quarta-feira, 5 de julho de 2017

ORIGEM DO 'S' MARCA DE PLURAL NA LÍNGUA PORTUGUESA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
De onde provém o 's' marca da pluralidade em língua portuguesa, se em latim o plural em 's' não era o mais comum? É necessário, primeiramente, estabelecer uma diferença essencial entre a morfossintaxe da língua latina e a da língua portuguesa. As palavras, em português, modificam-se em seu final para indicar gênero (masculino/feminino), número (singular/plural) e grau (proporção entre um e outro elemento). As mudanças de gênero aparecem em aluno/aluna; as de número, em aluno/alunos; e as de grau em, aluno/aluninho/alunão. 
Em latim, além dessas mudanças, há outras que marcam a função sintática. Assim, na frase: A aluna corre, em latim, diríamos: "Discipula currit". Nessa frase, o 'a' final de "discipula", além de marcar o feminino e o singular, marca também o sujeito da frase. De modo diverso, na frase: Vi a 'aluna', com apenas 'a' final, a palavra aluna exerce a função de objeto direto, porém, não há mudança de desinência nominal para marcar essa diferença de função. A palavra permanece 'discipula', com apenas 'a' final, da mesma forma da primeira frase. Em língua portuguesa, teremos a forma 'aluna'com a mesma vogal 'a' final para ambos os casos. Já, em latim, não. O objeto direto, na declinação da palavra, faz com que ela mude. Termos a frase latina em que a palavra aluna exerce a função de sujeito. Discipula currit. Porém, quando existe um objeto direto, como é o caso de Vi a aluna, a frase muda: "Discipulam vidit." Em português, a palavra permanece com o 'a' final. Em latim, no entanto, o objeto direto das palavras terminadas em 'a' termina sempre em 'am'. Assim, todas as palavras tinham seis formas diferentes de marcar as funções sintáticas no singular e seis para marcar as funções do plural. As tabelas que classificam as palavras são conhecidas como declinações, que nada mais são do que tabelas das modificações morfológicas (das terminações das palavras) de acordo com a função sintática que exercem em cada frase.
Temos de levar em consideração que a maioria dos cidadãos romanos, no tempo da conquista da Península Ibérica por Roma, era analfabeta. Falavam, portanto, variantes menos cultas do idioma latino e desconheciam completamente a língua escrita. Além do mais, a conquista se deu por mão de pobres soldados. Foram eles que impuseram a língua latina aos falantes. Somente poderiam ensinar o dialeto latino que sabiam e falavam.
O 's' final latino marcava a forma plural de quase todas as palavras na função de objeto direto, sofisticação demasiada para militantes de baixíssimas patentes. Desse modo, a frase: Vi as lunas, seria em latim: "Discipulas vidit." Esse 's' foi entendido por eles omo marca única e exclusiva de plural e acabou-se a discussão. 
No entanto, o plural latino era 'ae' para o sujeito da primeira declinação, era 'i', para o plural da segunda declinação, grupos que dão conta da maioria dos vocábulos de uso cotidiano. Assim, em italiano, a língua neo-latina mais próxima do latim, é 'e', que se constitui numa simplificação do 'ae' latino,  para as palavras femininas, e 'i', para as palavras masculinas. O plural de "ragazza" (a moça) é "ragazze" (as moças); e o plural masculino de "ragazzo" (o rapaz) é "ragazzi" (rapazes). Também outra simplificação do latim clássico, porque esquece os plurais de todos os outros casos.