segunda-feira, 27 de julho de 2015

LITERATURA FRANCESA – GUY DE MAUPASSANT – CONTO PSICOLÓGICO – CARTA DE UM LOUCO - A TEMÁTICA DA ALUCINAÇÃO



Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
 Em anexo, encontra-se a tradução portuguesa do conto "Carta de um Louco", bem como esse conto no original em francês.
Guy de Maupassant foi um narrador e poeta francês do fim do século XIX (1850-1893). Dedicou-se, de modo especial, à narrativa. E dentro do gênero narrativo, dedicou-se muito à narrativa curta. Elegeu, para seus textos, temas relacionados à crítica social, dedicando-se, no mais das vezes, às realidades psicológicas.
Nesses contos, o ser humano constitui-se num estranho diante de si mesmo e o outro se apresenta como um elemento perturbador. Suas fantasias não apelam ao elemento religioso, muito comum nos autores românticos. Diversamente deles, apela ao delírio, à alucinação, à própria perversão humana, para lidar com as inquietações íntimas do psiquismo dos indivíduos.
Guy de Maupassant
Ele mesmo foi vítima da alucinação, atingido pelo adiantado grau de sífilis, que o levou à tentativa de suicídio, ao manicômio e à morte prematura.
Um dos textos que mais elucida essa etapa de sua vida e de sua produção literária é “Carta de um Louco”. O conto narra a carta de um paciente a seu médico sobre o estranhamento que sente diante de si mesmo, solicitando internação e tratamento. O sujeito identifica certas alterações que se operam em seu espírito, reconhecendo-se como alucinado e reconhecendo se estado patológico, necessitado de tratamento.
Crendo-se, antes de sentir os sintomas da demência, um ser humano normal, percebe-se, desde então, em um estado de delírio. Passa a questionar os limites dos próprios sentidos. Põe em dúvida sua própria visão. Confunde os diferentes estados da transparência: confunde um copo com o ar, ambos marcados pela transparência. Isso lhe marca as limitações dos sentidos e do corpo humano como um todo.
Assim, o olfato, a gustação, a audição reduzem-se a processos limitados de interação com o meio físico. Passa a discutir a ausência de outros órgãos mais apurados que nos permitiriam uma percepção mais completa do que nos circunda. Do modo como somos, vivemos rodeados pelo desconhecido. Acabamos em um mundo ilusório, sendo-nos impossível desvendar o in sondável.
Esse estado gerava no alucinado paciente um estado de insegurança e medo. Num determinado instante, passa a perceber um ser transparente. Em duas noites seguidas, à mesma hora houve um ruído que lhe garante a presença de algo invisível que o visita. Na terceira noite, ao aproximar-se esse mesmo horário, ele está atento, aguardando o ruído, quando se sente penetrado por um fluido que lhe atinge sucessivamente todas as partes do corpo. Diante do espelho, é-lhe impossível perceber a própria imagem. Conclui que é o ser invisível que se lhe interpõe entre o próprio corpo e a face do espelho.
Quando, em seguida, consegue enxergar-se refletido no espelho, fica aguarda longamente nova interposição do invisível diante do espelho, o que não mais ocorre.
Conclui o conto com a seguinte afirmativa: “... nesse espelho, começo a ver imagens loucas, monstros, cadáveres horrendos, todas as espécies de animais horripilantes, de seres atrozes, todas as visões inverossímeis que devem habitar o espírito dos loucos”.
Põe, assim, em questão a realidade dos sentidos. Quando me vejo no espelho, o que realmente eu vejo? Meu estado de espírito interfere na imagem que percebo no espelho.
Antologia:
Carta a um Louco (Tradução portuguesa e texto original em francês).

CARTA DE UM LOUCO (Guy de Maupassant)

Meu caro doutor, eu me coloco nas suas mãos. Faça de mim o que o senhor achar melhor.
Vou descrever-lhe, de maneira bem franca, o meu estranho estado de espírito, e o senhor julgará se não seria melhor que tratassem de mim durante algum tempo em uma casa de saúde, em vez de me deixar sujeito às alucinações e sofrimentos que me perseguem.
