quinta-feira, 16 de julho de 2015

MITOLOGIA EGÍPCIA – ISIS É O MITO DE UM MUNDO PRIMITIVO ADMINISTRADO PELAS MULHERES, O MATRIARCADO




Desde há trinta mil anos, na Era Paleolítica, portanto, o sistema de organização da sociedade humana era matriarcal, quase em sua totalidade. Isto é, a administração dos povos se dava pelo poder da mulher. A divindade era feita à imagem da mulher. Assim também a realeza era feminina e a própria transmissão do poder se dava pela via materna. O Deus patriarcal, único e onipotente, é relativamente jovem: estima-se que o patriarcado mais antigo tenha surgido há mais ou menos sete mil anos.
Marija Gimbutas, arqueóloga lituana que dedicou-se essencialmente a descobrir e catalogar imagens da grande Deusa, da deusa mãe, reuniu um acervo impressionante que mostra o culto à fertilidade ao longo de diversas eras. O homem, masculino, prosternava-se diante da mulher, admirando e invejando sua capacidade de reproduzir, considerada uma função divinal.
Segundo a versão de muitas autoras e autores estudiosos do assunto, a mulher, principalmente pela sua capacidade de gestar e pelo mistério da menstruação, por suas qualidades lunares e cíclicas, sua capacidade de trazer melhorias em prol da sobrevivência de seus rebentos foram sempre vistos como uma manifestação da Divindade.
As próprias atividades femininas como a arte da tecelagem, a arte cerâmica, a agricultura e a irrigação eram mais delicadas. Não se pode esquecer que o macho da espécie dedicava-se mais à caça e à guerra, cujas conquistas traziam grandes riquezas para a comunidade, quando bem sucedidas. Porém, muitas vezes traziam também a desgraça e a destruição.
Quando se afirma que a agricultura era uma atividade feminina, não se pode conceber o cultivo da terra nos moldes de hoje, com áreas enormes cultivadas. A agricultura desses tempos primevos reduzia-se a pequenos canteiros ao redor da residência com hortaliças e plantas medicinais, acrescida, nos povos mais desenvolvidos, de alguns tubérculos como cebolas, batatas e algumas outras raízes comestíveis. Acrescente-se a isso, em algumas comunidades, alguns animais domésticos, como galinhas e às vezes, alguma cabra ou ovelha de leite. Os animais maiores, como gado e cavalos são acréscimos de eras bem mais avançadas.
Nesses tempos, abrangendo essas culturas, a Sacerdotisa ou curandeira era o centro da comunidade – ela podia ter bens, realizar transações e contatos com outras tribos e os filhos recebiam herança e nome da família da mãe. Assim, gradativamente se foi transformando em rainha.
Ísis com Hórus ao colo
Esse apego à terra, sentimento telúrico, que envolvia um local, as residências, um curso de águas foi evoluindo para o culto da Grande Mãe, que entre os gregos era Gaia, a própria terra mãe e suas transformações como Deméter, a terra cultivada. A terra mãe recebia, gerava e alimentava todos os viventes e mesmo acolhia as cinzas de todos os mortos em seu seio.
Segundo Karl Gustav Jung, em seus tratados do inconsciente e do processo de simbolização, a experiência de uma Mãe Sagrada provedora, vai inserir-se no simbolismo primitivo como primeiro grande componente do inconsciente coletivo. Todos os demais se lhe irão seguindo, como Dionísio Zagreu, a imagem de toda criança, originando-se os mitologemas, ou sejam, as imagens únicas e perfeitas de cada tipo, ao modo platônico de formação da mente.
Abrigados nesse mesmo processo, os primitivos egípcios cultuavam a Grande Isis, a deusa alada do Nilo. Seu nome, em grego antigo era Ἶσις. Significa "nasci de mim mesma, não provenho de ninguém", "dona do trono" ou "deusa da fertilidade e do amor maternal". Os primeiros registros escritos acerca de sua adoração surgem pouco depois de 2500 a. C., durante a V dinastia egípcia. Era mãe de Hórus. Na genealogia dos deuses egípcios, foi a primeira filha de Geb, o deus da Terra, e de Nut, a deusa do Firmamento, e teria nascido no quarto dia intercalar, que era o quarto dia do quarto crescente.
Ísis
Isis desposou seu irmão Osíris. É cultuada como mãe e esposa ideais, protetora da natureza e inspiradora da magia. É a amiga dos escravos, pescadores, artesãos, oprimidos, porém, por outro lado, escutava as preces dos opulentos, das donzelas, aristocratas e governantes. É a Grande Mãe, deusa da maternidade e da fertilidade.
Certa ocasião, Osíris foi assassinado por seu irmão Seth, divindade egípcia da violência, da traição, do ciúme, da inveja, do deserto, da guerra, da escuridão, das tempestades, dos animais, de modo especial das serpentes. Seth era encarnação do espírito do mal e irmão de Osíris. Seth era marido e irmão da deusa Néftis. Segundo antiga tradição, Seth teria rasgado o ventre de sua mãe Nut com as próprias garras para nascer.
No reino de Osíris, embora ele envidasse todos os esforços para criar um ambiente de paz, sempre havia insatisfação, entre os homens seus protegidos e mesmo entre os deuses, seus comandados. Seu irmão Seth não perdia ocasião para criar discórdia e rejeição aos atos do irmão. Jamais se conformara Seth em ser apenas a divindade do seco deserto que cerca a reino de Osíris.
Sabendo que Osíris havia organizado uma grande expedição civilizatória, preparou uma conspiração. No dia da partida, Seth, que também havia recebido convite do irmão para tomar parte do evento, enviou mentirosas escusas e permaneceu no Egito. No período da expedição, Seth organizou armadilhas para o irmão em todo o território egípcio. Recrutou setenta e dois dos piores conspiradores muitos dos quais entre os próprios deuses.
Quando Osíris retornou, recebeu um convite de Seth para comemorar com ele o sucesso da expedição. Foi recebido no reino do deserto com falsas alegrias. Convidou, então, Seth o irmão para repousar da viagem, cerrando ele próprio as cortinas do leito dele.
No dia seguinte, preparou um banquete, cedendo ao irmão a cabeceira de honra. Sentou-se à sua direita e distribuiu os setenta e dois conspiradores entre os demais convivas. Osíris agradeceu a deferência e narrou, durante o banquete, as façanhas de sua exitosa expedição. Antes que o irmão concluísse deu discurso, Seth pediu licença e introduziu no recinto uma grande arca, com o formato de ataúde.
Feito do mais puro sândalo resistente e aromático, todo cravejado das mais ricas pedrarias, cujo tampo levava esculpida a imagem do escaravelho sagrado a erguer do horizonte o disco solar, sob a forma do olho místico do deus Rá esse sarcófago encantou a todos os visitantes. Acontece que, enquanto Osíris repousava, Seth entrara sorrateiramente em seus aposentos e tirara as medidas do corpo do irmão.
Ao interromper o discurso do irmão com a introdução da preciosa arca, deixou todos em suspense: Qual seria o significado do alaúde no banquete? Seth esclareceu o enigma afirmando que o sarcófago pertenceria àquele que tivesse as medidas exatas de seu interior passaria a usá-lo para todo sempre. Deu a suas últimas palavras um tom de indisfarçada ironia. Inocentemente, Osíris não percebeu a farsa. E, assim, passaram a tirar as medidas de todos os participantes, colocando-os mesmo no interior da urna. Osíris foi deixado para o último lugar. E procedeu-se o experimento como uma brincadeira. Todos os que entravam na arca, ora eram grandes demais, ora demasiado gordos, outros tantos pequenos demais.
Por fim, restava apenas Osíris, cujas medidas do corpo adaptaram-se perfeitamente ao ataúde. Seth conclamou a todos para confirmarem o fato. Sem que Osíris tivesse tempo de reagir, Seth ordenou que o sarcófago fosse trancado. Pregou-se, então a tampa do caixão. Osíris, fez com que seu espírito se libertasse e abandonasse aquele ambiente aterrador. Embora liberta, a alma de Osíris ainda deveria vagar sem destino, por longos anos, até receber o benefício da mumificação, única possibilidade de poder rumar para a Mansão dos Mortos e tornar-se ali o soberano absoluto. Assim, Osíris, traído por Seth, é morto e esquartejado por esta divindade que é associada à essência do mal.
Ísis, desesperada, procurou e conseguiu reunir todas as partes do corpo que tinham sido despedaçadas e espalhadas por todo o Egito por Seth e, por meio de suas habilidades mágicas e de seu poder da cura, recompõe o corpo do amado Osíris, com exceção do genital masculino, trocado por um órgão de ouro. Após isto, ela consegue procriar com o corpo de Osíris, gerando o filho solar Hórus, e manteve o corpo recomposto do marido para proteger Hórus enquanto criança, para que ele crescesse e então tivesse direito a reivindicar o trono usurpado por seu tio Seth, a quem ele mata.
Mesmo sendo Ísis venerada como a Grande Mãe universal, era também invocada como a divina auxiliadora das mulheres em particular. Como a  doadora da vida, aquela que gera todos os seres vivos, nutre-os durante toda a existência, presidindo a vida e a morte, ela também particularmente era protetora das mulheres durante o parto, tendo também a seu encargo a ternura de confortar aquelas que perdiam seus entes queridos. Assim, era a divindade acolhedora dos mortos e, a um só tempo, também, confortadora de todos os viventes, seja qual for sua condição social.
Madona -  Rafaello Sanzio



