terça-feira, 23 de janeiro de 2018

HÁ UMA DOR QUE GERA A MORTE, MAS HÁ UMA SUBLIME DOR QUE ORIENTA PARA A VIDA


SONETO XXII - (O mito do pastor Fido).
Cláudio Manuel da Costa -

Neste álamo sombrio, aonde a escura
Noite produz a imagem do segredo;
Em que apenas distingue o próprio medo
Do feio assombro a hórrida figura;

Aqui, onde não geme, nem murmura
Zéfiro brando em fúnebre arvoredo,
Sentado sobre o tosco de um penedo
Chorava Fido a sua desventura.

As lágrimas a penha enternecida
Um rio fecundou, donde manava
D’ânsia mortal a cópia derretida:

A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, estátua da dor, se congelava.

No mito de Fido, há uma dupla metamorfose: Fido, abandonado por sua amada, senta-se sobre um rochedo e se torna uma estátua de pedra. Enquanto Fido se petrifica, a rocha sobre a qual ele estava sentado gera uma fonte. A pedra é o mais acabado símbolo da morte; por outro lado, a água é o símbolo mais eloquente de vida.
Cláudio, poeta árcade brasileiro, aborda a duplicidade da dor: se há uma dor daquele que lamenta a própria desgraça, dor que desumaniza e petrifica; há, por outro lado, uma dor que humaniza e dá vida, a dor daquele que sofre pela desgraça alheia. Se Fido se transformara numa estátua de pedra pela dor do abandono, por outra, o rochedo sobre o qual ele se sentara havia gerado uma fonte que produzia a vida, pela dor que sentira, vendo desgraça do infeliz pastor. Conclui o poeta:

"A natureza em ambos se mudava;
Abalava-se a penha comovida;
Fido, estátua da dor, se congelava. "

Nenhum comentário:

Postar um comentário