Eis a história, longa e exata, do mal singular da minha alma.
Eu vivia como todo mundo, contemplando a vida com os olhos abertos e cegos do homem, sem me espantar e sem compreender. Vivia como vivem os animais, como vivemos todos, executando as funções da existência, examinando e acreditando ver, acreditando saber, acreditando conhecer o que me cercava, quando, um dia, percebi que tudo é falso.
Foi uma frase de Montesquieu que, bruscamente, iluminou meu pensamento. Ei-la: “Um órgão a mais ou a menos em nossa máquina teria feito de nós uma outra inteligência.
 “... Enfim, todas as leis estabelecidas sobre o que é nossa máquina que de um certo modo seriam diferentes se nossa máquina não fosse dessa maneira”.
Refleti sobre isso durante meses e meses e, pouco a pouco, uma estranha clareza penetrou em mim.
Com efeito – nossos órgãos são os únicos intermediários entre o mundo exterior e nós. Quer dizer que o ser interior, que constitui o 'eu', encontra-se em contato, por meio de alguns filetes nervosos, com o ser exterior que constitui o mundo.
Ora, não só este mundo exterior nos escapa por suas proporções, sua duração, suas propriedades infinitas e impenetráveis, suas origens, seu porvir ou seus fins, suas formas longínquas e suas manifestações infinitas, como nossos órgãos só nos fornecem informações incertas e pouco numerosas sobre parte dele que nos é acessível.
Incertas, porque são apenas as propriedades de nossos órgãos que determinam para nós as propriedades aparentes da matéria.
Pouco numerosas, porque sendo nossos sentidos apenas em número de cinco, o campo de suas investigações e a natureza de suas revelações se acham muito restritas.
Explico-me. - O olho nos indica as dimensões, as formas e as cores. “Ele nos engana sobre esses três pontos”.
Só pode nos revelar objetos e seres de dimensão média, proporcionais ao talhe humano, que nos levou a aplicar a palavra grande a certas coisas e a palavra pequeno a outras, somente porque sua fraqueza não lhe permite conhecer o que é muito grande ou pequeno para ele. De onde resulta que ele não conhece e não vê quase nada, que o Universo quase todo lhe permanece oculto, a estrela que habita o espaço e o animálculo que habita a gota d'água.
Ainda que tivesse cem milhões de vezes a sua potência normal, se percebesse no ar que respiramos todas as espécies de seres invisíveis, como os habitantes dos planetas vizinhos, ainda existiriam um número infinito de raças de animais menores e de mundos tão longínquos que ele não os atingiria.
Portanto, todas as nossas ideias de proporção são falsas, já que não há limite possível, nem para a grandeza nem para a pequenez.
Nossa apreciação sobre as dimensões e as formas não tem nenhum valor absoluto, sendo determinada unicamente pela potência de um órgão e por uma comparação constante com nós mesmos.
Acrescentemos que o olho é, ainda, incapaz de ver o transparente. Um copo sem defeito o ilude. Ele o confunde com o ar que também não vê.
Passemos à cor.ao cérebro, sob forma de cor, as diversas maneiras como os corpos absorvem e decompõem, segundo sua constituição química, os raios luminosos que o atingem.
Todas as proporções dessa absorção e dessa decomposição constituem os matizes.
Este órgão, portanto, impõe ao espírito a sua maneira de ver, ou melhor, a sua forma arbitrária de constatar as dimensões e de apreciar as relações da luz e da matéria.
Examinemos o ouvido.
Mais ainda do que com o olho, nós somos as vítimas ingênuas deste órgão fantasista.
Dois corpos que se chocam produzem um certo tremor da atmosfera. Esse movimento faz vibrar em nossa orelha uma certa película que transforma imediatamente em ruído o que, na realidade, é apenas uma vibração.
A natureza é muda. Mas o tímpano possui a propriedade miraculosa de transmitir-nos sob a forma de sensações, e de sensações diferentes segundo o número de vibrações, todos os rumores das ondas invisíveis do espaço.
