sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

OS MUCKERS - A SANGRENTA LUTA RELIGIOSA NO RIO GRANDE DO SUL, NO FINAL DOSÉCULO XIX

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Na segunda metade do século XIX, houve um conflito sangrento entre grupos religiosos, na comunidade de origem germânica, situada, então, em São Leopoldo, no estado do Rio Grande do Sul, mais precisamente no vale do Rio dos Sinos, o Reno gaúcho.
As colônias de imigrantes eram divididas em linhas, região agrícola que congregava agricultores de ambos os lados de uma estrada rural, conhecida como linha. Pois essa cruenta luta religiosa iniciou-se na linha Ferrabraz, região situada hoje no município de Sapiranga, envolvendo também os atuais municípios de Campo Bom, Novo Hamburgo e Lomba Grande, de modo especial.
Jacobina Maurer, esposa de João Jacó Maurer, na ausência de sacerdotes e pastores que promovessem os cultos religiosos, iniciou por interpretar a Bíblia na comunidade. Ela tinha ataques epilépticos que passaram a ser interpretados com sinais divinos. Aos poucos, a pregadora passou a ser considerada como uma reencarnação de Jesus Cristo.
Jacobina Maurer
Nessas comunidades de imigrantes alemães, obrigados a abandonar suas terras na Europa, em consequência das invasões napoleônicas nos reinos do norte da Alemanha, havia tanto católicos quanto protestantes. Porém, como o Império Brasileiro era católico, houve um favorecimento nas heranças para os filiados à Igreja Romana.
Embora a distribuição de terras públicas aos imigrantes fosse feita igualitariamente, sem considerar o credo religioso, como o país ainda não tinha um sistema notarial de registros civis organizado em toda parte, as igrejas católicas faziam os registros de nascimentos, batizados, casamentos e óbitos. Dessa forma, os protestantes ficavam excluídos desses serviços, sendo prejudicados no momento de reconhecimento de suas heranças. Isso criou um clima de insatisfação na comunidade luterana, gerando também um velado clima de disputa entre os dois grupos religiosos.
Havia também, na região, um sentimento de traição, pois lhes havia sido prometido apoio financeiro e técnico por parte do Império, porém, quase nada foi cumprido. Entregaram-lhes apenas as terras, sem praticamente mais nada. Tiveram que sobreviver com a caça, a pesca e com os frutos silvestres até conseguirem derrubar as florestas e plantar as primeiras lavouras, bem como lhes coube a abertura da maioria das estradas, que, nos primeiros tempos, não passavam de picadas, abertas a machado e facão.
Nessa situação, além de Jacobina liderar o culto, João Jacó Maurer era uma espécie de curandeiro rural, chamado no local de “Wunderdoktor”, médico maravilhoso, uma forma de ironia. Recolhia os doentes na própria casa e deles tratava.
No final do século XIX, por volta de 1872, criou-se uma comunidade de seguidores de Jacobina, que já era considerada um novo Messias. Construíram um templo no morro do Ferrabraz e, ao redor dele, as casas dos membros da comunidade.
Esse grupo passou ser malvisto pelos líderes econômicos locais. Surgiram conflitos. No ano seguinte, em 1873, o casal Maurer foi preso pelo período de quarenta e cinco dias. Os demais membros da comunidade passaram a denominar os seguidores de Jacó e Jacobina de Muckers, ou seja, santarrões, em alemão. Destaque-se que entre os Muckers havia tanto católicos quanto protestantes. Tanto os sacerdotes católicos quanto os pastores luteranos os rejeitavam.

Túmulo de Jacobina
Apesar disso, os seguidores de Jacobina aumentavam em número e em dedicação ao culto religioso. Mesmo alguns importantes líderes regionais se aliaram a eles e passaram a fazer parte dessa comunidade religiosa.
Em 1874, foi atribuída aos Muckers uma série de atentados e crimes, como assassinatos e incêndios de casas comerciais e residências.
No final de junho de 1874, a polícia local, mal preparada, atacou os Muckers. Eles, acreditando na imortalidade de Jacobina, resistiram bravamente, com o improvisado armamento que tinham, composto apenas de alguns velhos revólveres e umas armas de caça. Tamanha era a inexperiência das tropas oficiais, que entraram com canhões em uma terra recém lavrada, e ficaram atolados, não podendo os cavalos movê-los em frente. Tornaram-se, desse modo, alvos fáceis dos fanáticos religiosos que, em muito maior número, os abateram e tomaram posse de seus armamentos. Os militares tiveram 39 baixas, contra apenas 6 dos Muckers. Isso foi interpretado como uma proteção divina.
O coronel Genuíno Olímpio Sampaio, que comandara o desastrado ataque anterior, em 18 de julho seguinte, cerca o templo dos Muckers, mata 16 membros da seita, porém, Jacobina consegue se evadir, protegida por seus adeptos. O coronel, no entanto, foi ferido, vindo a falecer de hemorragia no dia seguinte.
No dia 21, ainda houve um outro ataque infrutífero, uma vez que, utilizando o método de guerrilha, os Muckers, espalharam-se pela floresta. Insistentemente, no dia 2 de agosto, guiados por um traidor, Carlos Luppa, os militares voltaram a atacar.
Região onde viveram os Muckers

Uma força militar de 506 homens, sob a liderança do Capitão Dantas, apoiados por mais de 300 colonos contrários aos fanáticos, foram guiados pelo traidor Luppa, pela floresta do Ferrabraz, onde jacobina estava escondida com um grupo que somava apenas dezessete pessoas. Um jornal da época afirma que os soldados todos se portaram bravamente no ataque. Todos os Muckers aí encontrados foram massacrados e enterrados numa vala comum Com eles, Jacobina.
A inabilidade das forças de repressão destruiu um grupo de fanáticos religiosos que poderia ter sido, habilmente, conduzido a um acordo pacífico e a uma reorganização da comunidade local. Nesse tempo, sucedeu o mesmo com o grupo de Antônio Conselheiro, na Bahia, onde milhares de caboclos foram massacrados pelas tropas do exército
Euclides da Cunha narrou essa tragédia magistralmente em Os Sertões, e Mário Vargas Llosa em A Guerra do Fim do Mundo, voltou a esse tema. Esses exemplos comprovam a inabilidade dos comandos militares em atuar nos movimentos sociais, nesse período em que a nação enfrentava os problemas iniciais, nos primórdios da formação nacional. Nosso país acolhia cidadãos das mais diversificadas origens sociológicas, religiosas e políticas. Exigia-se maior preparo por parte dos chefes da nação. O escritor gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil analisa, em detalhes, o conflito dos Muckers e suas paixões, em sua excelente narrativa, intitulada Videiras de Cristal.