sexta-feira, 25 de outubro de 2019

ACQUA SACRA ACQUA


Oscar Luiz Brisolara
Todos os rios nascem no céu...
Rolam, depois, nos caudais das montanhas
E nas ondas oceânicas, sem conta.
Na nuvem que espreita o vale e sombreia as várzeas,
Escondem-se riachos, rios e os repuxos misteriosos de todas as nascentes.
Seus místicos segredos anelantes
Visitam, na madrugada, a menina em seus ardores...
Repousam córregos nas folhas frescas das florestas
E rolam rios no âmago das plantas.
Em sendo cor, beija as fímbrias das ramagens...
Sendo incolor, é vida ignota e frágil...
Em sendo gota, lança-se, descuidada, ao chão...
Serpenteia entre raízes e abrolhos.
Depois, esconde-se entre rochas e penhascos.
Por milênios, sobe aos céus e volta ao mundo sem cessar...
É sempre a mesma, ignota e clara per omnia saecula saeculorum...
Esteve no poço de Jacó, na Galileia,
E no balde de Maria de Magdala,
Entre a jovem morena e o Cristo seu Senhor...
Penetrou nas almas como metáfora da fé...
Misturou-se aos lodos das pocilgas
E aos sórdidos bordéis de sórdidas noitadas...
Purificou-se nas entranhas do universo...
E fez-se a essência de todos os oásis.
Confortou as almas dos desesperados,
Fez-se vida e abraçou a morte.
Voou de norte a sul, trazendo a uns conforto e sorte,
A outros, as asperezas da maldade de todos os devassos.
Embala, em seu âmago, os segredos dos mistérios do universo,
Em que o loiro trigo se entreabraça com a cizânia da má sorte.

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