quarta-feira, 1 de abril de 2015

RAZÕES DE SÓCRATES SER O FILÓSOFO DO OCIDENTE DE MAIOR PRESTÍGIO

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
"Cada corpo movido de fora é inanimado. O corpo movido de dentro é animado, pois que o movimento é da natureza da alma" (Sócrates, in: Platão, Diálogo Fedro).

Embora nada tenha escrito, quando se abordam temas filosóficos, a imagem de Sócrates (Σωκράτης) logo nos vem à mente. Seria em razão de seus grandes discípulos, Platão e Xenofonte, que semearam a filosofia do mestre abundantemente em seus textos? Ou, de fato, o pensador ateniense formulou, em seus ensinamentos, os fundamentos do pensamento ocidental de raiz grega?
Aparece em Atenas, ponto geográfico que congregou uma plêiade de pensadores, por séculos afora. Mais ainda, veio ao mundo no fecundo século V a. C., tempo privilegiado de reformulação do pensamento e do modus vivendi no mundo mediterrâneo clássico. Portanto, um espaço e um tempo especial acolheram-no e o condenaram. Sua condenação e morte por envenenamento também contribuiriam enormemente para a elevação de seu prestígio pelos tempos que se seguiram.
Recebe justamente o crédito de ser um dos fundadores da filosofia ocidental. Sua figura permanece enigmática especialmente devido ao fato de não ter escrito obra alguma. Seu pensamento chega até nós, de modo especial, através de seus discípulos Patão e Xenofonte. As peças do dramaturgo contemporâneo seu Aristófanes também contribuíram para que o pensamento socrático chegasse às gerações posteriores.
Por meio da técnica dialética platônica do diálogo, em que Sócrates aparece como mediador entre dois contendores que defendem posições opostas, manifesta-se, de um lado, a ética socrática, de outro, o próprio método desse pensador, conhecido como elenchus (ἔλεγχος).
Em sentido amplo, o termo elenchus significa examinar uma declaração de alguém, colocando-lhe perguntas a fim de refutar a verdade da afirmação primeira.Um exemplo geralmente apresentado relaciona-se aos sofistas. Sócrates perguntava aos sofistas sobre o grande princípio geral da filosofia sofística. O interlocutor respondia que esse princípio era: Nada é verdadeiro. Perguntava, na sequência, ao seu interlocutor: Então, quando você afirma que nada é verdadeiro, nega seu próprio princípio? Se nada é verdadeiro, esse princípio também não o é, portanto, deve haver algo de verdadeiro. Esse processo leva à rejeição da proposição inicial do interlocutor.

O processo de busca da verdade de Sócrates é conhecido como maiêutica (μαιευτική), que significa parto. Origina-se do verbo parir (μαιεύω),
Nascido nas planícies de Monte Licabeto, nas proximidades de Atenas, Sócrates procedia de uma família humilde. Ele era o filho de Sofrónisco, um escultor especialista em colunas de templos, e Fanarete, uma parteira da região.
Sócrates

