quinta-feira, 6 de julho de 2017

O SILÊNCIO INIGUALÁVEL DAS MINHAS MONTANHAS

Oscar Brisolara
Ah! O silêncio... Aquilo, sim, era silêncio. Naqueles campos, naqueles morros, nada se ouvia... Embora eu nada temesse, possivelmente haveria algo temível. Quando um cavalo se aproximava, era alguém. Cavalo no campo não faz barulho. Pisa o macio dos capins.
O cavaleiro imprime um ritmo. Depois, o pedregulho dos caminhos. Mas, quase sempre, não era ninguém. Meu pai, meu avô, ou algum de meus tios. Os que passavam na estrada, não se ouviam. Era um tantão, do outro lado dos serros. Lá, não se ia. Ia-se muito pouco. O resto era em casa. Pois lá, do outro lado, moravam outros silêncios, os deles, os dos de lá.
Cá, morávamos com os nossos. O riacho era longe. Não se ouvia o gemido dele. Só no inverno. O vento, então, gemia forte. Era mais do que gemido. Em algumas noites, ele até esbravejava. Mas minha mãe dizia que não era nada. E eu ficava quieto. Ele passava. 
Às vezes, em noites de chuva, tudo parecia vir abaixo. Eu não tinha tento disso. Ouvia as águas correndo. Telhados mexidos. Estalos nos paus da armação. Os trovões faziam o chão tremer com a casa. – Vai cair, mãe? – Não. Nunca cai. E eu adormecia em plena tempestade.
A noite era muito negra, no tempo da lua nova. Nenhuma estrela no céu. Era um preto que se mexia depois de apagado o candeeiro. Se chamasse minha avó, ela dizia que Deus era grande, enchia tudo. Agarrasse o travesseiro. A mão dele estava ali. E eu agarrava a mão dele.
E eu tão pequeno, mergulhado naquela imensidão de negror e silêncio que não acabava mais. Esse calmo silêncio ia invadindo meus olhos e depois tomava toda a minha alma. Somente ficava aquele minúsculo corpinho. Aquela enorme cama de paus. De adulto. Gradeada para não cair. Se abrisse, por vezes, os olhos, era uma escuridão enorme e parada. Um silêncio tão mudo. Nada apontava para nada. O escuro e o silêncio calmamente tremiam diante de meus olhos.
Quanta saudade! Do negrume sem limite. Do silêncio sem resposta. Aquele mergulho no nada. O nada absoluto absolutamente perdido entre aquelas montanhas vazias. Por anos serenos, vivi esses silêncios. Não dá para explicar. Somente se vive. Mais nada...