Esta metamorfose executada pelo nervo auditivo no curto trajeto do ouvido ao cérebro permitiu-nos criar uma arte estranha, a música, a mais poética e a mais precisa das artes, vaga como um sonho e exata como a álgebra.
E o que dizer do gosto e do cheiro? Conheceríamos os perfumes e as qualidades dos alimentos sem as estranhas propriedades do nosso nariz e do nosso paladar?
Entretanto, a humanidade poderia existir sem a audição, sem o paladar e sem o olfato, quer dizer, sem nenhuma noção do ruído, do sabor e do odor.
Se tivéssemos, portanto, alguns órgãos a menos, ignoraríamos coisas admiráveis e singulares, mas, se tivéssemos alguns órgãos a mais, descobriríamos em torno de nós uma infinidade de outras coisas de que nunca suspeitaremos por falta de meios de constatá-las.
Enganamo-nos, pois, julgando o Conhecido, e estamos cercados pelo Desconhecido inexplorado.
Logo, tudo é incerto e apreciável de maneiras diferentes.
Tudo é falso, tudo é possível, tudo é duvidoso.
Formulemos esta certeza servindo-nos do velho ditado: “Verdade deste lado dos Pirineus, erro do outro”.
E digamos: verdade em nosso órgão, erro ao lado.
Dois e dois não devem mais ser quatro fora da nossa atmosfera.
Verdade sobre a Terra, erro mais além, donde concluo que os mistérios entrevistos como a eletricidade, o sono hipnótico, a transmissão da vontade, a sugestão, todos os fenômenos magnéticos, só nos permanecem ocultos porque a Natureza não nos forneceu o órgão ou os órgãos necessários para compreendê-los.
Depois de me convencer de que tudo o que os meus sentidos me revelam só existe para mim tal como o percebo o que seria totalmente diferente para outro ser organizado de outra maneira, depois de concluir que uma humanidade concebida de uma maneira diversa teria sobre o mundo, sobre a vida, sobre tudo ideias completamente opostas às nossas, pois o acordo das crenças resulta apenas da similitude dos órgãos humanos e as divergências de opinião provêm somente de ligeiras diferenças de funcionamento dos nossos filetes nervosos, fiz um esforço sobre-humano para conjecturar o insondável que me cerca.
Enlouqueci?
Disse a mim mesmo: “Estou cercado de coisas desconhecidas.” Imaginei o homem sem ouvidos, conjeturando o som como conjeturamos tantos mistérios ocultos, constatando fenômenos acústicos dos quais não poderia determinar, nem a natureza nem a procedência. E tive medo de tudo à minha volta, medo do ar, medo da noite. Já que não podemos conhecer quase nada, já que tudo é ilimitado, o que resta? O vazio não existe? O que há no aparente vazio?
E esse terror confuso do sobrenatural que habita o homem desde o nascimento do mundo é legítimo, pois não é outra coisa senão aquilo que nos permanece oculto.
Então compreendi o medo. Pareceu-me que tocava, continuamente, na descoberta de um segredo do Universo.
Tentei estimular meus órgãos, excitá-los, fazê-los perceber por momentos o invisível.
Disse a mim mesmo: “Tudo é um ser. O grito que atravessa o ar é um ser comparável ao animal, porque nasce, produz um movimento e transforma-se novamente para morrer. Ora, o espírito receoso que acredita em seres incorporais não está enganado, então. Quem são eles?”
Quantos homens os pressentem, estremecem à sua chegada, tremem ao seu misterioso contato? Sentem-nos perto de si, em torno de si, mas não conseguem distingui-los, porque não possuímos o olho que os veria, ou melhor, o órgão desconhecido que poderia descobri-los.
Nesse caso, mais do que ninguém, eu os sentia, esses passageiros sobrenaturais. Seres ou mistérios? Será que sei? Não poderia dizer o que são, mas poderia assinalar a sua presença. E eu vi – vi um ser invisível -, tanto quanto se podem ver esses seres.
