breve e o tutor ficou encantado com os progressos da menina.
Maria Antonieta era uma garota doce, carinhosa e alegre, mas o ambiente que a aguardava era inóspito, pouco acolhedor e tinha imensa rejeição a uma estrangeira que chegava para ser rainha. A França, sob o reinado de Luís XV, especialmente a corte de Versalhes, era o lugar mais decadente e perigoso que se pudesse imaginar, de modo especial para uma menina de 14 anos, sozinha, que precisaria sobreviver a tudo isso sem sequelas morais e psicológicas.
O quanto essa garota, longe da pátria, sem afeto de ninguém teve de suportar de desafeto, de invejas, de maldades de uma classe corrompida por séculos de privilégios, com vícios de toda natureza, jamais se poderá saber. Tinha a seu favor o fato de jamais ter-se queixado ou recorrido à família em relação a essa situação.
Ao acontecerem as bodas oficiais entre ela e o príncipe, Delfin como era designado o herdeiro do trono, em 19 de abril de 1770, Antonieta logo se percebeu no centro das intrigas da corte em que mesquinhos mexericos a envolviam constantemente.
Marie Antoinette - filme de Sofia Coppola com Kirsten Dunst, Jason Schwartzman
Quem centralizava a vida íntima da família real naqueles dias era Madame Du Barry, que astuciosamente tornara-se amante do rei Luís XV e a um tempo do príncipe herdeiro.
Quase criança, Antonieta ainda não completara quinze anos, tinha de concorrer com uma mulher desqualificada e interesseira. Doze anos mais velha do que a princesa, du Barry, com vinte e seis anos, que já fora amante de Luís XV, representava um apelo muito maior  ao apetite erótico do jovem príncipe do que uma menina estrangeira e arredia. Usando de suas prerrogativas libertinas, a concorrente havia chegado ao leito do monarca. Essa relação íntima rendera-lhe o título e a patente de condessa.
Ocorre que a antiga nobreza despeitada, execrando a favorita do futuro rei, passou a usar a nova personagem da corte, que ocupava a posição de Delfina, como trunfo na luta contra a intrusa.
Maria Antonieta, que necessitava da aprovação daquela camarilha de interesseiros e dissimulados para ser aceita pelo próprio povo francês, entrou nesse jogo perigoso. Além do mais, causava-lhe despeito a presença daquela concorrente ao coração do príncipe. Porém, tão jovem, com apenas catorze anos, foi vítima, de um lado, da própria inexperiência, e de outro, da perfídia daqueles que a rejeitavam tanto quanto à amante do futuro monarca.
Antonieta tinha apenas a seu favor o fato de ser princesa e de pertencer ao clã dos Habsburgos, uma das famílias mais poderosas do mundo em seu tempo se não mesmo a mais poderosa. Mas pagava o preço da inexperiência e tinha contra si todas as jovens da elite francesa que aspiravam à mão do Delfim.
Ao mudar-se a princesa de Áustria para a capital francesa, reinava, no entanto, um clima de hostilidade entre a corte de Viena e a corte de Paris, que fora crescendo através de séculos de disputas políticas e militares. O casamento de Maria Antonieta com o herdeiro da corte francesa, Luís Augusto, constituía-se num grande esforço político de aproximação entre as cortes e abrandamento de difíceis e dispendiosos conflitos.
Desde seus primeiros dias em França, a jovem princesa de Áustria sofreu a rejeição das damas locais que a chamavam de “L'Autre-chienne”. Trata-se de uma paranomásia em francês das palavras “autrichienne”, que significa austríaca e “autre-chienne”, que significa "outra cadela". Aos poucos, essa rejeição por parte da corte se transformou em antipatia popular. Difamavam-na como sendo perdulária, esbanjadora dos recursos públicos, promíscua e defensora dos interesses austríacos em política internacional.
Outro problema na vida da rainha foi o fato de que, embora casados desde 1770, chegados a 1777, portanto sete anos mais tarde, ainda não haviam consumado o matrimônio.
Porém, em maio de 1774, Luís XV faleceu e seu neto Luís Augusto, marido de Maria Antonieta, foi levado ao trono. Duas tias piedosas do novo rei afastaram de Versailles a amante do jovem príncipe, Madame Du Barry. Ela foi exilada em um mosteiro feminino por dois anos, depois dos quais houve um afrouxamento da reclusão, contanto que jamais retornasse a Versailles.
