quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

GUERRAS DE RELIGIÃO NA EUROPA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
As chamadas guerras de religião, na Europa, tiveram sempre o mote religioso como pano de fundo, porém, desenvolveram-se por trinta anos, durante o século XVII. São conhecidas também pelo nome genérico de Guerra dos Trinta Anos, que considero impróprio, pois não se constituíram em um único conflito e envolveram diferentes povos em seu desenrolar.
Martinho Lutero tinha promovido, na primeira metade do século XVI, o movimento que ficou conhecido como Reforma Protestante, a partir do catolicismo da Alemanha, vindo a atingir, posteriormente, também parte da França, do Reino Unido, dos Países Baixos (BENELUX), parte dos países escandinavos e do leste europeu.
Em 1517, nas portas da igreja do castelo Wittenberg, protestou contra diversos pontos da doutrina da Igreja Católica Romana, divulgando seus princípios fundamentais que passaram a ser conhecidos como Cinco Solas. Eram elas representadas por cinco expressões latinas: Sola Fide (somente a fé); Sola scriptura (somente a escritura); Solus Christus (somente Cristo); Sola gratia (somente a graça) e Soli Deo gloria (glória somente a Deus).
Como reação à proposta protestante, aconteceu o massacre da noite de São Bartolomeu. Os reis da França apoiavam o catolicismo romano e promoveram um massacre de partidários do protestantismo em Paris, na noite de 23 para 24 de agosto de 1572, dia de São Bartolomeu. Na realidade, esses massacres se prolongaram pelos meses seguintes.
Uma manhã nos portões do Louvre,
pintura de Édouard Debat-Ponsan.
Na realidade, a Reforma escondia conflitos entre a Igreja de Roma e diversas cortes europeias de então. Havia uma concepção geral cristã de que o poder provinha de Deus. Quem oficializava a divina legitimidade do poder era o papa. Muitos conflitos populares se deram por toda a Europa e o resultado prático foi a divisão do continente em dois blocos: o católico e o protestante.
Em 1545, a Igreja Romana convoca o Concílio de Trento que toma medidas para se opor ao protestantismo, especialmente restabelecendo o Tribunal do Santo Ofício, conhecido como sagrada inquisição. Criou-se um Index Librorum Prohibitorum (conhecido depois apenas como Index), que trazia uma listagem de obras cuja leitura era proibida aos cristãos. Sugem novas ordens religiosas, sendo a mais importante delas a Companhia de Jesus, cujos membros passaram a ser conhecidos como jesuítas.
A ordem é fundada por um grupo de estudantes de Paris, liderados pelo jovem basco espanhol Iñigo López de Loyola, que se consagraria na história como Inácio de Loyola. Inácio, num combate contra os luteranos em Pamplona, é ferido e confinado por longa convalescência em que passa a ler “Flos Sanctorum”, de Jacopo de Varazze, uma coleção de vidas de santos de diversos países daquele tempo.
Castelo de Warttenburg - Turígia

A partir dessas leituras, Inácio chega à conclusão que a melhor forma de se combater o protestantismo era através do ensino e não através da espada, como iniciara em sua carreira. Em vez de soldados, cria uma ordem religiosa de professores e uma rede mundial de escolas. Recebe, então, como adeptos à sua ordem, uma legião de sábios de todas as áreas, desiludidos com a situação social de seu tempo. Assim, forma uma das ordens religiosas mais influentes em todo o mundo. Quase todos os grandes homens, desde os meados do século XVI, receberam influência ou formação jesuíta. Aliás, nosso Papa Francisco é jesuíta.
Porém, esse não foi o único, nem o mais importante movimento desses tempos. Passados os primeiros conflitos religiosos originados da reforma protestante, assinou-se a Paz de Augsburgo. Esse acordo foi assinado entre Carlos V, da Espanha, e a Liga de Esmalcalda, que reunia os reis luteranos do Sacro Império Romano.
Acontece que os reis germânicos protestantes, que estavam em conflito com o Império de Habsburgo, em Viena, que viria a formar o futuro Império Austro-Húngaro, tinham de enfrentar a invasão dos turcos do Império Otomano. Carlos V, católico, faz um acordo com a França, também católica, e com os reis protestantes do Sacro Império, e com o Papa Paulo III, reúnem um poderoso exército e vencem os otomanos.
Essa aliança gerou uma tolerância ao protestantismo dentro do Sacro Império Germânico, que tinha sede em Paris, mas que incluía grande parte da Germânia. Criou-se um princípio que cada rei teria sua religião.
Porém, com o surgimento do calvinismo, um grupo radical que acreditava ter Deus eleito um grupo de privilegiados para o paraíso, ficando os demais destinados ao inferno, reacenderam-se as guerras de religião por toda a Europa. Geralmente, o sucesso na profissão e o sucesso financeiro seriam sinais de que esses cidadãos pertenciam ao número dos escolhidos. Há quem diga que João Calvino, com sua obra Instituição da Religião Cristã, de 1534, é o verdadeiro criador do capitalismo.
Com Fernando II de Habsburgo, educado pelos jesuítas, começa o projeto expansionista dos Habsburgos. Esse expansionismo era uma ameaça tanto para os protestantes vizinhos, como para a França. Os conflitos internos entre os reis germanos favoreciam os propósitos de Fernando. Um exemplo disso é a Boêmia, atual República Checa, em que a disputa pelo trono colocou, frente a frente, católicos e protestantes. Fernando buscou o apoio da Espanha e do Papa para defender os católicos. Os exércitos de Fernando, católico, atacaram a maioria protestante e dominaram a Boêmia e a Morávia, defenestraram ministros e deputados, destruíram igrejas protestantes e impuseram o domínio dos Habsburgos na região.
Aumenta ,então, o atrito entre os franceses o os Habsburgos. Fernando II foi imperador do Sacro Império Romano de 1619 a 1637, quando faleceu. As guerras de religião empobreceram comprometedoramente a Alemanha, pois, os conflitos, em sua maioria, desenvolveram-se em seu território. Criaram-se muitas divisões internas. Em 1648, quando são feitos os acordos finais, a França sai altamente favorecida, consolidando sua influência econômica em toda a Europa.
As guerras de religião, muito mais do que conflitos religiosos, escondiam os interesses pessoais de reis, tanto católicos quanto protestantes, que usavam da fé popular para consolidar seu poder e riqueza. É o que ocorre especialmente com a casa dos Habsburgos, que se valeu do apoio papal e espanhol para construir um poderoso império que desaguaria no Império Austro-Húngaro.