segunda-feira, 21 de setembro de 2015

MIGRAÇÃO DE REFUGIADOS PARA A EUROPA - COMENTÁRIO E A ENTREVISTA DO ESCRITOR UMBERTO ECO

 Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Diante da entrevista de Umberto Eco sobre a migração de refugiados na Europa, cujo texto publiquei hoje mais cedo faço a seguinte reflexão:
Se me fosse permitido fazer humor a respeito de situações trágicas e mesmo preocupantes, diria que Umberto Eco anda lendo minhas publicações.
Por ocasião do atentado terrorista contra o jornal francês Charlie Hebdo, em 7 de janeiro deste ano, publiquei um comentário, abordando a marginalização dos estrangeiros na Europa, mormente os negros e os de origem árabe. Eles suprem a carência de mão de obra, executando os trabalhos que os europeus rejeitam, mas são relegados a bairros distantes e, o pior, são considerados gente de categoria inferior, ignorante, suja e indesejável. O trem que leva ao bairro turco de Berlim não tem ar condicionado. Isso cria uma multidão de indivíduos que se percebem indesejados, que não se sentem europeus e são campo fértil para movimentos terroristas de toda natureza.


Veja a palavra de Umberto Eco:



“Acontecerá algo terrível antes de se encontrar um equilíbrio.” Migração e refugiados, por Umberto Eco

 "A Europa irá mudar de cor. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue."
A entrevista era sobre livros, sobretudo o dele que estava para sair, e aconteceu num tempo em que esta crise de refugiados que nos entrou pelas notícias já existia mas sem o impacto destes dias – transformados pela imagem do naufrágio da humanidade simbolizado num menino morto numa praia. A entrevista dele ao Expresso era sobre livros, mas Umberto Eco falou sobre mais – incluindo este tema que o preocupa há muito, o da migração e dos refugiados. Recuperamos o que ele enunciou em abril agora que estamos despertos para uma tragédia que se estende não há dias nem semanas, mas há meses e quase anos. É uma reflexão dura: “ A Europa irá mudar de cor. E isto é um processo que demorará muito tempo e custará imenso sangue”. Mas também com fé no outros homens – nos que estão e nos que vêm: “A migração produz a cor da Europa”

7. NO SENTIDO EM QUE HITLER NÃO ERA A CRISTANDADE

“O inimigo é sempre inventado, construído. Precisamos dele para definir a nossa identidade. A extrema-direita italiana acredita que são os ciganos ou os migrantes pobres, ou o Islão em geral, ainda que o Islão possa assumir muitas formas. Ora, o Estado Islâmico não é o Islão, no sentido em que Hitler não era a cristandade.”

8. RESPOSTA: NÃO

“A Idade Média não existe, porque tem dez séculos. É uma construção artificial. De qualquer forma, vemos que é uma época de transição entre dois tipos de civilização. E provavelmente – falávamos de migração – estamos numa era de transição, que é sempre difícil. A questão é: houve alguma era que não fosse de transição? Resposta: não. Mas houve momentos em que cada um vivendo no seu país não se apercebia de que havia uma transição a acontecer no mundo.”

9. CHAMA OS BOMBEIROS

“Qual o papel do intelectual hoje? Não dar muitas entrevistas! [risos] Falando a sério, penso que é duplo. Primeiro, é dizer o que as outras pessoas não dizem. Não é dizer que há desemprego em Itália. Segundo, não é resolver os problemas imediatos, é olhar para a frente. Se um poeta está num teatro e há um incêndio, não se põe a recitar poemas: chama os bombeiros. Pode é escrever sobre incêndios futuros.”

10. PERDA DO PASSADO

“É impossível pensar o futuro se não nos lembrarmos do passado. Da mesma forma, é impossível saltar para a frente se não se der alguns passos atrás. Um dos problemas da atual civilização – da civilização da internet – é a perda do passado.”