segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

MINHA VISITA ÀS RUÍNAS DE POMPEIA EM FEVEREIRO DE 2008

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Era janeiro de 2008, acabáramos, minha esposa Cristina e eu, de realizar uma longa viagem rodoviária de mais de três mil quilômetros, desde Lisboa, passando por todo o interior da Espanha, o sul da França e depois descêramos pelo Itália, de Veneza até Roma. Decidimos, então, visitar Nápoles, que se encontra a pouco mais de 200 km ao sul da capital.
Nápoles é a terceira cidade italiana em número de habitantes, abrigando em torno de um milhão e meio de cidadãos. Porém, se somarmos as outras cidades menos populosas dos arredores e os habitantes rurais, teremos mais de três milhões de pessoas nos arredores do vulcão, por ele atingíveis. Consiste na maior concentração humana em região vulcânica.Além do mais, Nápoles é também um importante centro industrial e comercial.
Essa cidade tem sua espada de Dâmocles pendurada sobre a cabeça, que é o Vesúvio. Na maior erupção da história, o magma, a mais de 700º graus, desceu até as águas da baía de Nápoles e o mar ferveu, segundo a narrativa de Plínio, o Jovem. Foi vítima dessa tragédia o tio do narrador, Plínio o Velho, desejando fazer estudos sobre o vulcão e auxiliar os desamparados.
erupção do Vesúvio de 1944

Nossa curiosidade na velha Nápoles, cidade fundada pelos gregos ainda muito antes de Cristo, era o Vesúvio. Desde o tempo dos antigos romanos, este vulcão é famoso. Ele se situa a pouco mais de vinte quilômetros da cidade, em uma estrada que leva de Nápoles ao centro da Itália. A maior erupção do século XX ocorreu em 17 março 1944, em que foram destruídas as populações de San Sebastiano AL Vesuvio, Massa di Somma e parte de San Giorgio em Cremano, enquanto que a Segunda Guerra Mundial avançava na Itália.
Ocorria a invasão norte-americana da Itália. Com Vesúvio cuspindo lava e cinzas, os  jipes do Exército dos USA. fugiam com pressa. A erupção ocorreu poucos meses após a chegada das forças aliadas em Nápoles e causou grandes problemas. Um esquadrão inteiro de 88 bombardeiros B-25 da USAF foi destruído durante a erupção do vulcão. Alguns religiosos fanáticos acreditavam que fosse Deus defendendo a Itália.
jipes dos USA, fugindo do Vesúvio na guerra,  em 1944
Voltando ao Monte Vesúvio, trata-se, geologicamente, do resultado do choque entre duas placas tectônicas com movimentos convergentes, a placa Africana e a Euroasiática. A Africana, sendo a menos densa mergulhou sob a outra ficando o seu material sobre grande pressão. Assim este material foi começando a aquecer até fundir-se, formando magma. Como o magma é menos denso que a rocha sólida que o envolve, foi empurrado para cima. Quando conseguiu encontrar um ponto mais débil e fraco na crosta, o magma rompeu-o, gerando a erupção do vulcão.
Com 1220 metros de altura, desde 1944, o Vesúvio não entra em erupção. Em 1968, deu alguns sinais de atividade, não chegando a expelir lava. Estudiosos descobriram um enorme bloco rochoso obstruindo a saída do vulcão que poderia estar funcionando como uma rolha de champanha. Segundo alguns especialistas, uma colossal pressão originada pelo magma gerado pela pressão das placas tectônicas se estaria concentrando sobre esse tampão de rocha. A explosão seria uma questão de tempo. Sendo hoje, como se viu, as populações vizinhas muito numerosas, em questão de minutos, poderiam ser dizimados milhões de cidadãos.
Em termos de mitologia, o Vesúvio era um lugar sagrado tanto para os romanos quanto para os gregos, pois seria o lugar em que Héracles (Hércules, para os romanos) teria nascido. Na encosta do monte, situava-se Herculanum, cidade natal do herói.
No entanto, a erupção historicamente mais relevante do Vesúvio foi a do ano 79 d. C., descrita por ilustres escritores como Plínio o Jovem. Essa desastrosa manifestação da natureza destruiu especialmente três importantes cidades daquele tempo: Pompeia, Herculanum e Estábia. 
Pompeia, que visitamos nessa ocasião, tinha, no tempo de sua destruição, em torno de vinte mil habitantes. Os seus moradores já se haviam habituado aos tremores de terra de pequena intensidade, comuns naquela época. Em 62 d. C., um abalo sísmico havia provocado sérios estragos nos arredores da baía de Nápoles. Pontes, prédios e templos haviam ruído. Em Pompeia, havia provocado muitos e sérios desastres.
Porém, em 79, a erupção foi catastrófica. Plínio, o Jovem tinha uma residência de campo (Villa, para os romanos) em Miseno, do outro lado do golfo de Nápoles. Desse ponto privilegiado, pode observar a calamidade. Veja-se sua descrição:
“Era o nono dia antes das calendas de setembro (24 de agosto, em nosso calendário), pela sétima hora (13 horas, para nós), quando minha mãe me mostrou que se formava uma nuvem volumosa e de forma incomum. Havia tomado seu banho de sol, depois um banho frio, e, num leito, estudava. Levantou-se e subiu a um lugar do qual podia ver melhor. A nuvem parecia-se muito com um pinheiro porque, depois de elevar-se em forma de um tronco, desabrochava no ar seus ramos. Creio que era arrastada por uma rápida corrente de vento e que, quando esta cedia, a nuvem, vencida por seu próprio peso, dilatava-se e expandia-se, parecendo às vezes branca, às vezes escura ou de diferentes cores, conforme estivesse mais impregnada de terra ou de cinzas. O Vesúvio brilhava com enormes labaredas em muitos pontos e grandes colunas de fogo saíam dele, cuja intensidade fazia mais ostensivas as trevas noturnas. O dia nascia já em outras regiões, mas aqui continuava noite, uma noite fechada, mais tenebrosa que todas as outras; a única exceção era a luz dos relâmpagos e outros fenômenos semelhantes..Podiam-se ouvir os soluços das mulheres, o lamento das crianças e os gritos dos homens. Muitos clamavam pela ajuda dos deuses, mas muitos outros imaginavam que não havia mais deuses e que o Universo estava imerso numa eterna escuridão”. (Plínio, o Jovem, Epistolae, Livro VI – Trata-se de uma carta de Plínio a seu jovem amigo Tácito, futuro historiador, que lhe solicitava a descrição do que havia visto em Pompeia).
Somente 1600 anos depois da tragédia de Pompeia é que se iniciaram as escavações de estudos no local. Até essa época, somente os ladrões e vândalos escavavam para roubar os objetos de valor que os fugitivos atingidos pelo magma carregavam consigo. Geralmente, quebravam-lhes as mãos que podiam conter objetos preciosos.
Sempre o Vesúvio - pavoroso e lindo
As escavações arqueológicas somente se iniciaram no final do século XVIII, em Pompeia, quando começaram a emergir monumentos importantes, como o templo de Isis, o de Apolo e o Grande Teatro, bem como milhares de corpos petrificados, a maioria dos quais se encontra ainda lá, sobre mesas ou ao solo. Acredita-se que tenham sido mortos pela erupção, em Pompeia, em torno de dezesseis mil pessoas.
As escavações arqueológicas continuam até hoje. Um dos arqueólogos confirmou-me que há trabalho para mais, pelo menos, duzentos anos. A fase atual dedica-se a minúcias que revelam o modo de vida desse povo. Dedicam-se, os estudiosos, aos pequenos objetos caseiros ligados a costumes culturais e religiosos, indicadores de crenças e concepções da vida e da existência. Os trabalhos são extensos, mesmo porque há muitas áreas da cidade ainda não escavadas. Foram, primeiramente, escavados os prédios e as ruas centrais da cidade, restando os bairros periféricos.
Alguns prédios estão bastante conservados, podendo-se identificar os nomes dos moradores e até mesmo as pinturas das paredes, porém, toda a parte de madeira que sustentava os tetos simplesmente desapareceu pelas altas temperaturas das emanações vulcânicas.
A narrativa de uma das cartas de Plínio, o Jovem, a seu amigo Tácito, feita 25 anos após a catastrófica ocorrência, afirma também que, por volta das 13 horas, teria iniciado uma chuva de cinzas que se ia adensando mais e mais. Em determinado momento, a própria cúpula teria explodido e enormes blocos teriam sido jogados pelos ares, a grande altura e distância. Assim, o monte que teria em torno de 1.280 metros de altura, reduzira-se para os 1.220 metros atuais.
O Vesúvio encobriu também, nessa tragédia do ano 79 d. C., as cidades menores de Herculanum e Estábia. Enquanto Pompeia era uma rica cidade agrícola, destacada pela fertilidade de seu solo, Herculanum era uma cidade muito menor, destinada, essencialmente, aos ricos, especialmente aos sábios, que aí construíam residências de luxo destinadas ao lazer e à reflexão.
Ao se transitar pelas ruas de Pompeia, entra-se em um clima de tragédia. Veja-se o aspecto de uma rua central da cidade como se encontrava no gélido fevereiro de 2008.