A rainha era apenas um ano mais jovem do que seu marido. Nos primeiros tempos de reinado, a rainha limitou-se a bloquear os nomes de alguns pretendentes ao cargo de ministro do reino. Com o passar do tempo, passou a ser responsável pela desgraça de alguns adversários políticos. É o caso do duque D'Aiguillon, Ministro das Relações Exteriores do reino, que, por exigência dela em razão de tê-la ofendido, foi demitido do cargo e mandado ao exílio.
O que piorou a imagem dela diante das classes menos favorecidas foram suas imensas despesas em luxuosas roupas, calçados e joias, como também suas fabulosas perdas em jogos de azar, nos quais se viciara perdidamente. Acrescente-se a isso a reforma do Petit Trianon, um pequeno castelo construído nos bosques de Versailles pelo rei anterior.
Outro fato marcante na vida da rainha foi a visita de seu irmão mais velho Joseph II, então imperador do Sacro Império em parceria com a mãe, em abril de 1777, sob o nome falso de Conde de Falkenstein, com o intuito de cobrar do rei a consumação do matrimônio. Ao retornar a Viena, Joseph descreveu os reis da França como um par de completos trapalhões.
O fato é que, no ano seguinte de 1778, Antonieta engravidou. Tendo sido consumado o casamento em agosto de 1777, em 19 de dezembro de 1778 nasceu a princesa Marie Thérèse Charlotte de France. Aliás, a paternidade dessa menina foi amplamente contestada em todo o reino.
Cristina no Schönbrunn

Depois, vieram os tempos difíceis. Aconteceu a revolução. A prisão de Antonieta sucedeu a esse evento terrível. Ela passou para a história como uma mulher fútil, frívola, promotora de bailes e orgias, despreparada para reinar, perdulária e responsável pela crise econômica que abalou a França às vésperas da Queda da Bastilha.
 A princesa de Áustria, cujo casamento com o herdeiro do trono da França buscava selar uma união entre os dois reinos, acabou sendo acusada de traição, por ter se tornado um bode expiatório, passando informações confidenciais a seus compatriotas, e ainda por manipular o rei, o fraco Luís XVI. 
Oscar no Schönbrunn

La Conciergerie é um dos lugares mais visitados de Paris. Foi o que restou do primeiro palácio dos reis franceses, além de ter sido a primeira prisão da capital. Mas sua história foi marcada pelos anos em que foi a última morada dos condenados à guilhotina da Revolução Francesa.
Maria Antonieta prisioneira

De há muito, a Île de la Cité era o lugar ideal para ser o coração de Paris, isso desde a época em que a França era província romana, até o século II d. C. Isso se deve ao fato de estar localizada no centro, o que a deixava distante das costas, o que dificultava ataques por mar.
Pois foi aí que se edificou o palácio de morada do governador romano até o século II d. C.. Ali se estabeleceram os reis merovíngios, depois os carolíngios e, por fim os Capeto-Bourbons.
Pois foi nesse palácio transformado em prisão que Maria Antonieta ficou confinada. Primeiramente, em 13 de agosto de 1792, com toda a família real, ela foi para a Torre do Templo, uma velha fortaleza transformada em prisão que pertencera outrora aos templários. Sua celebridade deve-se ao fato de ter sido prisão da família real francesa, durante parte dos anos de 1792 e 1793.
Dessa torre, a rainha foi transferida, então, para a Conciergerie em seis de abril de 1793. Somente saiu dali para a execução na guilhotina.
Luís XVI foi executado em 21 de janeiro de 1793, decapitado na guilhotina. Maria Antonieta somente foi executada numa quarta-feira, 16 de outubro de 1793. Nesse período posterior à execução do marido, ela era chamada de a viúva Capeto, em menção à família de Luís XVI, os Capeto-Bourbons.
Esses oito meses e alguns dias em que permaneceu em sua cela solitária, aguardando a condenação e a morte, devem ter sido terríveis para uma mulher que, aos 38 anos, enfrentara, desde uma infância de menina rica descuidada pela mãe. Passou por uma corte adversa que a detestava, mesmo tendo gozado alguns anos de riqueza e luxo, acabando condenada por um tribunal político, cujos membros, em grande parte, não eram mais inocentes do que ela.
