sábado, 4 de julho de 2015

ALMAS DE GATO



A noite era profundamente negra. Acordei. Entre o sono, o sonho e a consciência, ouvi claramente uns gritos de desespero. Primeiramente pareciam-me humanos. Depois, com mais atenção, aproximavam-se daqueles que os gatos produzem ao acasalarem-se sobre os telhados nas madrugadas.
Tudo era silêncio. Apenas aqueles grunhidos distantes. Abri a janela. Nada. Naquela calmaria da alta madrugada, sequer automóveis se movimentavam. Da rua certamente não vinham.
Mas eram evidentes e nítidos aqui dentro do quarto. Detive-me longamente a escutá-los. Quando, ao despertar, fui tomando conta de mim, já não sabia se fora um sonho ou se de fato esses urros desesperados que ainda me perturbavam haviam sido reais.
Como tinha de ir à Bibliotheca Pública, lá chegado, solicitei à atendente, que já me conhecia, um jornal do século XIX. Ela, solícita, trouxe-me alguns. Passei a examiná-los como quem busca uma solução mágica.
De repente, meus olhos caem sobre uma vetusta notícia. Crimes nos arredores da cidade. Tratava-se da história de uma velha senhora, escorraçada dos bordéis em razão de roubos e crimes. Pois, segundo a descrição do antigo narrador, deveria viver pelos campos, abandonada e temida todos.
Sobre ela pesavam muitas acusações, desde crimes de morte e tortura até a acusação que, à primeira análise, pareceu-me de menor gravidade. Pois, como era temida por toda parte, não tinha acesso ao comércio regular. Vivia, então, de pequena pesca e de carne de gato.
Conta-se que rastejava à noite, nas proximidades das residências. Exalava um cheiro tão detestável, que mesmo os cães fugiam à sua aproximação. Pois, com anzol e isca de pesca, capturava os bichanos incautos pela madrugada e os esfolava vivos, alimentando-se, depois, das carnes ainda sangrentas desses pobres coitados.
Depois do seu passamento, muitas histórias a respeito dela passaram povoar o imaginário daquela população simples e crédula. Muitos até mesmo a tinham visto, rondando as moradias, pelas horas mortas da noite.
Meu sonho, visão noturna passou a fazer sentido. Ao falar com velhos pesquisadores da história local, descobri que havia sobre ela acusações muito piores. Sacrificava cães, bêbados incautos pela madrugada e mesmo crianças teriam sido por ela roubadas de casas mal cuidadas.

E voltaram-me aos ouvidos aqueles gritos alucinantes, desesperados. Distinguia, agora, ao café, contemplando as silhuetas das árvores do pátio, mesmo enlouquecedores brados de criancinhas sacrificadas para a refeição da bruxa.
Enquanto isso, um bando de almas-de-gato, cujo nome se origina do canto alucinante dessas aves, que provém dos gemidos noturnos dos gatos, mas também das almas penadas dos antigos cemitérios... pois digo que essas aves, com seus olhos saltados e bicos contundentes, sérias e ameaçadoras, contemplavam-me do além da vidraça, como se me estivessem investigado. Devagarinho, tirei-me dali, sestroso.