Uma das cenas que mais me chocou, ao observar os corpos petrificados pelo vulcão, foi a imagem de uma criança, com aparência de uns doze anos, sentada, com as mãos à cabeça, numa atitude de completa impotência diante do ímpeto da natureza. Sem nada entender, simplesmente sentou-se. E lá está hoje, entre caixotes e velhos vasos, num depósito.













Outra cena marcante é a de um corpo de mulher grávida, dentro de um expositor transparente, de bruços, exposto junto com uma grande quantidade de quinquilharias.













Depois a cidade, suas ruas, seus templos, tudo o que foi e que não é mais do que apenas ruínas. Uma cidade sem moradores, um ambiente pesado e fantasmagórico.

















































Por trás de tudo, sempre o Vesúvio, com seu aspecto ameaçador, aterrante. De sua imponente montanha, em que subi para observar-lhe as entranhas e passei a fita amarela e preta para que, debruçado sobre o abismo, sentisse-lhe o cheiro e lhe observasse as entranhas, o vulcão ameaça, a cada dia milhões de cidadãos que, descuidados, cumprem sua rotina, diariamente. Nessa feliz apreensão de imagem de minha esposa Cristina, parece estar o vulcão voltando a se manifestar, com as nuvens em seu cume, felizmente apenas no nível da aparência.


O aterrador e o belo, o bem e o mal se imiscuem na vida, lado a lado, revelando, em seu silêncio, que a existência contempla muitos momentos de alegria, prazer e felicidade, mas é, inexoravelmente trágica.