sexta-feira, 3 de abril de 2015

A SURPREENDENTE ESCULTURA DE GIUSEPPE SANMARTINO – MARMORIFICAÇÃO DE TECIDOS

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Em Veneza
Sanmartino é uma das maiores personalidades artísticas do século XVIII italiano. É contemporâneo do magistral escultor Antonio Canova (1759-1822). No entanto, é um escultor quase desconhecido, muito admirado por seu conterrâneo Canova, que afirmava ter inveja de não ser o autor da estátua do Cristo morto, da capela de Sansevero, de Nápoles, da autoria de Sanmartino. 
Pouco se sabe de sua vida privada. Sabe-se que é autor de muitas peças artísticas em túmulos de personalidades ilustres, como é o caso dos irmãos Michele e Andrea Giovane, na Chiesa della Nuziatella, em Nápoles.
Nasceu em Nápoles, em 1720. Uma tradição afirma que ele recebeu as primeiras instruções no trabalho com o mármore do príncipe napolitano, o alquimista Raimondo di Sangro, que lhe teria ensinado a técnica de “marmificar” tecidos.
Raimundo foi príncipe de Sansevero, em Nápoles, dedicado à alquimia, mas foi também um amante das artes, tendo restaurado muitas capelas. Como era estudioso das técnicas artísticas, desenvolveu a técnica de marmificar tecidos. Esse neologismo refere-se à arte de esculpir o mármore de tal modo que o observador tem a impressão de que há, por baixo, uma imagem e, encobrindo-a, um tecido.
Há uma tradição segundo a qual Raimundo, em seus processos alquímicos, teria desenvolvido um tipo de mármore líquido transparente com uma cada do qual a escultura seria coberta. No entanto, não há nenhuma evidência dessa invenção e o efeito do véu pode ser devido apenas à habilidade do escultor, Giuseppe Sanmartino, amigo e discípulo do príncipe.
Em sua genialidade, Giuseppe Sanmartino aprendeu e desenvolveu magistralmente essa técnica e produziu obras primas. Porém, mais do qualquer outra obra, causa inenarrável admiração a estátua do Cristo morto, posta sobre um manto de pórfiro, com uma finíssima mortalha, descuidadamente jogada sobre o corpo, envolvendo os membros delicados, que transparece por baixo. 
No seu Cristo, a pele do cadáver confunde-se e desfaz-se no sudário e a figura produz efeitos da pathos que inspirou a arte barroca. É clara a influência do preciosismo barroco de Lorenzo Bernini na obra de Sanmartino.
Cristo Velato - Napoli

A escolha de mármore claro acentua, no espectador, a sensação da palidez específica da morte. Notam-se, sobre esta escultura as muitas influências do barroco de Fanzago, o Bottigliero e Vaccaro e já aponta para uma inspiração Neoclássica. O neoclassicismo já despontava no momento da execução dessa magnífica obra. No entanto, essa característica fez com que esta escultura e outras de mesma inspiração fossem depreciadas pela crítica dos analistas românticos posteriores.

Outro escultor italiano do século seguinte, Camillo Torreggiani (1820 – 1896), especialista em bustos, executou, em mármore de Carrara, a obra em que retrata Isabel II, rainha da Espanha, com o rosto coberto por um véu, o que a associa à fé, à virtude e à religiosidade. A escultura comprova o virtuosismo técnico do artista. 
Isabel Velata
A rainha aparece com o rosto coberto por um véu, através do qual se pode ver, perfeitamente, sua feição. Conseguir modelar um rosto sob a transparência de um véu num material duro como o mármore é impressionante! O pedestal em que se encontra a obra, no Museo del Prado, em Madrid, foi executado também por Torreggiani.