segunda-feira, 8 de setembro de 2014



                Acordei cedo... aos poucos, todos se foram e fiquei escutando o silêncio possível do perímetro urbano. Quando se aprende a estar muitas horas só, aprende-se também a identificar o antes imperceptível.
                Cada cidade tem um certo rumor singular composto de um conjunto de sons inidentificáveis. Aprendi isso nos tantos lugares diferentes do mundo em que já despertei perturbado...  São uma soma... televisores... carros distantes... latidos perdidos pela distância... o farfalhar das árvores ao vento... pássaros ao longe... muitas vozes humanas de anseios e disputas... é um conjunto... para os paranóicos, deve ser a conspiração iminente... Quando algo soa mais perto e o ouvido o detecta, então, discretamente esse rumor se cala... quando falta luz, ele se torna menos perceptível ainda... porém somente a alma é capaz de entender esse murmurar inerte e abafado...
                Pois não é que, de repente, do nada, ouço um canto de pintassilgo... talvez os ornitólogos digam que não há pintassilgos no Brasil, a não ser os engaiolados... a ciência às vezes me causa incômodos...
                Mas não importa... fui criado no meio de pintassilgos que piavam por entre as ramagens verdes das árvores da minha infância... minha avó sabia tudo e, na sua quase demência, falava com eles... até hoje, levo na alma piados de pintassilgos e, por amor de Deus, não venhas apagá-los com teus saberes...
                Pois esse pintassilgo foi minha perdição... junta-se se a ele um arrolo de pomba-rola... e estive perdido... perdi-me naquelas árvores... senti as raízes em meu pé que não toca o solo... e como aquele monge medieval, tive medo de me perder nesse idílio e de voltar num futuro em que ninguém mais me identificaria...

                Saltei sebes... refresquei os pés ardentes em riachos murmurantes e frescos sempre com os olhos entre as ramagens à procura da  plumagem loira e negra do piado do canoro pintassilgo... dores?... nenhuma... de quando em quando em quando uma nesga de azul por entre a ramagem sempre nova... o pintassilgo sempre piando mais longe... e me fui... passei sangas e penhascos... o piado sempre à frente... encantador e nítido... não posso mais voltar... perdi as raízes... ouvi outros passos... descobri que não estava só... havia os que buscavam um pintassilva... pelo que perscrutei de seus silêncios de almas que falam no embalo dos sonhos... oh meu pintassilgo! Pintassilva dos outros! Por onde te escondes? E o monge perdeu o trilho do mosteiro... o amante, o perfume secreto da pretendida... o sábio, a aura da ciência... só o pintassilgo nos pode salvar...