Por fim, encerro este comentário com a carta testamento que ela escreveu, destinada a sua cunhada Madame Isabel:
"É a vós, minha irmã, que escrevo pela última vez. Acabo de ser condenada, não a uma morte vergonhosa, pois esta é tão somente para os criminosos, mas a que me juntará ao vosso irmão. Inocente como ele, espero mostrar a mesma firmeza que ele em seus últimos momentos. Estou calma, como quando a consciência nada tem a condenar. Lamento profundamente deixar meus pobres filhos; sabeis que eu só vivia para eles e para vós, minha boa e terna irmã. Vós, que por amizade, sacrificastes tudo para estar conosco, em que posição vos deixo!
Eu soube, através dos advogados de defesa, que milha filha está separada de vós. Ai de mim! A pobre criança, não me atrevo a escrever-lhe, ela não receberá minha carta. Eu nem mesmo sei se esta chegará a vós. Recebais, pelas duas, minha bênção. Espero que um dia, quando forem mais velhos, eles possam reencontrar-vos e desfrutar plenamente de vossos ternos cuidados. Acredito que nunca deixei de inspirá-los, que os princípios e o estrito cumprimento de seus deveres são a base primária da vida, que sua amizade e confiança mútua os façam felizes.
Minha filha, por sua idade, deve sempre ajudar o irmão, inspirando-o com os conselhos de sua maior experiência e sua amizade; que meu filho, por sua vez, tenha pela irmã todos os cuidados, os obséquios que a amizade possa inspirar; finalmente, que ambos sintam que, em qualquer posição em que se encontrem, estarão felizes por sua união. Que eles nos tomem como exemplo. Quanto consolo nos dão nossos amigos em nossos infortúnios e, na felicidade, como é dobrada quando podemos compartilhá-la com um amigo; e onde encontrar mais ternura, mais bem querer que em sua própria família?
Que meu filho nunca esqueça as últimas palavras de seu pai, as quais eu repito expressamente: que ele nunca tente vingar nossas mortes! Tenho que vos falar sobre algo muito doloroso para meu coração. Sei como esta criança deve causar-vos problemas; perdoai-o, minha querida irmã, pensai em sua idade e em como é fácil dizer a uma criança o que desejais, e mesmo assim ele não entende. Um dia virá, eu espero, em que ele se sentirá melhor e valorizará vossa bondade e vossa afeição por ambos. Ainda tenho alguns pensamentos para vos confiar. Eu queria escrever desde o início do julgamento, mas não me deixavam, as coisas aconteceram tão rápido que, na verdade, eu não teria tido tempo.
Morro na religião Católica, Apostólica e Romana, a de meus pais, aquela em que fui criada e que sempre professei. Não tendo nenhum consolo espiritual a esperar, sem saber se aqui ainda existem sacerdotes dessa religião, e mesmo (se existissem ainda padres) o lugar (a prisão) onde eu estou os exporia a muito riscos, se eles me falassem, ainda que fosse só uma vez. Eu peço sinceramente perdão a Deus por todas as faltas que eu cometi desde que nasci. Espero que em Sua bondade, Ele possa receber meus últimos votos, assim como tem feito há tanto tempo, porque desejo que Ele receba minha alma em Sua grande misericórdia e bondade. Eu peço perdão a todos aqueles que conheço, e a Vós, minha irmã, em particular, de todos os sofrimentos que, sem querer, poder-vos-ia ter causado; eu perdoo todos os meus inimigos pelo mal que me têm feito. Despeço-me de meus tios e de todos meus irmãos e irmãs. Eu tive amigos. A ideia de sermos separados para sempre e suas penas são os maiores arrependimentos que carrego ao morrer; que eles saibam, ao menos, que pensei neles até o último momento.
Adeus, minha boa e terna irmã. Possa esta carta chegar até vós. Pensai sempre em mim. Eu abraço-vos de todo meu coração, assim como minhas pobres e queridas crianças. Meu Deus, quanto me corta o coração deixá-las para sempre! Adeus, adeus! Não vou mais me ocupar com meus deveres espirituais. Como não sou livre nas minhas ações, irão trazer-me, talvez, um padre, mas eu protestarei e não lhe direi uma palavra e irei tratá-lo como um completo estranho."
Essas foram as últimas palavras de uma mulher corajosa, que enfrentou tudo o que a vida colocou diante dela com a mesma serenidade. Eu aprecio mulheres fortes.