terça-feira, 28 de julho de 2015

"BONSHA, O SILENCIOSO" - CONTO DA LITERATURA ÍDISCH – ISAAC LEIB PERETZ




 Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
O iídiche ou ídiche é uma língua da família indo-europeia, pertencente ao subgrupo germânico, tendo sido adotada por judeus, particularmente na Europa Central e na Europa Oriental, no segundo milênio, que a escrevem utilizando os caracteres hebraicos.
Pois Isaac Leib Peretz nasceu na Polônia, filho de descendentes judeus. Dedicou-se à literatura de cunho sociológico. Formou-se em Direito e exerceu essa profissão até o momento em que o Império Russo, cassou sua licença para advogar. Desde então, tentou estabelecer-se como pequeno industrial, sem sucesso. Escreveu narrativas, contos populares e peças teatrais.
O mestre Peretz dedicou-se à literatura tanto em hebraico quanto em ídiche. Sua obra “O Mágico” encontrou inspiração no folclore do judaísmo hassídico, que é um ramo do judaísmo ortodoxo.
Desenvolve um tipo de espiritualidade ligada ao misticismo judaico, tendo como elemento fundamental a fé. Essa tradição instituiu-se na Europa Oriental a partir do século XVIII, contra a um outro ramo muito em voga até esse tempo que se fundava num judaísmo de caráter excessivamente legalista.
A história de “O Mágico” centra-se na figura de Elias, que anonimamente visita um casal pobre e ajuda a torná-los ricos. A edição de 1917 foi ilustrada por Marc Chagall. Chagall não conhecia Peretz e não havia lido sua obra até ser contratado para criar os desenhos.
Segue anexo o maravilhoso conto de Peretz intitulado “Bontsha, o Silencioso”. Trata-se de uma narrativa emocionante da vida deum homem muito comum. 

Segue a tradução portuguesa do conto:

BONTSHA, O SILENCIOSO
Isaac Leib Peretz
Aqui, neste mundo, a morte de Bontsha, o Silencioso, não causou nenhuma impressão. Perguntem a
Isaac Leib Peretz
qualquer um: quem foi Bontsha? Como viveu? Como morreu? As suas forças pouco a pouco abandonaram-no, o seu coração, com o tempo, desistiu de bater, ou foram os seus ossos que cederam debaixo do peso do seu fardo? Quem sabe? Talvez, por não comer, tenha morrido de fome.
Um cavalo que caísse morto, puxando uma carroça pelas ruas, chamaria mais atenção. Curiosos viriam de longe para ver a carcaça. O local do acidente ficaria marcado. Os jornais noticiariam o fato. Mas se os cavalos fossem tão numerosos como os seres humanos não mereceriam tal honra. Afinal, quantos cavalos existem? Já os homens, são tantos – deve haver bilhões!
Bontsha era um ser humano. Viveu desconhecido, no silêncio, e no silêncio morreu, depois de passar pela vida como uma sombra. No dia em que Bontsha nasceu, ninguém ficou alegre, ninguém tomou um copo de vinho. Na sua confirmação, não houve discurso nem celebração. Viveu como o grão de areia na beira do grande oceano, entre milhões de outros, grãos como ele. E quando o vento, enfim, o levantou e levou com o seu sopro para a outra margem, ninguém notou.
Durante sua vida, os seus pés não deixaram marcas no pó da estrada; depois da sua morte, o vento derrubou a tabuleta que marcava a sua sepultura, e quando a mulher do coveiro encontrou aquele pedaço de madeira já longe do seu túmulo, usou-o para acender o fogo em baixo de uma panela de batatas. Três dias depois da morte de Bontsha ninguém mais, nem mesmo o coveiro, se lembrava onde fora enterrado. Se houvesse uma lápide no túmulo, alguém poderia, mesmo muitos anos depois, ler o seu nome na pedra e Bontsha, o Silencioso, não teria desaparecido da memória dos homens como uma sombra.
Solitário viveu e solitário morreu. Não fosse a pressa e o barulho infernal em que vivem os homens, talvez alguém notasse que Bontsha também era um ser humano, que os seus ossos se quebravam sob o peso das tarefas diárias, que ele tinha dois olhos assustados, que era trêmula a sua boca silenciosa, que mesmo quando não tinha um pesado fardo nas costas ele caminhava curvado, olhando para o chão, como se já estivesse a procurar a sepultura.
Quando o levaram para o hospital, dez miseráveis disputaram o seu canto estreito que logo encontrou um inquilino. Quando foi para o necrotério, havia vinte doentes que só esperavam que ele morresse e vagasse o seu leito na enfermaria. Eram quarenta os mortos a serem sepultados, quando o levaram para o cemitério. Quem sabe quantos esperam para roubar-lhe até mesmo aquele pedacinho de chão?
