quinta-feira, 11 de setembro de 2014

RITOS DE INICIAÇÃO NA GRÉCIA ANTIGA




 RITUAL DOS MISTÉRIOS ELEUSINOS - MITOLOGIA GREGA -
Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

       Elêsis, em grego λευσίς, era uma pequena e agradável cidadezinha, em que havia o suntuoso templo da deusa Deméter, Δημήτηρ, em grego. Ali se realizavam os Mistérios de Elêusis. Esses rituais seguiam os modelos de iniciação dos jovens ao culto  das divindades do Antigo Egito e serviram de parâmetro para muitas sociedades secretas posteriores, mesmo as contemporâneas.
A pequena Elêusis situava-se a mais ou menos 30 km ao norte da cidade de Atenas, que, na época de Platão e Aristóteles, congregava uma população de mais de 400.000 habitantes. Essa era também uma região de campos de trigo e cevada. 
Acreditava-se que em Elêusis estivesse a estalagem de Procusto, grotesco hospedeiro mítico que esticava ou mutilava seus hóspedes para que se ajustassem perfeitamente ao leito que lhes era destinado. Hoje é apenas um bairro de Atenas.
O Retorno de Perséfone de
 Frederic Leighton (1891).

Pois era nesse local que se realizavam os rituais eleusinos, também conhecidos como mistérios eleusinos. Eram ritos de iniciação anuais ao culto das deusas Deméter e Perséfone. Todo o jovem ateniense que desejasse participar da comunidade com direitos regulares, aos 18 anos, deveria participar desse ritual de iniciação. É preciso salientar que somente dez por cento dos habitantes de Atenas tinham esse direito.
 Dentre todos os rituais sagrados da Grécia antiga, eram os de maior relevância. Tanto os ritos como as demais adorações e mitos eram guardados no mais absoluto segredo. Uniam-se nessas ocasiões adorações divinas a promessas de poderes especiais e de recompensas para a vida após a morte.
Todos esses mistérios centravam-se no mito protagonizado pela deusa Deméter e sua filha Perséfone, esta última, deusa da vegetação, das ervas, flores, plantas, frutos e perfumes. A filha fora sequestrada por Hades, a divindade que custodiava os mortos e o mundo inferior e subterrâneo. Deméter, no entanto, era a deusa da vida, da agricultura e da fertilidade. Era a misteriosa mãe acolhedora e terna. No entanto, descuidou-se de seus deveres enquanto buscava a filha raptada pela divindade  das trevas.
Templo dos Mistérios - Elêusis

Em consequência disso, a terra congelou-se e os homens passaram fome, surgindo, assim, o primeiro inverno numa terra paradisíaca de eterna primavera. Nesse tempo, Deméter ensinou, então, os segredos da agricultura Triptólemo, que percorreu toda a Grécia, ensinando ao povo a arte do cultivo dos campos.
Finalmente Deméter recuperou a filha e a primavera retornou à terra, enchendo novamente os campos e jardins das mais variadas flores. Assim, surgem as estações do ano. Desafortunadamente, Perséfone não poderia mais permanecer indefinidamente na terra dos vivos, pois havia comido algumas sementes dos grãos que Hades lhe oferecera. Ora, os que provam do alimento dos mortos já não podem mais regressar ao mundo dos vivos. Depois de muitas negociações com Hades, Deméter chegou ao seguinte acordo: como na Grécia aniga havia somente três estações no ano: o verão, o inverno e a primavera, Perséfone ficaria com Hades, no reino dos mortos, um terço do ano, no inverno, período em que receberia o nome de Koré, e nas duas restantes estações, primavera e verão permaneceria na terra com a mãe.
Rapto de Perséfone - Bernini

