domingo, 26 de abril de 2015

RASPUTIN, O EXÓTICO MONGE DA CORTE RUSSA DOS ROMANOV - Распутин, Григорий Ефимович

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Para entender o papel de Rasputin na corte russa, cujo reinado cocorreu no momento final da dinastia dos Romanov, em inícios dom século XX, é antes necessário olhar um pouco para o modo como se desenhava a política e a economia na Rússia, na Europa e no mundo, nesse período de grandes alterações das configurações da política e da economia internacional.
A Inglaterra despontava como a principal potência industrial europeia, com apoio de sua poderosa frota de guerra que lhe permitia o controle dos mares e consequentemente do comércio internacional.
Porém, a vitória alemã na guerra franco-prussiana de 1870/71, embora enfraquecesse a França com a perda das ricas províncias da Alsácia e da Lorena para o Império Austro-Húngaro e condenasse os franceses a pesada indenização, favoreceu a unificação alemã por Otto Von Bismarck e a criação do Segundo Reich, sob o comando do imperador Guilherme II, que reinaria até 1919. Seria  também um forte opositor econômico à Inglaterra. O estado prussiano era absolutista e burocrático, altamente militarizado.
Nesse contexto, a casa dos Romanov estava em decadência. Instalada por Mikhail I, ainda no longínquo século XVI, confirmada pelo Poderoso Pedro Romanov, o grande, e modernizada pela sofisticada Catarina Romanov, a grande, a dinastia Romanov encontrava-se, nos primeiros anos do século XX, com Nicolau Romanov II, em situação econômica e militar inferior em relação aos mais poderosos países europeus, mais especificamente Inglaterra, Alemanha (Áustria-Hungria) e França. Desde os tempos de Catarina, na corte de São Petersburgo falava-se francês.
Rasputin

Nicolau (Nicolau Alieksandrovich Romanov, em russo Николáй Алексáндрович Ромáнов) era filho do czar Alexandre III, e foi consagrado imperador de todas as Rússias, rei da Polônia e grão-príncipe da Finlândia, em primeiro de novembro de 1894, cargo que ocupou até 15 de março de 1917. Tinha como esposa Alexandra Feodorovna, com a qual gerou cinco filhos: Olga, Maria, Tatiana, Anastácia e Alexei.
Sob o reinado de Nicolau II, a Rússia decai de uma das maiores potências da Europa e do mundo, para um reino desastrado tanto militar quanto economicamente. Em 1917, depois do fracasso contra os revolucionários, abdica em favor de seu irmão grão-duque Miguel Alexandrovich Romanov.
Foi um rei sanguinário, moveu grandes perseguições políticas. Já na cerimônia de sua posse, nos festejos nos campos, uma desordem provocou enorme reação policial que teria assassinado em torno de mil e quinhentas pessoas e ferido por volta de vinte mil, fato que ficou conhecido como Tragédia de Khodynka. Seus crimes culminaram com os fatais pogroms antissemitas, que consistiam em ataques simultâneos a residências, empresas, templos e cemitérios judaicos a um só tempo.
Sua derrocada final ocorreu quando da tentativa de retomada de seu quartel-general durante a revolução russa de 1917, seu comboio foi detido em Pskov e Nicolau forçado a abdicar. Foi aprisionado com juntamente com toda a família no palácio de Tsarskoye Selo, a 26 km de São Petersburgo.
Nicolau II e sua família
 (da esquerda para a direita):
 Olga, Maria, Nicolau, Alexandra,
Anastásia, Alexei e Tatiana.

