quarta-feira, 21 de junho de 2017

O ESPÍRITO DAS LÍNGUAS



Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Cada língua possui seu espírito, ou seja, um conjunto de tendências subjacentes, que influem na mudança constante à qual todas elas elas estão sempre sujeitas. Esse espírito também atua na importação de vocábulos de outros idiomas.
Assim, a língua portuguesa é a própria lingua latina que se modificou, porque os tempos mudaram, passaram-se milênios, e também porque ela foi transportada para outros espaços geográficos. Daí a razão de se afirmar que a língua latina não é uma língua morta. Ela é viva porque é as próprias línguas neolatinas.
Assim, quando se escreve a palavra cor, em português, geralmente se esquece que ela possuía uma forma antiga, no idioma dos tempos primitivos. Desse modo,em latim (na forma do nominativo) era color. Houve, primeiramente, a supressão do "l", resultando o termo arcaico "coor" e, finalmente, temos o termo atual cor. Os estudiosos dos idiomas e de suas transformações dizem que aconteceu uma síncope do "l", e uma crase dos dois "oo". Esse processo se deu com muitíssimos termos como "dolor", que resultou em dor, "nudus", que originou nu, etc, etc. Essa é uma explicação muito reducionista. Na verdade, não havia uma única língua latina, mas diversas, de acordo com as classes dos falantes e a região em que moravam. Também não há uma única língua portuguesa, mesmo levando em conta somente o Brasil. Assim acontece com os demais idiomas. É evidente que, quanto menor for número de falantes e mais reduzido o espaço em que vivem, maior será a uniformidade linguística. 
Voltando ao latim, precisamos levar em consideração que essa língua foi ensinada aos povos dominados por soldados, que falavam variantes do latim de menor prestígio na sociedade romana.
Assim também precisamos constatar que a linguagem científica, escrita, utilizada por estudiosos está muito mais próxima da variante culta da elite romana. Dessa forma, termos como herbívoro, heribicida ou herbácea estão muito mais próximos do nominativo latino "herba", do que do vocábulo erva de uso comum entre os falantes contemporâneos de língua portuguesa.
Esse espírito influiu também nas importações. A palavra inglesa era "football". O resultado da importação para a língua portuguesa foi o termo futebol.
Seguindo um dos princípios fundamentais da língua portuguesa que é formar palavras sempre apoiando uma consoante em uma vogal, ao modo de casa, mesa, etc., acrescentou-se um "e" depois do "t". Em algumas camadas menos letradas, usa-se a corruptela "futebola", levando ao extremo a tendência de formar palavras a partir de conjuntos de consoante e vogal. Os conjuntos silábicos formados por consoante, consoante mais vogal existem em número muito menor no idioma. Exemplos disso são palavras como prato, sempre e cravo.
Essa tendência do espírito da língua faz com que se prefiram os ditongos às consoantes desapoiadas. Assim, não é raro encontrar-se escrita a palavra "futebou", que é o forma fonética da pronúncia da maioria dos falantes. Seguem esse mesmo espírito as transformações de mal em mau, mel em "meu". Na realidade, elas são foneticamente idênticas e fonologicamente diferentes.
Quando afirmamos que os falantes de língua inglesa escrevem as palavras de um modo e as leem de outro, não nos damos conta que fazemos exatamente o mesmo. Veja-se o seguinte exemplo: Hoje fomos ao jogo de futebol. Antes de entrar no estádio, fomos a um bar, tomar um lanche e beber cerveja. Fala-se mais ou menos assim: (Oji fomus au jogu di futibou. Ãtis di entrá nu istádiu, fomus a ũ bar tomá ũ lãchi i bebê cerveja.) (Evitei a transcrição fonética para facilitar o entendimento dos leigos em linguística). Fazemos tantas mudanças ou mais do que o fazem os falantes de língua inglesa. Isto somente nos atendo àqueles que usam o nível mais culto da língua. Praticamente ninguém mais diz comer, andar, sorrir. Fala-se simplesmente comê, andá, sorri, isso mesmo entre as pessoas mais cultas. Nas camadas mais simples da população, a mudança é imensamente maior. 
Assim como o "cantare" latino reduziu-se a cantar, nosso cantar vai acabar reduzindo-se a "cantá" porque esse erre final não tem nenhuma função semântica. Suas presença ou ausência não implicam nenhuma mudança de sentido.
Desculpem-me os estudiosos do idioma pelo hiper-reducionismo desta brincadeira.