quarta-feira, 8 de abril de 2015

ESSA NEGRA FULÔ – Jorge de Lima - COMENTÁRIO


Comentário do Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara





Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama,
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô
ficou logo pra mucama,
pra vigiar a Sinhá
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!

vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

“Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco.”

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
“Minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou.”

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô? Ó Fulô?
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô.)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?

— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa.

O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô.)

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou.
Ah! foi você que roubou.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?
Essa negra Fulô!

O poeta Jorge de Lima trabalha magistralmente com a temática da mulata no nordeste brasileiro. Alagoano, conhecia excepcionalmente bem a realidade do negro dessa região, mormente o papel da mulher negra. Descreve sua fraqueza e sua força.
Inicia por apropriar-se da corruptela de flor, tão própria dos falantes menos letrados dessa região. Fulô, é o abandono da sequência erudita com duas consoantes e uma vogal, para o grupo mais natural do idioma consoante vogal, consoante vogal, próprio das crianças e dos simples.
Nesse retorno à simplicidade popular ele move um olhar diferenciado sobre o papel da escrava bonita e dos serviços caseiros, que se vale de suas virtudes particulares para dominar a sinhá e, com mais facilidade ainda, o sinhô.
Fulô é a metáfora da mulata astuta, que faz de sua fraqueza uma arma para subtrair, tanto os objetos específicos de valor da senhora, desde suas joias até o próprio senhor, enquanto se mostra humilde e submissa.

Jorge, em seu poema simples, sem uma métrica extremamente rigorosa, vai demonstrando aos poucos, que a própria moral frouxa da classe escravocrata permite brechas para que o dominado, a escrava Fulô, se valha deles em proveito próprio.