Passava noites inteiras imóvel, sentado diante da mesa, a cabeça entre as mãos, pensando neles. Muitas vezes pensei que uma mão intangível, ou melhor, um corpo imperceptível roçava-me levemente os cabelos. Não me tocava, pois não era de essência carnal, mas de essência imponderável, desconhecida.
Ora, uma noite, ouvi o assoalho estalar atrás de mim. Ele estalou de um modo singular. Estremeci. Voltei-me. Nada vi. E não pensei mais nisso.
Mas no dia seguinte, na mesma hora, o mesmo ruído se produziu. Tive tanto medo que me levantei, certo, certo de que não estava sozinho no meu quarto. Entretanto, não se via nada. O ar estava límpido, transparente por toda parte. Meus dois candeeiros iluminavam todos os cantos.
O ruído não recomeçou, e eu acalmei-me pouco a pouco; no entanto, permanecia inquieto e me virava muitas vezes.
No dia seguinte tranquei-me cedo, imaginando como poderia chegar a ver o Invisível que me visitava.
Eu o vi. Quase morri de terror.
Tinha acendido minha lareira e todas as velas do meu lustre. O aposento estava iluminado como para uma festa. Meus dois candeeiros ardiam sobre a mesa]
Diante de mim, a minha cama, uma velha cama de carvalho com colunas. À direita, a lareira. À esquerda, a porta cuidadosamente fechada. Atrás de mim, um armário muito alto com um espelho. Estava diante dele. Tinha olhos estranhos e as pupilas muito dilatadas.
Depois sentei-me, como todos os dias.
O ruído se produzira, na véspera e na antevéspera, às nove horas e vinte e dois minutos. Esperei. Quando chegou o momento preciso, senti algo indescritível, como se um fluido, um fluido irresistível tivesse penetrado em mim por todas as partes do meu corpo, mergulhando a minha alma num terror atroz. E o estalo ocorreu, bem perto de mim.
Levantei-me, virando-me tão depressa que quase cai. Enxergava-se como em pleno dia, e eu não me vi no espelho! Ele estava vazio, claro, cheio de luz. Minha imagem não estava lá, e eu estava diante dele. Olhava-o com um olhar alucinado. E não ousava mais avançar, sentindo que ele estava entre nós, ele, o Invisível que me ocultava.
Oh! Como tive medo! Depois, subitamente comecei a avistar-me numa bruma no fundo do espelho, numa bruma como que através da água; e me parecia que essa água deslizava da esquerda para a direita, lentamente, tornando a minha imagem mais precisa a cada segundo. Era como o fim de um eclipse. O que me ocultava não possuía contornos, mas uma espécie de transparência opaca que ia clareando pouco a pouco.
Pude, enfim, distinguir-me completamente, assim como faço todos os dias ao olhar-me. 
Eu o tinha visto!
E não o vi de novo.
Mas eu o aguardo a todo momento, e sinto que minha cabeça se perde nessa espera.
Fico diante do espelho durante horas, noites, dias, semanas, para esperá-lo! Ele não vem mais.
Percebeu que eu o vira. Mas sinto que o esperarei sempre, até a morte, que o esperarei sem descanso, diante desse espelho, como um caçador à espreita.
E, nesse espelho, começo a ver imagens loucas, monstros, cadáveres horrendos, todas as espécies de animais horripilantes, de seres atrozes, todas as visões inverossímeis que devem habitar o espírito dos loucos.
Eis a minha confissão, meu caro doutor. Diga-me, o que devo fazer?

TEXTO ORIGINAL EM FRANCÊS

Guy de Maupassant
Lettre d’un fou

Mon cher docteur, je me mets entre vos mains. Faites de moi ce qu'il vous plaira.
Je vais vous dire bien franchement mon étrange état d'esprit, et vous apprécierez s'il ne vaudrait pas mieux qu'on prît soin de moi pendant quelque temps dans une maison de santé plutôt que de me laisser en proie aux hallucinations et aux souffrances qui me harcèlent.
Voici l'histoire, longue et exacte, du mal singulier de mon âme.
