segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O CRISTIANISMO E SEU DESENVOLVIMENTO

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

O cristianismo teve um desenvolvimento diferenciado em sua história. Primeiramente, temos o período que tem início com a própria atuação de Jesus Cristo e o cristianismo descrito nos Atos dos Apóstolos. Em seguida, vem a grande decadência que se inicia com a atuação do imperador Constantino, na primeira metade do século IV. Por fim, com o aggiornamento, proposto pelo Papa João XXIII (Angelo Giuseppe Roncalli), no Concílio Vaticano II, e continuado pelo Papa Paulo VI (Giovanni Battista Montini), há um frágil movimento rumo à Igreja dos primeiros tempos.
No início da era cristã, o cristianismo era um movimento revolucionário porque opunha valores humanos que contrastavam com os próprios da elite romana, que sugava o mundo, em benefício de seus próprios interesses. Lucas, nos Atos, faz uma história dos primeiros cristãos, mas é preciso observar que ele era grego e era médico também.
Portanto, não se tratava de um homem ingênuo. Conhecia a filosofia grega e entendeu a novidade da proposta cristã. Estava-se nos tempos de uma filosofia helenística, não mais helênica. O período helênico era unicamente grego. O período helenístico gerava duas tendências: uma conservadora, que buscava um purismo grego extremado; uma revolucionária, em que se fundiam os valores gregos com as propostas de outros povos.
Papa Francisco
Assim, o estoicismo grego, depois assumido por influentes pensadores Romanos como Lúcio Sêneca, molda o modus vivendi cristão, marcado pela moderação. Lucas foi companheiro de Paulo, o apóstolo. Nascera em Antioquia, que era uma enorme cidade com mais de meio milhão de habitantes a esse tempo, sendo uma das quatro maiores cidades do mundo. Situa-se na atual Anatólia, na Turquia, que havia feito parte do império de Alexandre Magno. Esse fato levara-o ao conhecimento da sofisticada filosofia grega.
Essa Igreja dos Atos dos Apóstolos era uma instituição pobre e missionária. Daí vem sua grande aceitação pelos mais diferentes povos, de modo especial, pelas camadas menos favorecidas dos romanos cujos domínios atingiam as mais importantes regiões do mundo, incluindo Israel e os países outrora pertencentes ao império grego-alexandrino. 
Apenas para elucidar os fatos, lembremos que dos 33 papas que se iniciam com o apóstolo Pedro e chegam até Malaquíades, que precedeu o reinado de Constantino, a maioria, em torno de trinta morreram mártires. Porém, com a liberação do culto cristão por Constantino e a subsequente conversão do imperador à religião cristã, a situação mudou. Silvestre I assume o papado. Começam-se as construções das grandes basílicas: a Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, a Igreja de São João de Latrão, em Roma, a que seguiram muitas outras. Os papas passaram a viver no palácio Laterano, que precedeu o Vaticano, como sede do governo da Igreja.
Papa João XXIII
Gradativamente foi-se formando o que passou a se chamar de Estado de Cristandade. Constantino, em 325, convoca, junto com Silvestre I, o Concílio de Nicéia. Organiza-se, então, o direito canônico, e se estabelece a Páscoa Cristã. Assim, muitos creem e afirmam que o criador do cristianismo, mais do que Jesus Cristo, é Constantino.
Esse foi o início do descaminho do cristianismo, que continuaria com o acordo com o Sacro Império Romano Germânico, no Natal de 800, entre o Papa Leão III e o Imperador Carlos Magno. O imperador reconhece o poder de rei ao Papa, com mandato sobre os Estados Pontifícios, um reino situado no centro da Itália entre Nápoles e Florença. 
Esse reinado material gradativamente corrompe muitos papas e o papado se torna uma disputa de reinado. Por fim, em 1861, uma revolução unifica a Itália, porém, o Papa se recusa a entregar os Estados Pontifícios ao novo rei.  Somente em 1871, com a Guerra Franco-Prussiana, em que a França retira definitivamente seu apoio ao papado. O Vitório Emanuel II assume também os Estados Pontifícios e muda-se para o Palácio Quirinal, até então residência papal.
Imperador Constantino
Enfraquecida materialmente, a Igreja vai-se, aos poucos, voltando-se aos seus reais objetivos, ou seja, cuidar da religião. Porém, essas mudanças são lentas. Um dos fortes movimentos ao encontro de seu real caminho e de sua missão como Igreja, congregadora, acontece com a eleição do cardeal Angelo Giuseppe Roncalli, como Papa João XXIII. 
O Papa Pio XII faleceu inesperadamente enquanto o Vaticano preparava Giovanni Battista Montini, para sucedê-lo. Como Montini ainda não era cardeal, não poderia ser eleito Papa. Decidiram fazer um mandato tampão com o velho Roncalli. Pois ele surpreendeu a todos com sua revolucionária política religiosa de aggiornamento. Convocou um Concílio e estabeleceu as bases da renovação eclesiástica em todos os setores. 
Com sua morte, Montini continuou sua obra, que seria levada adiante especialmente pelo polonês João Paulo II e segue com o atual Papa argentino Francisco, profundamente carismático e firme em suas resoluções, sem se perturbar diante de sua poderosa oposição conservadora.