Seria casado, em primeiras núpcias, com Xantipa, mulher que, segundo a tradição, seria muito bela e muito mais jovem do que o pensador, porém marcada por um exaltado mau gênio. Muitas anedotas tradicionais sobre esse relacionamento chegaram até nós. Ela teria mesmo jogado sobre ele uma jarra de água por ele não lhe dar resposta a sucessivas reclamações.
O filósofo, que conversava com um amigo, apenas teria dito: “Após a trovoada vem a chuva.” Dela teve o filho primogênito Lamprocles. O fato é que o amava tanto, que esteve ao lado dele quando foi condenado e tentou impedi-lo de beber o cálice de cicuta da execução.
Talvez o mau humor da primeira mulher se devesse à presença de uma segunda esposa, como permitia a lei ateniense, pela necessidade de soldados. Chamava-se Myrto. Dessa, teve mais dois filhos, Sofrónisco e Menexenus.
Há narrativas que afirmam ter Sócrates auxiliado seu pai na função de escultor, porém, como não tivesse habilidade natural para essa profissão, era alvo da zombaria dos amigos.
Era homem de hábitos muito simples. Costumava caminhar descalço, tanto nos verões escaldantes quanto nos dias de neve. Amava brincar com as crianças. Muitas vezes foi surpreendido brincando com os próprios filhos.
Já na juventude começou os estudos de filosofia, com os filósofos Anaxágoras (ναξαγόρας) de Clazômenas e Arquelau (ρχέλαος) de Atenas. Desde cedo, destacou-se pela inteligência e talento, passando a ser chamado de pitonisa, sacerdotisa do templo de Apolo. Depois dos primeiros estudos filosóficos, já era conhecido como o mais sábio dos homens.
Completou sua formação, discutindo com pessoas de sua idade. Discutia em lugares públicos como ruas e parques e era ouvido por jovens e mulheres. Não exigia nenhum pagamento por suas lições, embora fosse extremamente pobre e enfrentasse dificuldades econômicas.
Participou de várias guerras em defesa da própria pátria, onde lutou como soldado comum. Era hoplita (πλίτης), soldado da infantaria, sendo arqueiro, lançador de flechas. Como era fisicamente forte, salvou muitos companheiros em combate. É famosa sua bravura, tendo salvado o jovem Alcibíades (λκιβιάδης). Estando o jovem ferido em campo de batalha, Sócrates tomou-o nos ombros e caminhou com ele às costas no meio dos feridos, até depositá-lo em lugar seguro.
Porém, o grande filósofo foi condenado à morte sob a acusação de que estaria corrompendo a juventude. Pelo menos três grandes obras narram sua condenação e execução. Primeiramente, “A Apologia de Sócrates” (πολογία Σωκράτους), de seu ilustre discípulo Platão. Depois, o “Diálogo Críton” (Κρίτων), do mesmo Platão. Também A Apologia de Sócrates do historiador e militar Xenofonte, discípulo de Sócrates. Depois, pelos tempos da historia, surgiram incontáveis obras que abordaram tanto a vida quanto a filosofia do mais ilustre pensador que a Grécia gerou.
Platão afirma que seu mestre foi condenado por razões políticas. Xenofonte, por seu lado, diz que o objetivo dos opositores do filósofo era afastá-lo de Atenas, porém, o fato de ele não ter aceitado o auxílio de fuga dos amigos, levou-o ao fim fatal. Sócrates acreditava que, se fugisse, serviria de mau exemplo à juventude, que admirava as virtudes do mestre.
O fato é que provocou a ira de muitos velhos mestres, que se sentiram atingidos pela ação de um homem que não cobrava por suas lições, comprometendo-lhes o prestígio.
Na última guerra de que participou, a do Peloponeso, foi nomeado general, pela sua grande capacidade de persuasão dos jovens soldados. Numa batalha no final da guerra, permitiu que os soldados voltassem rapidamente para Atenas, sem enterrar os mortos, após uma derrota,  afirmando que, se todos morressem, não haveria ninguém para enterrá-los.
Conseguiu, porém a liberdade, que lhe valeu mais trinta anos de vida. Porém, após esse tempo, foi novamente preso. Metelo, um de seus acusadores, afirma: “...Sócrates é culpado do crime de não reconhecer os deuses reconhecidos pelo Estado e de introduzir divindades novas; ele é ainda culpado de corromper a juventude. Castigo pedido: a morte". Certamente, a acusação é falsa. Porém, a corte acatou os acusadores, que eram ricos senhores de negócios.
Sócrates não aceita o auxílio dos amigos e submete-se à execução. Bebe a taça de veneno e morre diante de seus amigos, que choram sua perda.

Não é o mito de sua afirmação: “Somente sei que nada sei”, em grego antigo: ν οδα τι οδν οδα”, que o tornou uma celebridade universal. Talvez o fato de nada haver deixado por escrito, de ter sido sempre honesto e jamais ter recebido nenhum pagamento pelas lições que ministrou, o fato ainda de ter enfrentado a morte pelas ideias e pelos ideais que defendia, sem se curvar diante dos acusadores tenham-no tornado o mais renomado filósofo do ocidente.