quarta-feira, 10 de setembro de 2014

PLATÃO E ARISTÓTELES: PROTÓTIPOS DE MESTRE E DISCÍPULO

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Oscar - Musei Capitolini - Roma
Era o dia da Lua (μέρα Σελήνης) nas montanhas da Macedônia, que corresponde à nossa segunda-feira. Nicômaco toma assento na carruagem que lhe fora preparada pelos servos de Amintas III, naquela primavera de 368 a. C. Ao lado do pai, estava o jovem Aristóteles, ansioso para chegar à cidade de maior prestígio entre as metrópoles da antiga Grécia. Depois de andarem por um dia e meio pelas montanhas. chegam ao mar e dirigem-se ao seu destino.
O jovem macedônio causou certo espanto entre os demais discípulos de Patão, pois Atenas, de onde provinha a maioria dos discípulos da Academia, era uma cidade sofisticada, até mesmo no uso da língua grega. Ora, o jovem filho de Nicômaco falava um dialeto trácio, que o tornava estranho aos jovens estudantes, seus futuros colegas. A Trácia era uma região situada ao norte, estando Estagira, a cidade natal de Aristóteles, situada no interior e nas montanhas. A zombaria dos colegas seria hoje considerada como forma de bullying, não moveu o ânimo do novo acadêmico.  Desde esse tempo, passou a ser motivo de chacota dos colegas.
Porém, o jovem de apenas 17 anos foi recebido com muita gentileza pelo velho mestre Platão que já contava 60 anos. Com uma linguagem muito macia, o velho solteirão recebeu-o com seu pai e franqueou-lhe as portas de sua escola pelo tempo que desejasse.
Academia de Platão
A Academia era um conjunto de construções que incluíam salas de estudo, altares, monumentos e dependências para alojamento dos alunos. Situava-se no sofisticado e tranquilo bairro ateniense de Kolono, no caminho de Elêusis, onde estava o suntuoso templo da deusa Deméter, em que se faziam os ritos eleusinos de iniciação dos jovens masculinos de dezoito anos, para o ingresso na cidadania ateniense Esses ritos eram marcados por cerimônias secretas que introduziam o jovem à condição de cidadão ateniense. Situava-se a escola de Platão próxima do cemitério e ocupava alguns prédios públicos, como um ginásio. Outra área era de propriedade do próprio Platão.
Aristóteles, encantado com o local e com  a figura do mestre, começa nesse dia uma vida de estudos que duraria quase 20 anos. É preciso salientar que a Academia não oferecia cursos, não dava diplomas. Era uma instituição devotada a ensinos superiores. Não se vinha à Academia para fazer determinado curso. Não havia carreira. O aluno entrava quando desejasse e saía quando quisesse. Cada um tinha seu aposento. Entrava-se ali para aprender e para ensinar.
Platão - Rafael - Vaticano
O objetivo da escola era formar uma elite intelectual. Platão era muito rico e nada cobrava pela educação. Oferecia um projeto de estudos escalonado e atendia individualmente cada discípulo. Porém,  não era ele o único professor. Tinha diversos outros colaboradores. Com o tempo, passou-se a cobrar ma colaboração dos alunos que viviam na instituição. A partir da Academia, criaram-se outras instituições de ensino em Atenas.
A família de Aristóteles era suficientemente rica para manter o jovem na Academia pelo tempo que desejasse. Seu pai e seu tio eram médicos da corte de Amintas III, depois de Filipe II, pai de Alexandre Magno. Nicômaco e seu irmão faziam parte de uma família de médicos por dez gerações. Porém, o que encantou Platão em Aristóteles foi a argúcia de raciocínio e dedicação ao estudo. Em pouco tempo, o velho pensador que já havia muito viajado pelo mundo e estudado, especialmente com Sócrates, as principais ciências e filosofias da época, tornaram-se grandes amigos. Essa amizade se manteve até a morte do mestre.
O grande pensador ateniense acreditava existirem três classes na sociedade: os artífices e comerciantes, cuja virtude é a temperança; os guerreiros, cuja virtude é a coragem e os filósofos cuja virtude é a sabedoria. Se a classe dos filósofos governar, se a classe dos guerreiros se encarregar da defesa e a classe dos artífices e comerciantes  mantiver as duas outras classes, existirá harmonia e equilíbrio e a justiça poderá ser alcançada. Parece que a preocupação do pensador ateniense era manter os privilégios da elite grega que dirigia o país.
No que diz respeito à educação, Platão começa por defender uma sólida formação básica que evolui até elevados estudos filosóficos, considerando que só indivíduos especialmente dotados poderiam chegar à filosofia. Para se chegar a este nível de educação, é necessário passar por um nível de formação básica, à qual terá dado o nome de educação preparatória. Esta terá por função desenvolver de forma harmoniosa o espírito e o corpo.
Acusa as autoridades de Atenas de não se ocupar da educação da juventude, deixando esse papel para particulares. Preconizava a necessidade da educação pública. Segundo se ponto de vista, o ensino deveria durar 50 anos. Faz uma proposta de educação desde os três anos de idade.
Porém, apesar de muitas afinidades, Platão e Aristóteles tinham posições filosóficas muito diferentes e até mesmo contrárias em muitos aspectos. O mito da caverna resume muito bem o pensamento platônico. Em última análise acredita que o saber é inato. Quando o indivíduo nasce já traz na alma todo o saber. Estudar, para ele, é refletir. Buscar no espírito o que está lá desde todo sempre. Não adianta observar o mundo exterior, porque os sentidos nos iludem.
Aristóteles e seu discípulo Alexandre

