terça-feira, 13 de janeiro de 2015

A PAPISA JOANA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
A Papisa Joana de fato existiu ou é uma criação do anticatolicismo? Essa é uma questão muito discutida. Por muito tempo, sua existência foi negada pelos apologistas do catolicismo. Mesmo hoje, a oficialidade eclesiástica não reconhece a existência da Papisa.
Segundo a versão mais corrente, ela seria uma jovem que se teria passado por menino e ingressado num seminário e aí educada entre seminaristas.
O século IX foi um período conturbado na Igreja Católica. Com o falecimento do Papa Leão IV, em dezessete de julho de 855, sucedeu-lhe Bento III, também em 855, no entanto em 29 de setembro, permanecendo no trono até 858, porém, se lhe opôs um anti-papa, Anastácio II, que contestou o papado de Bento. Esse período entre 17-07 e 29-09 poderia ter sido o papado de Joana. Há mesmo quem afirme que seria um mandato muito maior, de mais de dois anos.
A história de Joana é meio mítica. A versão mais difundida é que seria filha de um sacerdote inglês que migrara para a Alemanha, Mainz (Mogúncia), no período da conquista de Carlos Magno. Esse sacerdote engravidara uma jovem que levou consigo para essas terras conquistadas pelo cristianismo. 
Dessa união, nasceu Joana. Há muitas discordâncias sobre seu nome primitivo e a exatidão de sua biografia.
Papisa Joana
Orientada pelo pai, douto sacerdote, tornou-se, desde cedo, reconhecida pela sapiência. Na adolescência, um frade apaixonou-se por ela e a convenceu a usar vestes masculinas e ingressar na Abadia de Fulde onde ele estudava. Convencido o abade de que se tratava de um novo seminarista, ela foi acolhida na comunidade, onde foi confiada à orientação do sábio Raban Maur.
Constrangidos pela situação, decidiram os jovens amantes a fugiram para a Inglaterra, onde obtiveram grande prestígio, sempre como um par de monges. Joana, oculta pelo hábito monacal, parecia um belo jovem culto e penitente. Porém, seu jovem amante foi acometido de um mal incurável e faleceu.
Logo a seguir, após breve estada na Grécia e em Jerusalém, Joana fixa-se em Roma como professor de retórica, consagrando-se como grande mestre e príncipe dos sábios.
Nesse tempo, o papa Leão IV estava enfermo e Joana tinha pretensões ao trono de Pedro. Por seu prestígio, o monge que atendia pelo nome de João, com a morte do papa Leão IV, assumiu o papado com o nome de João VII.
Porém, consumida de paixão por um membro da corte sagrada que, a esse tempo, funcionava na Igreja de São João de Latrão, uma vez que o Vaticano somente seria construído muitos séculos mais tarde, Joana, como papa, engravidou.
Foi-lhe fácil esconder a gravidez em razão das folgadas vestes papais. Porém, numa procissão, entre o coliseu e a Igreja de São Clemente, deu à luz em plena rua, diante da multidão. O povo, revoltado pelo fato, acorrentou-a e executou naquele mesmo local. Há diversas versões da morte da papisa, bem como do destino da criança dela nascida.

No entanto, o fato de uma mulher ter-se assentado no trono de São Pedro originou um costume que se perpetuou, desde então. O trono passou a ser furado por baixo para que se faça um exame de toque em seu pretendente para confirmar sua masculinidade.
Muitos até hoje rejeitam a veracidade de ter havido uma mulher na história que tenha ascendido ao trono papal. Aliás, Joana não é a única mulher a investir-se das vestes sacerdotais. Observe-se a história de Santa Tecla, que em trajes eclesiásticos, acompanhava São Paulo em suas viagens. Uma crônica lombarda narra a história de um monge de Monte Cassino, cujo texto aponta para a história de uma mulher que fora patriarca de Constantinopla.
O tema parece muito atual neste momento em que se discute o estabelecimento do sacerdócio feminino na Igreja Católica, como já ocorreu e ocorre em muitas religiões.