Je vivais comme tout le monde, regardant la vie avec les yeux ouverts et aveugles de l'homme, sans m'étonner et sans comprendre., Je vivais comme vivent les bêtes, comme nous vivons tous, accomplissant toutes les fonctions de l'existence, examinant et croyant voir, croyant savoir, croyant connaître ce qui m'entoure, quand, un jour, je me suis aperçu que tout est faux.
C'est une phrase de Montesquieu qui a éclairé brusquement ma pensée. La voici : "Un organe de plus ou de moins dans notre machine nous aurait fait une autre intelligence.
Enfin toutes les lois établies sur ce que notre machine est d'une certaine façon seraient différentes si notre machine n'était pas de cette façon."
J'ai réfléchi à cela pendant des mois, des mois et des mois, et., peu à peu, une étrange clarté est entrée en moi, et cette clarté y a fait la nuit.
En effet, nos organes sont les seuls intermédiaires entre le monde extérieur et nous. C'est-à-dire que l'être intérieur, qui constitue le moi, se trouve en contact, au moyen de quelques filets nerveux, avec l'être extérieur qui constitue le monde.
Or, outre que cet être extérieur nous échappe par ses proportions, sa durée, ses propriétés innombrables et impénétrables, ses origines, son avenir ou ses fins, ses formes lointaines et ses manifestations infinies, nos organes ne nous fournissent encore sur la parcelle de lui que nous pouvons connaître que des renseignements aussi incertains que peu nombreux.
Incertains, parce que ce sont uniquement les propriétés de nos organes qui déterminent pour nous les propriétés apparentes de la matière.
Peu nombreux, parce que nos sens n'étant qu'au nombre de cinq, le champ de leurs investigations et la nature de leurs révélations se trouvent fort restreints.
Je m'explique. - L'oeil nous indique les dimensions, les formes et les couleurs. Il nous trompe sur ces trois points.
Il ne peut nous révéler que les objets et les êtres de dimension moyenne, en proportion avec la taille humaine, ce qui nous a amenés à appliquer le mot grand à certaines choses et le mot petit à certaines autres, uniquement parce que sa faiblesse ne lui permet pas de connaître ce qui est trop vaste ou trop menu pour lui. D'où il résulte qu'il ne sait et ne voit presque rien, que l'univers presque entier lui demeure caché, l'étoile qui habite l'espace et l'animalcule qui habite la goutte d'eau.
S'il avait même cent millions de fois sa puissance normale, s'il apercevait dans l'air que nous respirons toutes les races d'êtres invisibles, ainsi que les habitants des planètes voisines, il existerait encore des nombres infinis de races de bêtes plus petites et des mondes tellement lointains qu'il ne les atteindrait pas.
Donc toutes nos idées de proportion sont fausses puisqu'il n'y a pas de limite possible dans la grandeur ni dans la petitesse.
Notre appréciation sur les dimensions et les formes n'a aucune valeur absolue, étant déterminée uniquement par la puissance d'un organe et par une comparaison constante avec nous-mêmes.
Ajoutons que l'oeil est encore incapable de voir le transparent. Un verre sans défaut le trompe. Il le confond avec l'air qu'il ne voit pas non plus.
Passons à la couleur.
La couleur existe parce que notre oeil est constitué de telle sorte qu'il transmet au cerveau, sous forme de couleur, les diverses façons dont les corps absorbent et décomposent, suivant leur constitution chimique, les rayons lumineux qui les frappent.
Toutes les proportions de cette absorption et de cette décomposition constituent les nuances.
Donc cet organe impose à l'esprit sa manière de voir, ou mieux sa façon arbitraire de constater les dimensions et d'apprécier les rapports de la lumière et de la matière.
Examinons l'ouïe.
Plus encore qu'avec l'oeil, nous sommes les jouets et les dupes de cet organe fantaisiste.
Deux corps se heurtant produisent un certain ébranlement de l'atmosphère. Ce mouvement fait tressaillir dans notre oreille une certaine petite peau qui change immédiatement en bruit ce qui n'est, en réalité, qu'une vibration.
