terça-feira, 23 de setembro de 2014

A LAMPARINA ALUMIAVA A ALMA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

Interior do Rio Grande do Sul, Serra dos Tapes... sul do sul... para os migrantes europeus, acostumados aos gelos do Tirol... aquele frio era nada... No inverno, às seis horas não havia mais sol... minha avó acendia uma lamparina de querosene e começava a ler suas preces... ora em latim... ora em alemão... ora em italiano... se repetiam pelo tempo afora...

Eu olhava a pequena chama que tremulava à procura do oxigênio do ar... de quando em vez, eu abria a porta da rua e contemplava as estrelas tão alto... passava pela cozinha... aquecia as mãos no fogão a lenha onde um braseiro fazia chiar a água numa chaleira preta do fogo...
Minha mãe, cochilando, aguardava pacientemente pelo meu pai, que jogava cartas numa venda de campanha... vez por outra, bebia um mate doce... beijava-a e retornava para minha caminha no quartinho da vovó...
A lamparina, sobre uma toalhinha branca, com flores bordadas a mão no centro... bordadinhos enfeitando os quatro cantos... Nojos... gostos... coisa boa... coisa ruim... concluí muito depois que tudo isso vem de um jeito de olhar a vida e o mundo... não percebia o odor forte do combustível... era muito barato... um litro durava dias... eu buscava...  sem calçado... as pedras machucando os pés... era assim com todos... Quando ainda não havia rádio... o tempo era um tempão que não passava nunca... o ano... era como muitos dos de hoje...
O pão era gostoso... e como era... leite era leite... o café, uma delícia incomparável... o pão no forno de lenha da rua... a lenha, se buscava no mato... todo mundo... e a fumaça subia da chaminé marcando o céu de branco tisnado...

E Deus sempre olhava pra gente... nada preocupava ninguém... os sonhos tão pequenos... ninguém tinha nada e nada faltava a ninguém... mais, pra quê? Não havia ladrão... roubar o quê? Ninguém tinha nada que prestasse... e como tudo era bom... No sétimo dia, criou o homem e viu que tudo era perfeito... a gente era completamente perfeitos... E o sol de cada dia a todos abençoava... o calor das cobertas era tão terno... o beijo de minha avó em meus cabelos era uma bênção divina... corria do cabelo para a alma... eu era santo e não sabia...