O grande seguidor de Platão René Descartes, em seu Discurso do Método, dá o exemplo da água para provar a tese platônica. Afirma que se pusermos a mão na água fria e depois na água morna, sentiremos a água morna quente; pelo contrário, se pusermos a mão na água quente e, a seguir, na água morna, sentiremos a água morna quente. Afirma o filósofo francês que isso é uma prova de que nossos sentidos não podem ser o critério de verdade. Essa é uma prova de que nossos sentidos nos enganam. Não é prudente acreditar em quem já nos enganou alguma vez, afirma ele.
Liceu de Aristóteles

Ora, Aristóteles acreditava na tese contrária, ou seja, que não há nenhum saber inato. Que a mente humana, no nascimento da criança, não traz nada; é uma tabula rasa. Todo o saber entra no intelecto pelos sentidos. O observador, analisando as coisas concretas, passa a constatar regularidades. Essas regularidades dão origem às teorias e a toda ciência. Quando surge um fenômeno que não se explique pelo princípio proposto, significa que esse deve ser revisto, devendo ser proposto um princípio mais amplo que dê conta de todos os fenômenos.
Isso, no entanto, jamais colocou os dois grandes pensadores gregos em conflito. Tanto que, Aristóteles lecionou por muito tempo na Academia, junto com o próprio Platão. Conta-se que, em certa ocasião, alguém, ao observar que o jovem pensador ensinava teorias contrárias às de Platão, lhe teria perguntado se ele era amigo do mestre. A isso teria respondido com esta famosa sentença que se consagrou em latim: Amicus Plato, sed magis amica veritas. Ou seja, eu sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade.
Platão e Aristóteles - Rafael - Vaticano

Este exemplo nos mostra o verdadeiro amadurecimento da amizade. Além de defenderem posições filosóficas conflitantes, até mesmo na vida pessoal eram muito diferentes: enquanto Platão era homossexual passivo assumido, Aristóteles era heterossexual. No entanto, houve sempre um imenso respeito mútuo. O mestre, que acolheu ao discípulo no crescimento dentro de sua própria perspectiva, e o discípulo, que respeitou o mestre em todos os seus posicionamentos, continuando seu discípulo e amigo até a morte do outro.
Platão, no entanto, empenhou-se em criar condições para que a sua escola mantivesse sua linha de pensamento depois da sua morte,  nomeando seu sobrinho Espeusipo para lhe suceder após a morte. Platão morreu em 348 a.C. Com a morte do mestre, Aristóteles retornou à Macedônia, onde se dedicou por três anos à educação do jovem príncipe Alexandre, que seria o sucessor de Filipe II no trono de seu país. Aos 16 anos, com a morte do pai, Alexandre assume o reino da Macedônia.
Aristóteles - Francesco Hayez

Quando Alexandre conquista seu grande império que incluía a Grécia, Aristóteles retorna a Atenas e constrói sua escola, o Liceu, sob o patrocínio do discípulo. Prestigia mais as ciências naturais e aplicadas. Mudou o processo de pesquisa que na Academia de Platão era fundamentado na reflexão e no mundo interior.
Introduz um novo método de ensino fundado na pesquisa prática. Lança seus alunos pelos campos e ruas à cata de material para classificação. Eles passam a ser conhecidos como peripatéticos, nome que provém do verbo grego περιπατέω (peripatéo), que significa caminhar.  Dá inicio à classificação de elementos da natureza, como insetos e vegetais. Produz um grande número de obras nas mais diversas áreas do pensamento, fundamentais até hoje, ao lado das de Platão, ao pensamento e à ciência moderna.
 Porém, os últimos anos de vida do ilustre pensador foram tempestuosos. Ocorreu o falecimento de sua esposa Pítia. Desposou ele então sua criada Herpilis, que lhe deu seu primeiro e único filho, Nicômaco. Com a morte de Alexandre, o Grande, os atenienses iniciaram uma campanha de perseguição aos macedônios. Assim, Aristóteles, que não apenas era Macedônio, mas havia mesmo sido tutor do mais importante dos macedônios, foi vítima dela. Em 323 a.C., obrigou-se a abandonar o Liceu, que estava no auge da produção científica, e refugiar-se na cidade de Cálcis, onde morreu um ano depois. Parece que a amargura por ter perdido o Liceu fê-lo deixar a existência na mais profunda amargura.