Em agosto de 1917, a família prisioneira foi transferida para os montes Urais, para a casa do governador, em Tobolsk. Finalmente, foram todos confinados na Casa Ipatiev, uma instituição comercial, também nos Urais, em Ekaterimburgo. Aí a família foi executada pelos bolcheviques, nos porões da casa, na madrugada de 16 para 17 de julho de 1918, juntamente com seu médico pessoal Eugene Botkin, o serviçal da corte Alexei Yegorovich Trupp, o cozinheiro da família Ivan Mikhailovich Kharitonov e a camareira da imperatriz Anna Stepanovna Demidova.
Todo seu reinado foi marcado por fraquezas e excessos. Seu pai falecera inesperadamente, aos 49 anos, quando tinha 26 anos e não se havia ainda preparado para governar.
Não apenas não estava preparado para governar, como não o desejava.
Afirma-se que, chorando, teria afirmado ao primo Alexandre: "O que será de mim e da Rússia? Eu não estou preparado para ser Czar e nunca o quis ser. Não percebo nada dos negócios do governo. Não sei nem sequer como hei de falar com os ministros".
Logo após a morte do pai e assumir o reino, uniu-se em casamento com a princesa alemã Alexandra de Hesse. Ela, segundo muitos historiadores, tinha enorme ascendência sobre ele. Provavelmente, por perceber-lhe as fraquezas, passou a dominá-lo.
Por essas razões, seu governo foi extremamente ineficiente, não oferecendo condições aos empresários para o desenvolvimento industrial do reino. Também não modernizou o atrasado sistema agrícola da Rússia, ainda suatentado por moldes feudais.
Todos esses atrasos, somados a um sistema absolutista de governar, criaram um descontentamento generalizado que começava nas elites da nobreza, atingia e proletariado urbano, os bolcheviques, e acabava nos servos da agricultura, os pobres mencheviques.
É nesse reinado e nessa situação histórica que surge Grigori Iefimovitch Novykh, popularmente conhecido como Rasputin. Era um ambiente propício para a ascensão de uma figura tão ímpar e tão controvertida quanto a dele.
Rasputin era uma figura estranha. De procedência rural, filho de pobres mujiques, que haviam sido escravos, servos da gleba, como se classificavam no período feudalista, era um mago sujo e grosseiro. De barba desgrenhada, cabelos compridos, sujos e engordurados, no entanto, impressionava tanto o populacho quanto alguns membros da nobreza, incluída nesses a própria família dos imperadores.
Mal sabendo ler e escrever, causava mais temor do que afeto. Era, porém, odiado por uma grande parte da nobreza, que o acusava de amante da czarina, além de o responsabilizarem pelo grande fracasso russo na primeira guerra mundial. O fato relevante é que exercia influência nas decisões do czar, como a nomeação de mandatários para cargos importantes, até mesmo para a função de ministros de estado. Tinha também influência decisiva na escolha dos líderes da religião ortodoxa russa.
Malgrado sua figura execrável e seus hábitos de higiene e postura pouco recomendáveis, exercia inegável influência sobre os czares, jamais negada por ninguém. Em função disso, houve mutos movimentos contra ele e mesmo algumas tentativas de assassinato contra ele, o que o rude mago não ignorava.
Uma carta profética foi elaborada por ele em dezembro 1916 e encaminhada ao czar Nicolau II. Este é o texto do documento:
“Czar de todas as Rússias, tenho o pressentimento de que até o final do ano eu deixarei este mundo. Serei assassinado, já não estarei entre vós. Se eu for morto por gente do povo, gente como eu, tu não tens nada a temer, continuarás no trono. Mas, se eu for morto por nobres, as mãos deles ficarão manchadas pelo meu sangue. Eles se odiarão e matarão uns aos outros. Dentro de 25 anos não restará um único nobre neste país. Nenhum parente teu, nenhum de teus filhos sobreviverá mais de dois anos. O povo russo dará cabo de todos. Assim, depois que eu desaparecer, tem cuidado, pensa bem, protege-te. Diz a todos os teus que derramei meu sangue por eles. Reza, reza, sê forte, pensa em tua família.”
Poucos dias depois da publicação da profética carta, teria Rasputin recebido um telefonema anônimo de advertência para que tomasse cuidado, pois um perigo iminente o aguardava. Lacônico, sem mais detalhes, o ameaçador telefonema não fornecia mais detalhes sobre o tipo de perigo contra o qual o mago se deveria precaver. A seguir, o próprio Ministro do Interior do czar, Alexander Dmitriyevich Protopopov, foi pessoalmente à sua residência a fim de adverti-lo para que permanecesse em casa, trancado, e tivesse as mais cuidadosas precauções.