La nature est muette. Mais le tympan possède la propriété miraculeuse de nous transmettre sous forme de sens, et de sens différents suivant le nombre des vibrations, tous les frémissements des ondes invisibles de l'espace.
Cette métamorphose accomplie par le nerf auditif dans le court trajet de l'oreille au cerveau nous a permis de créer un art étrange, la musique, le plus poétique et le plus précis des arts, vague comme un songe et exact comme l'algèbre.
Que dire du goût et de l'odorat ? Connaîtrions-nous les parfums et la qualité des nourritures sans les propriétés bizarres de notre nez et de notre palais ?
L'humanité pourrait exister cependant sans l'oreille, sans le goût et sans l'odorat, c'est-à-dire sans aucune notion du bruit, de la saveur et de l'odeur.
Donc, si nous avions quelques organes de moins, nous ignorerions d'admirables et singulières choses, mais si nous avions quelques organes de plus, nous découvririons autour de nous une infinité d'autres choses que nous ne soupçonnerons jamais faute de moyen de les constater.
Donc, nous nous trompons en jugeant le Connu, et nous sommes entourés d'inconnu inexploré.
Donc, tout est incertain et appréciable de manières différentes.
Tout est faux, tout est possible, tout est douteux.
Formulons cette certitude en nous servant du vieux dicton : "Vérité en deçà des Pyrénées, erreur au-delà."
Et disons : vérité dans notre organe, erreur à côté.
Deux et deux ne doivent plus faire quatre en dehors de notre atmosphère.
Vérité sur la terre, erreur plus loin, d'où je conclus que les mystères entrevus comme l'électricité, le sommeil hypnotique, la transmission de la volonté, la suggestion, tous les phénomènes magnétiques, ne nous demeurent cachés, que parce que la nature ne nous a pas fourni l'organe, ou les organes nécessaires pour les comprendre.
Après m'être convaincu que tout ce que me révèlent mes sens n'existe que pour moi tel que je le perçois et serait totalement différent pour un autre être autrement organisé, après en avoir conclu qu'une humanité diversement faite aurait sur le monde, sur la vie, sur tout, des idées absolument opposées aux nôtres, car l'accord des croyances ne résulte que de la similitude des organes humains, et les divergences d'opinions ne proviennent que des légères différences de fonctionnement de nos filets nerveux, j'ai fait un effort de pensée surhumain pour soupçonner l'impénétrable qui m'entoure.
Suis-je devenu fou ?
Je me suis dit : "Je suis enveloppé de choses inconnues." J'ai supposé l'homme sans oreilles et soupçonnant le son comme nous soupçonnons tant de mystères cachés, l'homme constatant des phénomènes acoustiques dont il ne pourrait déterminer ni la nature, ni la provenance. Et j'ai eu peur de tout, autour de moi, peur de l'air, peur de la nuit. Du moment que nous ne pouvons connaître presque rien, et du moment que tout est sans limites, quel est le reste ? Le vide n'est pas ? Qu'y a-t-il dans le vide apparent ?
Et cette terreur confuse du surnaturel qui hante l'homme depuis la naissance du monde est légitime puisque le surnaturel n'est pas autre chose que ce qui nous demeure voilé !
Alors j'ai compris l'épouvante. il m'a semblé que je touchais sans cesse à la découverte d'un secret de l'univers.
J'ai tenté d'aiguiser mes organes, de les exciter, de leur faire percevoir par moments l'invisible.
Je me suis dit : "Tout est un être. Le cri qui passe dans l'air est un être comparable à la bête puisqu'il naît, produit un mouvement, se transforme encore pour mourir. Or, l'esprit craintif qui croit à des êtres incorporels n'a donc pas tort. Qui sont-ils ?"
Combien d'hommes les pressentent, frémissent à leur approche, tremblent à leur inappréciable contact. On les sent auprès de soi, autour de soi, mais on ne les peut distinguer, car nous n'avons pas l'oeil qui les verrait, ou plutôt l'organe inconnu qui pourrait les découvrir.