Silencioso quando nasceu, silencioso na vida, silencioso quando morreu, mais silencioso ainda foi o seu enterro. Mas no outro mundo foi diferente. Ali a morte de Bontsha foi uma sensação. O som da trombeta messiânica ecoou pelos sete céus, anunciando: Bontsha, o Silencioso, morreu!
Os anjos mais importantes voaram, com as suas asas imponentes, para contar uns aos outros: Sabe quem chegou? Bontsha!
 Bontsha, o Silencioso, morreu. Os anjinhos, com as suas asas de ouro e os seus sapatinhos prateados, os olhos brilhando e rindo de felicidade e de alegria, correram, cantando, para receber Bontsha.
O rumor que fizeram com as asas, o bater dos seus pequenos sapatos e o seu riso cristalino correram por todo o Paraíso, de forma que até Deus soube que Bontsha, o Silencioso, havia chegado.
Nosso pai Abraão esperava por ele no portão, com braços estendidos para abençoar e acolher:
– A paz esteja contigo! – disse com o rosto, patriarcal e vincado, iluminado por um doce sorriso.
Mas o que está acontecendo no céu? Dois anjos trazem um trono dourado para que Bontsha se sente nele e sobre a sua cabeça colocam uma coroa de pedras preciosas.
– Mas por que o trono e a coroa? Antes mesmo de ele ser julgado? – perguntam-se os santos com uma pontinha de inveja.
Os anjos respondem que aquele é Bontsha e que o seu julgamento será apenas uma formalidade. Quem poderia dizer alguma coisa contra ele? Imaginem, Bontsha, o Silencioso!
Quando se viu recebido por um coro de anjinhos e abraçado pelo patriarca Abraão como se fossem velhos amigos, quando viu preparado para si um trono e a sua cabeça coberta por uma coroa, quando ouviu que em seu julgamento final nada seria dito contra ele, Bontsha, como fazia em vida, ficou em silêncio. Ficou em silêncio de medo. Com o coração apertado e o sangue correndo gelado; sabendo que tudo isto só podia ser um sonho ou um terrível engano.
Ele estava acostumado às duas coisas, sonhos e enganos. Quantas vezes não sonhara ser rico, com muito dinheiro! Apenas para acordar na mesma cama de sempre e um pouco mais miserável. Quantas vezes alguém lhe dissera uma palavra gentil com um sorriso! Apenas para afastar-se com nojo e irritação ao perceber o engano.
Não ousava levantar os olhos, fazer um movimento, como não ousara responder à saudação do patriarca (seus lábios não conseguiram formar a palavra "paz"). Tinha medo que um gesto seu fizesse o sonho dissipar-se e que acordasse num ninho de cobras. Medo que uma palavra o denunciasse por quem não era, e descoberto o engano fosse expulso dali. Medo que o impedia de ouvir o coro angelical e de ver dançar em volta dele os querubins. Quando o conduziram, enfim, diante de Deus no Tribunal do Juízo, não foi, ao menos, capaz de dizer "bom dia". Estava paralisado de medo.
Olhando para o chão belíssimo, que só fazia aumentar o seu terror quando via que eram os seus pés que pisavam ali, tudo que conseguia pensar era: "Quem sabe com que ricaço importante ou sábio rabino me confundem? Ele aparecerá e será o meu fim. E fechou os olhos para não ver.
Não conseguiu entender o que diziam quando chamaram o seu próprio nome. Ouvia as vozes como quem houve um instrumento musical sem dar sentido às palavras. Uma voz de anjo dizia:
– Bontsha, o Silencioso, um nome que o cobre de glória como nem o mais rico e elegante dos mantos jamais cobriu um príncipe...
"O que será que estão a dizer? De quem estarão falando?", pensava Bontsha, a quem parecia ter ouvido o seu nome, enquanto outra voz interrompia o seu anjo defensor:
– Rico manto! Príncipe! Poupe-nos as metáforas e o tempo.
– Nunca reclamou – continuou a defesa – nem de Deus nem da vida; em seus olhos nunca se viu traço de mágoa ou despeito. Nunca um protesto aos céus. Bontsha continuava sem entender do que falavam quando outra vez ouviu a voz do promotor:
– Deixemos, por favor, a retórica! –
Os seus sofrimentos foram indescritíveis, temos aqui um homem que padeceu mais que Job! "Quem?" – pensava Bontsha – "Quem será este homem?"
– Fatos! Fatos! Deixe de lado os floreios e atenha-se, por favor, aos fatos! disse o juiz.
– No oitavo dia foi circuncidado... – Tanta riqueza de detalhes é desnecessária.
– Fizeram um talho mal feito e nem ao menos lhe estancaram o sangue...
– Desnecessária e de mau gosto.
