quarta-feira, 19 de julho de 2017

PRECARIEDADE (crônica)



Oscar Luiz Brisolara
Tarde lenta caía e bordava o horizonte de vermelho ensanguentado. Luís, sentado na grande pedra de diante da velha morada, perdida no tempo e no ermo onde haviam crescido gerações, recuperava valores antigos e remoía as transformações com que o presente o atropelava.

Às vezes cogitava na troca de seu carro já antigo. Como? Roubavam-lhe um pouco a cada dia, a cada mês transcorrido. Centrava-se, por vezes, nas brenhas da filosofia, da economia e das matemáticas. Naquelas perdidas colinas e morros, poucas almas chegavam-se à dele.

As vontades alheias corroíam-lhe as posses do mesmo modo como fazem os cupins que, silenciosamente, destroem, um pouco, a cada dia, as moradias de todos. Porque cada vez menos sonhadores desejavam um carro como aquele, a cada dia valia menos.
Com o carro que poderia substituir o automóvel atual, acontecia o contrário. Sendo o objeto de valor na disputa de maior número  de sonhadores, valia mais. E assim, de fato, no meio da cadeia, cada um balançava entre o que tinha e o que desejava. E, um imenso cupim rei engordava, devorando, de todos, sem ruído nem pressa, um pouco, por verões e invernos, imponderavelmente. 
Se adquirisse um bem novo, lá se iam poupanças suadas. Pior para quem se valesse do crédito. O tempo que dispendesse para devolver à concedente do crédito o capital concedido transformava-se em dinheiro e era acrescido ao saldo devedor e às parcelas de ressarcimento. Percebeu o quanto era verdadeiro o provérbio de que “tempo é dinheiro”. Esse tempo devedor de todos somado converte-se em imensa reserva de nada, que se torna possibilidade e jugo.
Se “a indesejada das gentes” chegasse, seria uma solução. Hesitava, enquanto a sombra das trevas engolia o sol naquela escura noite de lua nova. Do chão, subiam cheiros antigos que lhe devolviam os tempos em que sua mãe colhia rosas no jardim.
Por entre os rebotalhos da pequena luz aos quais seus olhos já se iam habituando, via o vulto do pai, por entre os antigos arbustos que o tempo roera. Depois, as crianças haviam crescido, colhendo amoras e esperanças, espinhando a pele no antigo caramanchão e a alma nos desejos inalcançáveis. Todos se haviam ido com “o devagar de pressa dos tempos”.
A pedra rígida que sustentava suas carnes flácidas, aos poucos invadia sua alma com sua materialidade perene e sólida. Quando não mais suportava a rigidez da lápide e a aragem gélida da noite, valeu-se da inflexibilidade do bordão. Tateando canteiros e sonhos, atravessou o velho jardim, entre obstáculos e esperanças. Ouvia o nada que o envolvia completamente nas trevas, repleto de tudo o que fora e que, talvez, jamais viesse a ser. Um dia, depois do último pôr de sol, e da última badalada na aldeia próxima, cumprir-se-ia o derradeiro sonho.