Nela, as mulheres encontravam o apoio e a inspiração para prosseguirem suas vidas. Ísis proclamava ser, em hinos antigos, a deusa das mulheres e dotava suas seguidoras de poderes iguais aos do homem. Retomando o que já se disse, segundo o mito, portanto, Ísis é a primeira filha de Geb (deus egípcio da terra) e Nut (deusa do firmamento), esposa de seu irmão Osíris e mãe de Hórus (deus dos céus, inebriado de energia solar, cuja designação na língua egípcia era Horu-saAset, que significa exatamente Hórus, Filho de Ísis), com os quais integra a principal tríade (Ísis, Osíris, Hórus) da religião do antigo Egito. É novamente a retomada do número três, indivisível, imortal, portanto, símbolo de tudo o que é eterno, permanecendo para sempre.
Pietà


Essa entidade religiosa primitiva serviu de protótipo às religiões posteriores, mesmo ao próprio cristianismo, que fundaram-se em suas imagens e em seu modo de concepção para criar cultos e representações artísticas.
Ísis serviu de modelo aos artistas cristãos que reproduziram belíssimas imagens da Madona com seu filho Jesus ao colo como Rafaello Sanzio e tantos outros. Chegou-se mesmo à bela e triste imagem em que Michelangelo Buonarrotti  representa a santa mãe de Jesus com o filho morto ao colo após a cruel crucifixão.