sábado, 8 de outubro de 2016

O MARAVILHOSO MUNDO SONORO E UNÍSSONO DO CANTO GREGORIANO - MISTICISMO DOS MOSTEIROS

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Antes de qualquer comentário, gostaria convidar-te para ouvir atentamente o Gloria in Excelsis Deo (em latim), cantado por um coral misto (masculino e feminino) e experimentar a experiência mística que ele transmite:


O canto gregoriano, também conhecido com canto chão é uma forma mística de canto e oração. É a mais antiga manifestação musical do Ocidente e tem suas raízes nos cantos das antigas sinagogas, desde os tempos de Jesus Cristo. Os primeiros cristãos e discípulos de Cristo foram judeus convertidos que, perseverantes na oração, continuaram a cantar os salmos e cânticos do Antigo Testamento como estavam acostumados, embora com outro sentido. à medida que os não judeus gregos e romanos foram também se tornando cristãos, elementos da música e da cultura greco-franco-romana foram sendo acrescentados às canções judaicas.
Chama-se gregoriano porque foi introduzido nas cerimônias religiosas pelo papa Gregório I, conhecido como Gregório Magno, no final do século VI. Gregório pertencia à austera Ordem de São Bento (OSB), cujos monges vivem em pleno silêncio pela vida inteira.
Ao assumir o pontificado em 590 d. C., provindo da vida reclusa e modesta de um mosteiro, constata que as igrejas se haviam tornado um teatro, em que as missas dominicais se assemelhavam a um festival de coros, com órgãos maravilhosos, sob cujo acompanhamento enormes corais polifônicos produziam peças de arte e encantamento.
Assemelhavam-se muito aos festivais profanos das grandes cidades do momento, mormente Roma, que, com mais de um milhão de habitantes, era a maior cidade do mundo. Havia-se perdido o misticismo e a religiosidade dos templos e passara-se à suntuosidade dos teatros. 
Preocupado com essa superficialidade e com o luxo das cerimônias, decidiu simplificar o culto, deixando a teatralidade dos corais para as abundantes casas de espetáculos profanos e laicos. Para tanto, recorreu a seus colegas monges, solicitando a criação de uma música simples e plena de espírito religioso e místico, que já existia nos mosteiros.
Aconteceu, então, a popularização do monástico canto chão. Chão, em português, "planus", em latim. Era planus porque todos os cantores cantavam em um mesmo tom. Chão, em português, provém do termo planus latino. O grupo fonético pl latino comumente muda-se graficamente para ch em português. Ocorre isso em pluvia, que passa para chuva em português, e plumbum que se transforma em chumbo. Assim, o fonema /ʃ/ é conhecido pelo som do dígrafo “CH”. 
Transformado o pl em ch, reduziu-se de duas consoantes em um único fonema representado por esse dígrafo (ch), seguiu-se a mudança linguística. Consoante intervocálica não tônica é muito instável na passagem do latim para o português. Assim, houve uma síncope do n, ou seja, seu apagamento, mas manteve-se a nasalidade que esse fonema transmitia ao a antecedente. Essa nasalidade, na língua portuguesa, é marcada pelo sinal diacrítico til (~). Por fim, houve uma apócope, apagamento de fonema final, do s latino, muito comum nesses casos, resultando a palavra portuguesa chão, que passa a designar o canto gregoriano.
O canto gregoriano, ou canto chão, substitui o pentagrama da música comum pelo tetragrama, ou seja, um gráfico de cinco linhas em que se inscrevem as notas musicais é substituído por um gráfico de quatro linhas.
As notas musicais do sistema comum aparecem no gráfico abaixo:

Nesse sistema, a semibreve é a nota mais longa, e a semifusa, a de mais breve duração, isso numa escala em que cada nota seguinte vale apenas a metade da anterior. Assim, uma semibreve equivale a 64 semifusas. 
Já no canto gregoriano, todas as notas possuem a mesma duração, sendo, por isso, todas iguais, quadradas. A primeira linha está marcada por uma clave de fá inicial. Veja-se a música gregoriana abaixo - Veni Creator Spiritus


Já, o canto polifônico, do mesmo modo que a música comum, inscreve-se num pentagrama, cuja linha melódica é geralmente iniciada por uma clave de sol para as linhas melódicas e uma clave de fá para as vozes de acompanhamento. Primeiramente, veja-se a partitura simples da melodia de uma tradicional música de Natal intitulada em latim como “Adeste Fideles” também conhecida como “Hino de Natal Português”, devido ao fato de ter sido composta pelo Rei D. João IV de Portugal. Foram achados dois manuscritos desta obra, datados de 1640, no seu palácio de Vila Viçosa. No entanto, uma tradição inglesa atribui sua autoria ao compositor John Francis Wade, compositor inglês de muitos hinos religiosos.

Agora partitura para um coral polifônico de Adeste Fideles:


Ouçamos agora esta maravilhosa composição cantada pelo coral do Vaticano composto apenas de vozes masculinas de homens e meninos, gravado na Capela Sistina no Natal de 2011:


Agora, a mesma música "Adeste Fideles" cantada por um coral misto de vozes masculinas e femininas que parece enriquecer grandemente a interpretação, com a participação de solistas de ambos os sexos, de um coral de Madrid:


Seguindo a experiência de escutar música religiosa, apresento um hino de pedido de perdão, o Kyrie Elesion (Κύριε ελέησον - Senhor tende piedade de nós), uma composição medieval a partir de um poema grego, primitivamente apenas catada em grego no rito de pedido de perdão para os pecados, que ocorre no início da missa. Ouçamos:
Outro hino fantástico é o Credo. Uma declaração de fé na doutrina católica. Veja-se esta majestosa gravação:



Hoje, há composições em cântico gregoriano moderno, até mesmo de temas profanos, como The Sounds of Silence - Cantos Gregorianos Modernos, que apresento a seguir: 



Ou o canto gregoriano produzido em Praga por grupos não religiosos: