quarta-feira, 8 de julho de 2015

O MITO DE ECO E NARCISO – IDENTIDADE SEM ALTERIDADE



Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Heidelberg - Alemanha

O mito de Narciso é um dos mais conhecidos da mitologia clássica grega e o seu significado faz parte da nossa cultura. O termo narcisista começou a  fazer parte de nossa cultura, na linguagem comum, para designar uma pessoa egocêntrica, com um grau elevado de consideração de si próprio e das próprias ações, que o empurram para colocar-se acima dos demais. Antes de entrar nos aspectos psicológicos do mito, voltemos ao mito em si mesmo.
No mito, baseado no terceiro livro das Metamorfoses de Ovídio, além do personagem principal, há outras figuras mitológicas que desempenham um papel cheio de significados simbólicos. Narciso é filho da ninfa Liríope e do deus fluvial Cefiso, que enamorando=se por ela, envolve-a com suas doces ondas e a seduz. Da união entre eles, nasce um menino belíssimo, que recebe o nome de Narciso. A mãe, desejando conhecer o destino do filho, consulta o adivinho Tirésias. Ele viverá até o momento em que conheça a si mesmo, é a profecia do vate.
Narciso, crescendo, torna-se um jovem belíssimo, doce e refinado, mas, ao mesmo tempo, insensível e vaidoso, que despreza o amor de todos quantos o procuram: homens ou mulheres, que se engraçam de seu encanto. Para um jovem chamado Amínio, loucamente apaixonado por ele, oferece uma faca para que se suicide, o que de fato acontece.
ECO E NARCISO - J. W WATEERHAUSE    
A história de Narciso, a esta altura do mito, está ligada à da ninfa Eco. O encontro é fatal para ambos. Eco é uma ninfa das montanhas, dotada de grande eloquência. É punida por Hera (esposa de Zeus), porque ela percebeu que a ninfa conversava muito, desviando a atenção da deusa, com a finalidade de encobrir os casos amorosos Zeus.
A punição consistiu em privá-la da voz. Podia somente repetir as últimas palavras pronunciadas por outra pessoa.  A desafortunada Eco, um dia, enquanto Narciso prepara para cuidar das redes para cervos, conhece o belíssimo jovem e por ele se apaixona. Não sendo capaz de expressar seu amor em palavras correu para abraçá-lo, mas Narciso rejeita-a de forma grosseira e se afasta dela. Eco, cheia de dor, passou o resto da vida chorando o amor não correspondido, até que dela restasse somente a voz.
Neste momento, os deuses decidiram punir a insensibilidade de Narciso, enviando-o para a terra de Nêmesis, a deusa da vingança. O epílogo da história de Narciso conduz-nos a uma fonte clara como prata, em cujas águas seu semblante se reflete. Vendo que a imagem é extremamente bela, Narciso sente uma poderosa atração.
Primeiramente, tenta abraçar e beijar o belo jovem que se encontra diante dele. Porém, a cada tentativa de tocá-lo, a imagem desaparece. Depois de algum tempo, reconhece-se a si mesmo no espelho da água da fonte.
Não podendo concretizar o sonho de realizar o amor com sua própria imagem, despedaçado de dor, Narciso trespassa o próprio peito com sua espada. Da terra ensopada do seu sangue, nasce o narciso branco de corola rosa.
Como já foi observado por alguns autores, a história de Narciso e Eco permite-nos destacar que esses dois personagens mitológicos representam dois lados da mesma moeda, dois lados, no entanto, inexoravelmente, separados, divididos. Narciso encarna a identidade absoluta que não conhece a alteridade (diferente de si mesmo), enquanto Eco é a alteridade absoluta de que não conhece a identidade.
Narciso aprende a amar apenas a si mesmo e estendeu suas emoções ao resto do mundo, não se abre para o outro, não quer correr o risco de trair a si mesmo. Abrir-se ao  outro significa colocar em questionamento o seu próprio modo de ser, o risco de ser frágil, ficar à mercê de outros, depender do outro, e não menos importante, sem garantia de não ser traído ou decepcionado. O medo de sofrer por uma possível falha gera a decisão de isolar-se do mundo, deixando de fora todos, indiscriminadamente.