– Desde criança sempre silencioso. Não chorava a sua dor, nem mesmo quando perdeu a mãe e foi entregue à víbora, à bruxa, que era sua madrasta!
"Será que falam de mim?" – pensou Bontsha. – Não é a madrasta quem está a ser julgada – advertiu o juiz.
– Eram contados os pequenos pedaços de pão bolorento e duro que lhe dava. Enquanto ela mesma tomava o seu café com creme. A única coisa que Bontsha teve com abundância foram os maus tratos. Equimoses e cicatrizes ficavam à vista de todos, através dos rasgos, nos trapos que lhe dava para vestir. No inverno fazia-o cortar lenha descalço no frio quintal coberto de neve. As suas mãozinhas eram fracas e feriam-se nos troncos pesados demais para elas. Tantas vezes os seus pés congelaram. Mas ele sempre em silêncio, sem nunca uma queixa, nem mesmo ao seu pai...
– Aquele bêbado? Imaginem queixar-se a ele! – a voz do promotor era cheia de escárnio enquanto o corpo de Bontsha tremia com a memória do medo antigo.
– Nunca reclamou e sempre tão só. Jamais teve um amigo, um companheiro. Jamais foi a uma escola. Nunca viu uma muda de roupa nova. Nunca soube o que era um momento de liberdade.
– Objeção! Objeção! – gritou irritado o promotor. – Ele está apenas apelando para o sentimentalismo da Corte, com esses voos de retórica.
– Silencioso! Mesmo quando o pai, completamente embriagado, atirou-o para fora de casa, na neve fria de uma noite de inverno, ele não disse nada. Levantou-se em silêncio e andou para onde o levaram os passos.
 – Vagou pelo mundo na miséria e em silêncio; mesmo passando fome, ele implorava apenas com o olhar. Finalmente, numa noite chuvosa de início de primavera os seus passos levaram-no (como o vento transporta uma folha) para uma grande cidade. Lá entrou sem ser visto nem ser ouvido, mas, mesmo assim, atiraram-no numa prisão. Sempre em silêncio, não protestou nem perguntou: "Por quê?" "Que foi que eu fiz?" Quando as portas da prisão se abriram, ele saiu, como havia entrado, sem dizer uma palavra.
Procurou um trabalho e deram-lhe o mais pesado e o que pagava menos. Ele aceitou em silêncio! Mais terrível que o trabalho era procurar por trabalho, suando frio, com o estômago torturado pela fome. Sempre em silêncio! Enlameado e sujo, era, com desprezo, expulso das calçadas e obrigado a andar pela rua, entre as bestas e os carros, com a sua carga. Ele mesmo uma besta de carga, arriscando o pescoço a cada passo. Em silêncio.
– Nunca se preocupou em saber quantos quilos de carga devia carregar, nem quantas viagens devia fazer, tropeçando a cada passo para ganhar uma moeda. Nunca levantou a voz para reclamar a sua paga. Como um mendicante, esperava que lhe dessem o que de direito era seu. Esperava na porta em silêncio; se lhe diziam: "Volte mais tarde", desaparecia como uma sombra, e mais tarde voltava como uma sombra para esperar. Nunca reclamou quando lhe pagavam menos ou davam-lhe, misturada às outras, uma moeda falsa. Tudo suportava em silêncio.
– Uma vez – continuou o anjo defensor – sua sorte pareceu mudar. Que milagre aconteceu? Quando cruzava a rua, Bontsha viu uma carruagem que vinha em disparada com os cavalos sem governo. O seu cocheiro estava caído atrás com a cabeça sangrando. Dentro dela, um homem mais morto que vivo de pânico. Os cavalos assustados espumavam pela boca e nos seus olhos selvagens brilhava uma luz que era como o fogo numa noite escura. Bontsha atirou-se às rédeas e conseguiu parar os cavalos. O homem a quem salvara era rico e generoso e não foi ingrato, pôs nas mãos dele o chicote do cocheiro morto e fez de Bontsha o seu novo cocheiro. Um cocheiro! Não mais um carregador!
Melhor ainda, o seu benfeitor conseguiu-lhe uma esposa na qual, com grande generosidade, fez ele mesmo um filho para que Bontsha criasse. E Bontsha, em silêncio ainda desta vez, não reclamou.
 "É de mim que falam" – pensou Bontsha – "é realmente de mim!" – Mas ainda assim não teve coragem para abrir os olhos e olhar para os seus juízes.
– Resignou-se em silêncio – prosseguiu o anjo – quando, falido, o seu benfeitor deixou de pagar-lhe todos os salários atrasados. Aceitou sem uma queixa quando a sua esposa o abandonou deixando-lhe o filho, ainda pequeno, para que ele cuidasse. E permaneceu em silêncio, quando, quinze anos mais tarde, aquele mesmo menino que ele criara estava crescido e forte o bastante para pô-lo fora da sua própria casa.
