segunda-feira, 12 de outubro de 2015

CRÔNICA DE UMA INFÂNCIA FELIZ

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Naquele 1947, não havia rádio na minha casa. Televisão seria coisa de futuro muito distante. Os anos corriam lentos. Os brinquedos eram bois feitos de sabugo, jungidos por um jugo de madeira cortada à faca, que meu pai fazia magistralmente bem, para eu juntar meus sabugos-bois de trabalho.
Minha imã, única companheira desses tempos, tinha bonecas de espiguinhas de milho, verdes com seus loiros cabelos longos, pendentes de suas faces sem rosto. Um dia, ela ganhou uma boneca com a cabeça de gesso e o corpo de pano. Mamãe fez sucessivos corpos de outros panos, quando aqueles rasgavam ou sujavam. E assim, por muito tempo, esses eram os brinquedos de nossa infância. E outras tantas bonecas ficaram soltas no campo sem menina que as amasse. Quando veio a ter bonecas de loja, o rebrilhar de seus cabelos não se igualou jamais às bonequinhas de milho que lhe moravam na alma.
Certa vez, papai trouxe para mim um caminhãozinho de tabuinhas que ele conseguiu não sei onde. Ah, como era lindo, com suas rodinhas de pau roliço e eixo de arame! E, quando alguma coisa nele estragava, esperava papai, que pacientemente fazias os consertos e tudo vinha a funcionar magicamente no chão terroso de nosso pátio e em nossos espíritos sonhadores e muito felizes.
Depois, havia as vaquinhas de batata. A cabeça fazia-se com uma batatinha mais miúda. Pescoço e patas de pauzinhos de graveto. Essas nós mesmos confeccionávamos. Eram mais frágeis e menos duradouras.
Depois, eram as comidas de flores de malmequer, cujos miolos se desprendiam sob a pressão de nossos dedos finos e frágeis. E os anos se escorreram por entre esses dedos, sem que disso nos déssemos conta, e continuávamos imensamente felizes.
Natais, não os havia. Nem festa alguma. Embora as rezas fossem costumes diários. De quando em quando, um baile de ramada, pelas redondezas. No mais, tudo era silêncio por aqueles espaços perdidos no ermo de campos que a vista mal alcançava, de colinas arredondadas, montanhas distantes e bosques solitários e calmos.
Havia os mistérios do mato. A escuridão provocada pela densidade das árvores causava certo pavor e curiosidade. Não íamos muito adiante.
Havia também o lajeado grande em que brincávamos com formigas, burrinhos do capim e joaninhas coloridas. E sabíamos muito... das formiguinhas vermelhas que picavam e doía bastante, dos formigões que mordiam com seus ganchinhos agudos, dos camoatins com ferrão, que provocavam uma dor de quase morrer e que faziam os olhos incharem e parecermos japoneses. E as picadas eram sempre no entorno dos olhos.
Mas, por teimosia, incautos, por uma primeira vez, mexíamos com eles, e aprendíamos pela dor o que não havíamos feito pela exortação dos pais. Assim, entendemos com que violência eles protegiam a prole e, desde essa experiência dolorosa, aprendemos a respeitar suas moradias, penduradas nos troncos.
Depois, era o riacho. Muito tímido. Não tinha mais que um metro de largura e alguns palmos de fundo. E serpenteava de longe. Saía da curva do mato. Cortava o gramado verde. Depois fazia uma largo de areias claras onde o gado bebia.
No verão, sentados com os pés na água fresca, perseguíamos moscas e libélulas, que fugiam ágeis de nossas mãos inexperientes. Tínhamos horror de cobras, mas brincávamos com aranhinhas e escorpiões, tendo cuidado de tocar neles com pauzinhos, pois mamãe dizia que picada de aranha matava e a do escorpião doía por muitos dias. E nós os esmagávamos como a periculosos inimigos ameaçadores.
Brincávamos com as galinhas do terreiro... corríamos atrás dos patos e dos pintinhos, levando bicadas da choca que deles cuidava. Com ela, aprendemos um pouco o lidar da vida e dos outros. Sem saudosismos nem comparações, apenas constato que as mudanças do tempo trazem situações novas para as crianças de todo sempre.