Para Eco, o discurso é diametralmente oposto, vive a alteridade absoluta, só existe em função do que ela sente pelo outro, e quando não correspondida, a sua vida perde todo o significado, todo o sentido ou propósito, não lhe resta outra alternativa senão deixar-se morrer. O não reconhecimento de uma identidade própria, isto é, de existir, independentemente do outro, é a falta de tudo; é como se raciocinasse nestes termos: "Eu existo porque você, com seu amor,  me faz existir, sozinha eu não sou nada."
Passando da mitologia para a psicologia, a história de Narciso e Eco permite descrever o distúrbio narscísico de personalidade e a dependência afetiva. O núcleo fundamental da personalidade narcísica reside na concepção grandiosa que eles têm de si próprios, acreditam que são especiais, perfeitos, que possuem qualidades superiores a quaisquer outras pessoas. Esta concepção é frequentemente alimentada por fantasias de sucesso, poder, fascínio e beleza. Acreditam tudo saber, que são capazes de fazer bem qualquer coisa melhor do que qualquer outro. Enfim, a presunção é seu cartão de visitas.
Coerentemente com estas premissas, as críticas são uma ofensa. Eles são movidos pela inveja, pelo ciúme, pelo ódio gratuito, ou pelo menos pela incompreensão do outro. Reagem a esse tipo de comportamento alheio contra-atacando de maneira agressiva, demonstrando, muitas vezes, uma ira e um ódio feroz contra aqueles que demonstrarem mínimas atitudes de não reconhecerem o que eles se julgam ser. Sentem-se como o centro do universo. Seus semelhantes, caso confirmem a ideia que os narcisistas fazem de si mesmos, são de grande valor, em caso contrário, não valem nada.
Daí a necessidade de se cercar de pessoas que conseguem apreciar esses talentos. A admiração que eles têm por si próprios, pretendem também que os demais a tenham, buscando cada vez mais provas do seu próprio valor e ficando surpreendidos e frustrados quando passam despercebidos. É como se cada gesto ou comportamento deles fosse digno de nota e devesse ser destacado com uma salva de aplausos. Eles vivem em um mundo em que as suas necessidades são priorizadas, de modo especial, sendo dever dos outros satisfazê-las. As necessidades dos outros eles jamais perceberm. Tudo lhes é devido.
A quaisquer eventuais queixas, a reação é geralmente expressa pela raiva, pela arrogância, que somente podem ser aplacadas com milhares de desculpas. Eles não conseguem entender o argumento e os sentimentos do outro (empatia), também são muito focados em defender seu ponto de vista, conduta; não dão ouvidos a ninguém, exceto àqueles que confirmam o seu valor. O que conta não é questionar suas próprias ações, que por definição, não possuem sombra de mancha. Eles nunca fazem nada de errado: são sempre os outros que estão errados, a razão está sempre do lado deles.
O parceiro ideal para esses indivíduos é, muitas vezes, uma pessoa que tenha baixa autoestima, que se deixe seduzir pela segurança externa que o sujeito narcisista exibe. Tais indivíduos, por dinâmica profunda, não expressam a necessidade de um relacionamento amoroso apaixonante, dando a sensação de contentar-se com pouco de cuidado e atenção, a fim de continuar a viver. São arrogantes e, por vezes, a humilham seus parceiros. A sobrevivência psíquica dessas pessoas está ligada à capacidade de desenvolver recompensas no trabalho, nas amizades, nos passatempos, no cuidado de filhos e da casa. Às vezes, desenvolvem, ao longo do tempo, uma depressão.
A história de Eco sugere uma reflexão sobre a dependência afetiva. Se, por um lado, o sujeito, na relação narcísica com o outro, não consegue ver as necessidades desse outro, em tudo visando à autogratificação; por outro lado, a pessoa com dependência emocional não pode ver a si mesma, seus próprios desejos e necessidades, em tudo visando à posse do outro. É como se o outro tivesse o papel de preencher espaços vazios emocionais, decorrentes das relações insatisfatórias com figuras parentais, como mãe e pai.
A pobre Eco, diante da rejeição de Narciso, não encontra outra solução que não seja deixar-se morrer. Não consegue encontrar dentro de si a necessidade de procurar a cura de si mesma, de querer-se bem a si mesma, de entrar em contato com o próprio patrimônio de desejos, sonhos e esperanças que representam o único medicamento capaz de evitar que a dor a afunde e a pressione a deixar-se morrer.