quinta-feira, 28 de abril de 2016

VELHO CAMPEIRO

Prof. Dr.  Oscar Luiz Brisolara

Jamais se dera ao trabalho de previsões e pequenos cálculos. Sempre comprara o que era preciso. Do mesmo modo, vendera seus produtos a quem aparecia. Caso tivesse sobras, atrelava os bois e lá se ia, a pé atrás da carreta, rumo à cidade. Às vezes sentava na traseira para descansar as pernas.
Escutava o barulho da chapa das rodas nas areias e pedrinhas do caminho. Sentia o vento no rosto, o sol na cabeça de sob o chapéu. O pó do chão grudava na perna suada.
Anunciava pelas ruas o que trazia na carreta numa voz meio cantada. Vinha uma senhora, um curioso... o armazém arrematava o que sobrara... sempre regateando o preço... o que ele atendia para acabar a tarefa...
E lá se ia atrás dos bois, estrada afora. Se a tarefa demorava... parava no caminho... de sob uma árvore ramada, uma figueira galhuda, desatrelava os animais... e pitando um cigarro de palha... contemplava o horizonte, pensando solito, na vida e nos filhos que tinham ido para a cidade longe... Roía lentamente um pão com linguiça e chupava um chimarrão, olhando a chama tremente do fogo e as fagulhas que espocavam de quando em quando e subiam para a escuridão da noite...
Depois, esticava o corpo de sob o carretão vazio, com o cabeçalho apontando para o céu... e se entregava ao sono, com a respiração pesada...
Nunca fazia contas... também, não sabia. Tudo o que tinha, levava no bolso da calça. Quando recebia o dinheiro de uma colheita: uns volumes de batatas ou alguns sacos de feijão, guardava o dinheiro numa lata que só ele sabia onde ficava.
Chegava na venda, comprava o de comer: café, açúcar, sal. O resto tinha das casas. Ou pedia emprestado aos vizinhos: uma cozedura de couves, um tempero diferente.
Ovo tinha das aves do terreiro. Carne, uma galinha vez que outra. Açougue não existia por ali. De quando em quando, um vizinho carneava uma rês. Então, comprava um peso. Pouco. Não tinha luz nem geladeira.
E a vida seguia como o mundo que gira sem a gente ver. Plantava quando era seu tempo. A semente que tinha: de milho e feijão para o estio. A batata nas duas safras. Alguma cebola para não perder as sementes. Era primeiro o canteiro das mudas; depois, mudava para a terra da lavoura.
Os bois sempre com ele. O arado de lâmina 30. A grade para desmanchar os torrões. Quando a terra estava fofinha e pronta, botava a semente. Por que jogava quatro grãos por cova? Respondia para os vizinhos mais jovens que diziam ser melhor o milho pingado, uma semente por cova. Dava mais grãos, o agrônomo recomendava.
Respondia seguir uma cisma do velho avô. Era superstição. Não. Era pensamento dos antigos. O primeiro grão era para Deus. Sempre dava um saco de milho, meio de feijão para o vigário. O velho pároco tinha seus pobres que já não podiam trabalhar e os doentes impedidos.
O segundo era para algum que se dera mal na colheita em caso de precisão. Ora, o terceiro era para os bichos do mato que também precisam viver. O quarto dá para mim e tem sempre sobrado. Finda o ano e sempre sobra um bocado.
Plantava sem tino. A semente que tinha. Sentia o calor se chegando. Lá ia prender os bois. Eles tinham ficado descansando nas brenhas do campo.
Pela tardinha, vinham dormir no potreiro, perto das casas. Ganhavam um embornal de milho seco para repor as carnes. E se iam pela madrugada.
Ganhavam o campo à distância. Comiam do pasto que crescia nos campos. Bebiam na sanga fresquinha e ruminavam nas sombras do bosque por horas sem conta.
Pareciam velhos filósofos refletindo coisas da vida, do tempo e da história. O olho parado, perdido no nada, e o queixo batendo, sem fala, sem dor.
Pois, com os pesados animais e o velho arado de carrinho, arava o eito no olho, sem cálculo algum. Aqui cabe a semente que tenho. E cabia. Se sobrava lavrado, sempre tinha umas sementes de abóbora, de mogango, melão e melancia.  Aliás, sempre plantava algumas delas no meio do milho, do feijão e das batatas.
Era tão gostoso dividir uma melancia fresquinha, guardada na água serena da cacimba, onde serenara dos sóis e dos ventos e aguardava na calmaria da vida sem pressa.
Pois nunca faltava um passante a cavalo ou um caminhante assoleado com quem dividia a paz  e a alegria de seu espírito e trocava algumas palavras e cambiava silêncios espaçados de lembranças antigas.
Depois, vinha a capina. A mão era grossa dos braços do arado, do cabo da enxada, do machado. Capinava por dias seguidos até ficar todo o eito limpo, sem erva daninha. Batia a enxada na terra. Puxava o ervaçal arrancado para cima do pé descalço e com ele sacudia o capim para a terra sair de entre as raízes e a planta má morrer.
Se chovia logo após, o serviço ficava perdido. A erva pegava e tinha de capinar tudo de novo. Mas colono atento aos sinais do tempo quase sempre sabe quando vai chover.
Fica tempo olhando para o céu: de manhã cedo, de tardezinha e de noite espreitando um relâmpago pequeno na borda do morro. A cor da manhã. A cor do céu quando o sol se vai. As nuvens, os feitios delas. O lado e a força do vento.
Às vezes se espera por chuva ou garoa. Outras, se espera sol e calmaria para o crescimento, a maturação e a colheita.
Nada se pode fazer. O céu sabe tudo. Aprende a olhar, a sentir, a cheirar o ar, a poeira. A sentir tudo da volta e do alto. E ouve o céu e até o ventre da terra.
Depois tem os bichos. Ah, como bicho sabe. Sabe de chuva, de raio, de sol. Até os passarinhos. Os quero-queros, então... são melhores que os cachorros para ouvir um ladrão se aproximando.
Na noite, os enormes silêncios campeiam nos matos, na rua... os sapos, os grilos nos falam das chuvas e a vida no campo se conta pelo lento crescer das velhas árvores.
Quando eu era guri, aquela figueira ainda não tinha coberto o topo do lajeado. Quando casei, ela estava na metade dele. Quando a velha se foi, já estava quase coberto. Agora, ela já tapa um eito de campo. Deve estar chegando e hora de eu me ir.