sexta-feira, 19 de setembro de 2014

VISITA

Prof. Dr, Oscar Luiz Brisolara
Na tarde quieta, resolvi visitar minha mãe... há tanto tempo já não o fazia... ela não mais me aguardava. Quando entrei no portão estreito, avistei, no posto mais elevado, o mocho piando sinistramente... eram amigos agora... o velho, chorando... a deixara ali... nós achávamos também que sim...
Entrei pelo portãozinho metálico... eu tinha a chave na mão... um ranger rouco anunciou-me... nada... apenas o silêncio foi resposta... eu a queria muito... ela amava-me mais ainda... imensamente... Espreitava-me... acredito que sabia da minha estada... ouvi-lhe mesmo o murmúrio da voz macia...
Ouvi teus passos... por que estás mancando?... Não dói, minha velha... desejava afagar-lhe os poucos cabelos... não era possível... Olhei um retrato dela afixado... como fora linda por antes daqueles tempos...
Eu era bonita... ainda és linda... mentiroso... como estás agora, perguntei baixinho?... somente silêncio... o mocho piou mais perto de mim... não temes o piado dele? ... novo silêncio enorme ressoou no tempo... dizem que eles comem ratos... deve haver muitos deles por aqui... novo silêncio macio...
Havia um velho rosário pendurado ao alto... tomei-o... as contas gastas dos dedos dela por anos a fio... olhei as cinco continhas adiante da cruz... não lembro como se faz... me ensina... nada respondeu... Padre-nossos, Ave-Marias, tinha o Salve-rainha... mas onde era...? não te lembras mais?... deixa pra lá... Deus sabe da gente...
Ouvi o som da hora do Angelus... piados de mocho... em julho a noite cai cedo... o sino calou-se... para quê, ali? Ninguém se importava... todos calados... mudos... falam de outros tempos nos rótulos de suas moradas... Não estás com medo? Não, já passou o tempo dos meus sestros... neblina bem baixa molhava meu rosto... na esquina, entre a bruma, pálida lâmpada refletia umidade na luz que filtrava em repuxos estranhos...

Mãe... eu já me vou... sestro... de noite eu não sei... depois, está frio e começa um chuvisco... Já não via as moradas... dobrei no corredor da esquerda... a seguir, no da direita, e vi as luzes da rua... Mãe, gritei de longe,... daqui a uns tempos posso vir morar contigo? Silêncio... Eu venho... é certo...