Rasputin não levou em consideração nenhuma dessas advertências. À meia-noite, bufonescamente vestido, camisa azul celeste bordada de girassóis, calça preta de veludo e botas de cano alto de verniz, dirige-se ao palácio Iussupov, o ambiente mais requintado e luxuoso de São Petersburgo.
O próprio príncipe Félix Iussupov enviou-lhe seu carro particular, em que o mago, todo perfumado, dirigiu-se ao palácio. Rasputin conheceria a jovem esposa do anfitrião, a princesa Irina, depois do que participariam, em local fora do palácio, de festejos ciganos.
Tratava-se, no entanto, de uma cilada. A princesa encontrava-se, de fato, na residência dos príncipes na Crimeia. Quatro cúmplices do príncipe aguardavam Rasputin, acompanhados de algumas amigas e de uma bailarina do Bolshoi. O príncipe havia encomendado doces envenenados e havia também envenenado com cianeto o copo que estava destinado ao mago.
O convidado, por não apreciar doces, primeiramente os recusou, mas acabou consumindo alguns, por insistência do anfitrião. Quando o príncipe passou-lhe o vinho, que o convidado apreciava sobejamente, o dono da casa já se preocupava pela ausência de efeito do veneno inserido nos doces. O mago bebeu e repetiu do vinho envenenado com cianeto, sem manifestar qualquer efeito do poderoso tóxico.
Desconcertado pela ausência de efeito do veneno sobre o desafeto mago, o príncipe solicitou licença ao convidado e afastou-se para consultar os cúmplices diante do imprevisto. Rasputin parecia adivinhar-lhes as intenções e sorria diante do desconforto deles, repetindo sucessivas taças de vinho envenenado. Isso levou os conspiradores à conclusão de que o mago tinha pacto com satanás.
Rasputin os contemplava com olhar zombeteiro que os comparsas do príncipe interpretavam como diabólico. Iussupov, depois de muito discutir, no andar de cima, com os amigos que aí o aguardavam, as alternativas que tinha para livrar-se do indesejável mago, retorna à sala onde estava Rasputin com os demais convivas, levando no bolso seu revólver.
Ao chegar à sala, enquanto o distraía mostrando-lhe um crucifixo, atira-lhe sorrateiramente no peito, deixando-o caído no assoalho, contorcendo-se. Ato contínuo, os comparsas do príncipe entram na sala e carregam o corpo ainda dando sinais de vida. O corpo ainda vivo foi jogado no rio Neva, então congelado pelo inverno russo, tendo aparecido o cadáver mutilado, nas margens mais abaixo, alguns dias depois. A polícia identificou os assassinos, pelas múltiplas pistas que deixaram.
O povo, sabedor do assassinato, considerou o monge como santo e passou a recolher a água que tinha entrado em contato com o corpo dele, atribuindo-lhe poderes sobrenaturais.
Daí por diante, enquanto grande parte da nobreza considerava a morte do mago uma vitória da pátria sobre um usurpador, a maioria do povo simples passou a considerá-lo um mártir, provindo da classe miserável, que defendia os interesses do povo sofrido junto ao czar e assassinado pela nobreza. O rei, temendo uma reação maior da nobreza caso aprofundasse as investigações sobre os criminosos, apenas expulsou os assassinos da cidade e mandou encerrar o processo.
Porém, o nome de Rasputin tornou-se santo entre o povo simples, embora sua história de vida seja obscura e pesassem sobre ele acusações de assédio a mulheres em sua juventude na Sibéria, de onde se acreditava originário, mais precisamente de um vilarejo da região de Tobolsk. Segundo alguns, teria recebido, na infância, uma aparição da virgem Maria. Depois, teria feito uma longa peregrinação na qual teria ido mesmo até a Grécia. Nessa viagem, teria passado por muitos mosteiros, onde aprendera muito do que divulgava em suas falas.
A fé que a czarina tinha nas palavras e conselhos do mago se deviam à cura do filho dos reis Alexei que seria hemofílico. Isso gerou na família real uma confiança absoluta no monge, que acabaram por considera-lo o mensageiro de Deus.

Tempos depois, o mito foi crescendo. Atribuiu-se mesmo seu assassinato ao serviço secreto britânico. Nunca se soube exatamente o ocorrido, nem as verdadeiras intenções e o verdadeiro papel desse monge junto à corte russa.