sexta-feira, 25 de setembro de 2015

RECORDANDO POEMAS DA MOCIDADE – O SAPATEIRO E O REI - Bulhão Pato - Literatura Portuguesa



Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
 
Como aquele ancião que, de quando em quando, abria o seu alforje e dele tirava coisas antigas e novas para contemplá-las e partilhar com os transeuntes, por vezes, sinto uma força irresistível que me impele aos textos da minha infância e da minha juventude nos quais busco arrimo para a saudade que me surpreende a alma.
Eu não tive cartilha. Fui alfabetizado pela velha antologia do nosso idioma “Seleta em Prosa e Verso”, do inesquecível intelectual Alfredo Clemente Pinto (1853-1938). Era uma coletânea de textos e poemas de variados autores, cuja réplica da versão original ainda guardo comigo. Ali catávamos a gramática e desenvolvíamos o gosto de visitar textos bem escritos.
Um poema que seguidamente visita meu espírito, que, de tanto relê-lo guardo de memória, intitula-se “O Rei e o Sapateiro”. Dirão muitos que não se situa no que hoje se julga sociologicamente, ideologicamente e politicamente correto. Que seja. Continuo amando esses velhos versos do poeta português já bastante esquecido também Bulhão Pato (1828-1912).

O REI E O SAPATEIRO

Era uma vez... quando foi
Eu bem ao certo não sei!
Porém sei que era uma vez
Um sapateiro e um rei.

Olha, Helena, o sapateiro
Era um pobre remendão,
Casado e com quatro filhos,
Que vivia quase sem pão.

No recanto de uma escada
Noite e dia trabalhava,
E por alivio de mágoas,
Esta cantiga cantava:

"Ribeiros correm aos rios,
Os rios correm ao mar;
São tudo leis deste mundo
Que ninguém pode atalhar:
Quem nasce para ser pobre
Não lhe vale o trabalhar!"

O rei tinha montes d'ouro
E joias em profusão,
E tinha mais que ouro e joias,
Pois tinha um bom coração.

Em vendo um pobre, acudia-lhe
Sem que o soubesse ninguém,
Que assim quer Deus que se faça.
E assim o faz tua mãe.

Por muitas vezes saía
Sem criados de libré,
E sozinho e disfarçado
Corria a cidade a pé.

Na rua do sapateiro
Passa o rei e ouve cantar:
"Quem nasce para ser pobre
Não lhe vale o trabalhar."

Isto uma vez e mais de uma
com voz que o pranto cortava,
E o rei condoeu-se d'alma
Do velho que assim cantava.

Chegado ao palácio ordena
Que lhe arranje o seu copeiro
Um bolo, do melhorio,
E que o mande ao sapateiro.

No melhorio do bolo
E' que estava o delicado,
Pois era de peças d'ouro
Todo, todo recheado.

Os pequenos, quando o viram,
Helena, imagina então,
Os olhos que lhe deitaram
Eles que nem tinham pão!...

Mas o pai a um seu compadre,
Que às vezes o socorria,
Foi dar de presente o bolo,
Sem ver o que nele havia!

No dia seguinte o rei
Torna de novo a passar,
E com grande espanto seu
Ouve ainda o velho cantar:

"Ribeiros correm aos rios,
Os rios correm ao mar;
São tudo leis deste mundo
Que ninguém pode atalhar:
Quem nasce para ser pobre
Não lhe vale o trabalhar!"

Mandou-o chamar ao palácio,
E agastado então o rei
Lhe diz: " Que é das peças d'ouro
Que no bolo te mandei?"

O pobre do sapateiro
Tremendo conta a verdade:
Abalou-se novamente
O rei na sua piedade.

"Toma esta saca", lhe diz,
"Ao erário vai daqui
Enchê-la de peças de ouro,
Que as peças são para ti."

Oh! Helena, supõe tu
Qual foi a sua alegria,
Vendo que um tesouro aos filhos
Naquela saca traria!...

Encheu-a a mais não poder,
Pô-la ás costas e partiu;
Deu quatro passos...nem tantos,
E nisto morto caiu!...

Na mão direita lhe acharam
Um papel onde se lia
Esta sentença, que o povo
Ser sobre humana dizia:

"Eu para pobre o criei,
Tu rico fazê-lo queres;
Agora ali o tens morto:
Dá-lhe a vida, si puderes."

Bulhão Pato.