 "É de mim que estão falando" – pensou Bontsha, ainda com medo – "é de mim mesmo!"
– Ficou em silêncio até mesmo quando – continuou o anjo que o defendia – o benfeitor, tendo resolvido os seus problemas econômicos e novamente rico, pagou a todos os seus credores e não se lembrou de pagar a ele. E, mais ainda, contratou um novo cocheiro para a sua bela carruagem enquanto Bontsha trabalhava outra vez como carregador pelas ruas. E, quando foi atropelado, por esta mesma carruagem com os seus belos cavalos, as suas rodas de borracha e o seu novo cocheiro, nem então, Bontsha, agonizando na rua, teve uma palavra amarga. Nem mesmo à polícia disse quem o havia atropelado e abandonado na rua. No hospital, onde todos têm o direito de gemer, Bontsha continuou em silêncio; quieto no seu leito, abandonado por médicos e enfermeiros, que não perdem tempo com quem não pode pagar. Sempre assim, sem um murmúrio! Quando a morte chegou, ele a esperava em silêncio. Nunca um protesto contra os homens, nunca um protesto contra Deus!
A defesa havia terminado e o pânico voltou a tomar conta de Bontsha; agora, ele sabia, viria a fala do promotor. Como o defensor, que o fizera lembrar de tantos detalhes da sua vida na Terra, seria agora a vez da acusação de tirar do passado os seus pecados e faltas e trazê-los todos de volta à memória. Deus sabe o que ele iria lembrar!
– Senhores! – começou o anjo acusador, com uma voz seca e dura, mas logo fez uma pausa como se não soubesse como continuar. – Senhores! – começou outra vez e finalmente disse – Senhores, como Bontsha, que passou toda a vida em silêncio, eu também ficarei em silêncio.
Sobre o Tribunal caiu um grande silêncio que foi quebrado por fim por uma voz nova. Uma voz que vinha do mais alto trono. Uma voz terna e amorosa:
– Bontsha, meu filho! Bontsha – a voz era como música –, filho do meu coração!
Bontsha foi tocado, pela voz de Deus, no mais íntimo do seu ser. A sua alma começou a chorar. E era tão doce chorar. Nunca Bontsha pensara que chorar pudesse ser tão doce.
– Meu filho...
Nunca, desde que a sua mãe morrera, ninguém o chamara assim. Com uma voz assim.
– Meu filho – continuou a ouvir –, sofreste tanto e nunca te queixaste. Não existe um lugar no teu coração que não tenha sido ferido. Não existe lugar no teu corpo que não tenha sangrado. Nenhum lugar na tua alma que não fosse ofendido. Sem um protesto, sempre em silêncio.
– Em vida ninguém te compreendeu. Nem tu mesmo te compreendeste. Que não era necessário suportar tanto. Que tinhas o direito de te lamentares. Que o teu lamento chegaria ao céu. Que um gemido teu poderia chamar um exército de anjos vingadores e o próprio fim do mundo. Nunca entendeste o poder adormecido que havia em ti. Lá, naquele mundo de ilusões, o teu silêncio nunca foi recompensado, mas aqui no Paraíso, é tudo teu. Não apenas uma parte, não uma cota, mas tudo. O Paraíso é teu! O que quiseres, é tudo seu!
Então, Bontsha, ousou finalmente levantar os olhos. A luz cegava-o. A luz esplendorosa que estava em tudo e em toda parte. Os anjos brilhando na luz, o trono iluminado.
Ele baixou novamente os olhos, ofuscados:
– Verdade? – perguntou incrédulo e um pouco embaraçado.
– Sim, de verdade! – respondeu o Todo Poderoso, e com ele, numa só voz, todo o coro celestial – É tudo teu! Tudo no Paraíso é teu! Escolhe! Toma! É tudo teu! Estarás tomando aquilo que já é teu!
– Nesse caso – disse Bontsha, sorrindo pela primeira vez –, nesse caso, Excelência, eu gostaria de ter todos os dias, no pequeno almoço, um pãozinho quente com bastante manteiga.
Um silêncio terrível tomou conta do Tribunal, mais terrível ainda do que tinha sido o silêncio de Bontsha durante toda a sua vida. E Deus e os anjos baixaram a cabeça, envergonhados de terem criado na Terra tanta e tão desnecessária humildade.
Então o silêncio foi quebrado pela gargalhada amarga do anjo acusador.
Tradução de Octávio Marcondes
Retirado com adaptações de “Os Cem Melhores Contos de Humor da Literatura Universal”, seleção, introdução, tradução e notas Flávio Moreira da Costa. Edição Ediouro. Leia mais contos na secção Biblioteca do Esquerda.net
Disponível em http://www.esquerda.net/sites/default/files/bontsha_0.pdf