Alors, plus que personne, je les sentais, moi, ces passants surnaturels. Etres ou mystères ? Le sais-je ? Je ne pourrais dire ce qu'ils sont, mais je pourrais toujours signaler leur présence. Et j'ai vu - j'ai vu un être invisible - autant qu'on peut les voir, ces êtres.
Je demeurais des nuits entières immobile, assis devant ma table, la tête dans mes mains et songeant à cela, songeant à eux. Souvent j'ai cru qu'une main intangible, ou plutôt qu'un corps insaisissable, m'effleurait légèrement les cheveux. Il ne me touchait pas, n'étant point d'essence charnelle, mais d'essence impondérable, inconnaissable.
Or, un soir, j'ai entendu craquer mon parquet derrière moi. Il a craqué d'une façon singulière. J'ai frémi. Je me suis tourné. Je n'ai rien vu. Et je n'y ai plus songé.
Mais le lendemain, à la même heure, le même bruit s'est produit. J'ai eu tellement peur que je me suis levé, sûr, sûr, sûr, que je n'étais pas seul dans ma chambre. On ne voyait rien pourtant. L'air était limpide, transparent partout. Mes deux lampes éclairaient tous les coins.
Le bruit ne recommença pas et je me calmai peu à peu ; je restais inquiet cependant, je me retournais souvent.
Le lendemain je m'enfermai de bonne heure, cherchant comment je pourrais parvenir à voir l'invisible qui me visitait.
Et je l'ai vu. J'en ai failli mourir de terreur.
J'avais allumé toutes les bougies de ma cheminée et de mon lustre. La pièce était éclairée comme pour une fête. Mes deux lampes brûlaient sur ma table.
En face de moi, mon lit, un vieux lit de chêne à colonnes. A droite, ma cheminée. A gauche, ma porte que j'avais fermée au verrou. Derrière moi. une très grande armoire à glace. Je me regardai dedans. J'avais des yeux étranges et les pupilles très dilatées.
Puis je m'assis comme tous les jours.
Le bruit s'était produit, la veille et l'avant-veille, à neuf heures vingt-deux minutes. J'attendis. Quand arriva le moment précis, je perçus une indescriptible sensation, comme si un fluide, un fluide irrésistible eût pénétré en moi par toutes les parcelles de ma chair, noyant mon âme dans une épouvante atroce et bonne. Et le craquement se fit, tout contre moi.
Je me dressai en me tournant si vite que je faillis tomber. On y voyait comme en plein jour, et je ne me vis pas dans la glace ! Elle était vide, claire, pleine de lumière. Je n'étais pas dedans, et j'étais en face, cependant. Je la regardais avec des yeux affolés. Je n'osais pas aller vers elle, sentant bien qu'il était entre nous, lui, l'invisible, et qu'il me cachait.
Oh ! comme j'eus peur ! Et voilà que je commençai à m'apercevoir dans une brume au fond du miroir, dans une brume comme à travers de l'eau ; et il me semblait que cette eau glissait de gauche à droite, lentement, me rendant plus précis de seconde en seconde. C'était comme la fin d'une éclipse.
Ce qui me cachait n'avait pas de contours, mais une sorte de transparence opaque s'éclaircissant peu à peu.
Et je pus enfin me distinguer nettement, ainsi que je le fais tous les jours en me regardant.
Je l'avais donc vu !
Et je ne l'ai pas revu.
Mais je l'attends sans cesse, et je sens que ma tête s'égare dans cette attente.
Je reste pendant des heures, des nuits, des jours, des semaines, devant ma glace, pour l'attendre ! Il ne vient plus
Il a compris que je l'avais vu. Mais moi je sens que je l'attendrai toujours, jusqu'à la mort, que je l'attendrai sans repos, devant cette glace, comme un chasseur à l'affût.
Et, dans cette glace, je commence à voir des images folles, des monstres, des cadavres hideux, toutes sortes de bêtes effroyables, d'êtres atroces, toutes les visions invraisemblables qui doivent hanter l'esprit des fous.
Voilà ma confession, mon cher docteur. Dites-moi ce que je dois faire ?
17 février 1885.