Os mistérios eleusinos celebravam o retorno de Perséfone, pois esse coincidia com a primavera e o retorno da vida na natureza. Perséfone havia ingerido sementes, símbolos da vida, enquanto estivera nas profundezas da terra com Hades, assim como as sementes ficam latentes no solo durante o inverno. O retorno de Perséfone é um símbolo de ressurreição com o qual também as sementes do campo se unem para celebrar da nova vida com a germinação da vida latente nas sementes dos campos que estavam adormecidas no seio da terra, como símbolos latentes de toda a vida sobre terra. Por essa razão, os mistérios eleusinos celebravam-se sempre em meados de setembro, em que se prepara para o inverno no hemisfério norte, e Perséfone se prepara para retornar ao mundo dos mortos.
Nos rituais dos mistérios eleusinos, entoava-se um grandioso Hino a Deméter, cuja autoria é atribuída a Homero, o aedo cego do século IX a. C., isto é, o poeta cantor que percorria as cidades entoando suas canções ao som da cítara e da lira. Havia um corpo de sacerdotes e sacerdotisas responsáveis pelo preparo do ritual e dos cultos.
Havia dois tipos de mistérios eleusinos: os maiores e os menores. Os mistérios menores celebravam-se no mês de anthesterion (Ανθεστήριον), sem exatidão, uma parte de março, era uma festa móvel. Os sacerdotes sacrificavam um porco a Deméter e faziam libações e sacrifícios de purificação.
Os mistérios maiores ocorriam no mês de  boedromion (Βοηδρομιών), correspondia ao mês nosso de setembro. Essas celebrações duravam nove dias. Traziam-se os objetos sagrados de Elêusis para o Eleusínion (λευσίνιον), um templo de Deméter localizado na base da Acrópole ateniense e, no dia 15, os sacerdotes davam abertura aos rituais. Os ritos propriamente ditos iniciavam-se no dia 16 numa cerimônia em que os celebrantes lavavam-se no mar e, a seguir, dirigiam-se ao Eleusínion, onde sacrificavam o leitão.
Havia, a seguir, uma procissão que iniciava no Cerâmico (Κεραμεικος), o cemitério ateniense de onde se caminhava até Elêusis pela Via Sagrada, acenando com ramos chamados bakchoi, enquanto se avançava pelo caminho, rumo ao templo de Deméter, em Elêusis. A certa altura do caminho, gritavam-se obscenidades a Iambe, divindade do humor, que fazia anedotas picantes, com a intenção de espantar a tristeza de Deméter, que sofria por não encontrar a filha Perséfone.
Ao chegar a Elêusis, havia um dia de jejum para acompanhar Deméter na busca de Perséfone. Quebrava-se o jejum com uma bebida especial de cevada e poejo chamada Kykeon (Κυκεών). No dia seguinte ao jejum, os iniciantes entravam no Telesterion, sala onde se mostravam as relíquias sagradas de Deméter. Esta era um cerimônia reservada aos mistérios sobre os quais o iniciado deveria manter o mais absoluto segredo, sob cuja revelação pesava pena de morte.
Cerâmico - Cemitério de Atenas
O Telesterion era um templo quadrangular de 21m de lado, cujo teto era sustentado por 42 colunas em filas, havendo uma torre central com entrada de luz para o interior. Estava cercado de grades, formando um espaço que poderia abrigar em torno de três mil pessoas.
Quanto ao clímax dos mistérios, há diversidade de opiniões. Há quem afirme serem os sacerdotes os que revelavam as visões da noite sagrada, diante de um fogo que simbolizava a possibilidade da vida para além da morte. Havia também a apresentação de diversos objetos sagrados. Esse ritual, segundo eles, com as revelações sagradas, seria a essência dos mistérios eleussinos.
Outros, no entanto, afirmam que essa explicação seria insuficiente para garantir tamanha longevidade aos mistérios. Acreditam as experiências deveriam ser interiores, provocadas por algum alucinógeno altamente psicoativo contido no Kykeon. Leve-se em consideração que essa bebida era oferecida aos jovens após um dia de jejum e meditações, seguidas da sessão sagrada, sem que lhes fosse oferecida antes qualquer espécie de alimentação.
Após a sessão dos mistérios, acontecia opannychis, uma refeição festiva que se estendia pelo restante da noite com danças e diversões. As danças aconteciam no Campo Rhario, um espaço de campo de onde se tinham colhido recentemente os grãos. Possivelmente deveria ser uma resteva de trigo ou cevada, cereais muito cultivados na região por esses tempos.
Acontecia também, nesse local, o sacrifício de um touro, que se realizava ou na alta madrugada, ou pelo início da manhã seguinte. Faziam-se, então, libações em memória e honra dos mortos.
No centro do Telesterion havia um pequeno palácio de pedra chamado Anaktoron reservado exclusivamente ao hierofante, único sacerdote que aí poderia entrar. Era o lugar onde se guardavam os objetos sagrados. Hierofante era o sacerdote da mais elevada hierarquia.
Participavam dos mistérios eleusinos, primeiramente os sacerdotes, as sacerdotisas e os hierofantes; a segunda categoria a participar do cerimonial eram os jovens iniciados que participavam pela primeira vez do rito; também podiam participar pessoas que já tivessem participado pelo menos uma vez da cerimônia.
Elêusis hoje

Os gregos afirmavam que durante os misteriosos ritos eleusinos, contemplando os símbolos e participando dos rituais sagrados poder-se-ia chegar à epopteia, isto é ao mais alto estágio de iniciação, a revelação direta da verdade e da contemplação das formas e realidades divinas. Esse estágio de epopteia poderia ser atingido por qualquer cidadão. Era uma esécie de êxtase que atingia alguns participantes.