domingo, 25 de janeiro de 2015

MITO DO ETERNO RETORNO

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Desde o século VI a. C., os estudiosos têm manifestado uma grande preocupação com a história. Heráclito de Éfeso afirma que o mundo está em constante transformação a que ele chama de devir.
De Nietzsche, no século XI a Mircea Eliade, no século XX, muito se discutiu sobre o devir e o mito do retorno. O mito de Perséfone, na Grécia antiga, que passava o inverno com Hades nas profundezas da Terra, quando na superfície o inverno castigava o mundo,  e o verão com a mãe Deméter, quando a vegetação se renovava, é uma constatação da repetição dos fenômenos naturais.
Já, na mitologia, se criaram os arquétipos de repetição, que tornarão mitologemas heróis reais ou míticos. Karl Gustav Jung tem um livro célebre sobre a teoria dos arquétipos, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, em que mostra a função dos mitos na interpretação. Sobre isso, diz Junito Brandão em sua Mitologia Grega: “Na verdade, o Mito, como verdade última, é elemento de orientação do ser. O homem, desde suas origens, não produz os Mitos. As idéias mitológicas ocorrem a ele; ele não as pensa, mas é pensado por elas, poderíamos dizer. Os núcleos componentes de todos os Mitos das diversas culturas, os mitologemas, representam estruturas mentais básicas de todos os homens... Geia, Deméter, Sêmele... expressam o arquétipo da Grande Mãe.” (Brandão, Mitologia Grega, vol. I, orelha). 
Publius Ovidius Naso
Como diz Mircea Eliade em seu Mito do Eterno Retorno: “Na maior parte das sociedades primitivas, o Ano Novo equivale ao levantamento do tabu sobre as novas colheitas, que são assim declaradas comestíveis e inócuas para toda a comunidade. Nos lugares onde diversos tipos de grãos e frutas são cultivados, amadurecendo sucessivamente durante as diversas estações, algumas vezes encontramos a celebração de festivais do Ano Novo. Isso significa que as divisões do tempo são determinadas pelos rituais que orientam a renovação das reservas alimentares; isto é, os rituais que garantem a continuidade da vida da comunidade por inteiro. Isso não justifica qualquer conclusão de que esses rituais seriam meros reflexos da vida econômica e social: nas sociedades tradicionais, os aspectos “econômicos” e ”sociais” tinham um significado completamente diferente daquele que lhes dão os modernos europeus.) A adoção do ano solar como unidade de tempo é de origem egípcia. A maior parte das demais culturas históricas — e mesmo o próprio Egito, até um determinado período — tinha um ano, ao mesmo tempo lunar e solar, com duração de 360 dias (ou seja, 12 meses de 30 dias cada um), ao qual foram acrescentados cinco dias intercalados. Os índios zuni chamavam os meses de "passos do ano", e o ano de "passagem do tempo".
Os judeus antigos tinham uma concepção hierofânica da história. Isto é, todos os fenômenos históricos eram revelações divinas. Assim, uma derrota militar, uma tempestade ou uma seca eram castigos divinos pelos pecados cometidos. Pelo contrário, as vitórias, a chuva, as boas colheitas eram manifestações divinas de que o povo estava agindo de acordo com a vontade divina.
Muitos povos representavam a história como uma serpente com o rabo preso à boca. Simbolizava que a história, como o ano cósmico, se repetia constantemente. Há hoje quem afirme de outra forma, que a história é um espiral. Os fenômenos se reptem, mas m outro nível.
Há, também o mito, que se iniciou entre os gregos e que os romanos apresentam magistralmente em As Metamorfoses de Públio Ovídio, em que se crê em um tempo primordial, em que as coisas eram melhores do que são hoje. Ovídio fala em uma era de ouro: “Ocorreu durante o governo de Cronos. Os homens viveram livres de sofrimentos, paz e harmonia predominaram durante esta era. Os humanos não envelheciam, mas morriam pacificamente. A primavera era eterna e as pessoas eram alimentadas com bolotas de um grande carvalho, com frutas silvestres e mel que gotejava das árvores. A principal característica dessa era, consistia em que a terra produzia comida em abundância, de modo que a agricultura era uma atividade supérflua. Esta característica também define quase todas as versões posteriores do mito. Esta era terminou quando Prometeu deu o segredo do fogo aos homens.” (Resumo do poema de Ovídio).
Esse mito existe até o presente momento no imaginário das pessoas que afirmam ter sido a realidade do passado muito melhor do que a de hoje.
As religiões sempre apresentam um conceito transcendente da história. Haverá um futuro ligado à divindade, um paraíso, que será o prêmio das boas ações humanas, ou o castigo para as más.
Friedrich Nietzsche
Porém, a abordagem mais complexa do mito do retorno é a apresentada por Nietzsche em sua obra Gaia Ciência. Diz ele: “E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem  – e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente – e você com ela, partícula de poeira!’.  – Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: “Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!”. Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, “Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?, pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela” – (Friedrich Nietzsche, Gaia Ciência, 341.)
O filósofo alemão não cria em qualquer intervenção divina. Para ele, a existência é completamente imanente. Não existe nenhum grau de transcendência.
Essa obra é o texto fundamental da filosofia do autor, aliada a outra: Assim Falava Zaratustra. Como entender essa afirmativa do filósofo? Ele mesmo não esperava nenhuma univocidade, pois não cria em uma verdade. Para ele não há fatos, há simples interpretações.
Rafael Trindade se pergunta a partir do mito proposto por Nietzsche “O Eterno Retorno talvez seja um dos pensamentos mais conhecidos e importantes de Nietzsche. Procurando encontrar alternativas para fugir do niilismo decorrente da morte de Deus, o pensador alemão invoca a ideia do Eterno Retorno como possibilidade de aceitar e afirmar a vida. O importante não é pensá-lo como uma hipótese cosmológica, mas sim como um desafio ético. Você viveria sua vida mais uma vez e outra, e assim eternamente? Se você fosse condenado a viver a mesma existência infinitas vezes, e nada além disso, como se sentiria?” (https://arazaoinadequada.wordpress.com/2013/02/26/nietzsche-eterno-retorno/).

Esse eterno retorno seria o fundamento de uma ética do comportamento humano, o fundamento essencial de uma ética exclusivamente de cunho imanentista.