quarta-feira, 24 de setembro de 2014

RETORNO A BOTTICELLI

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

Tarde ensolarada...  final de setembro...  vale de ladeiras contrapostas...  Oeste, sol caindo no poente... larga sombra partia do topo e vagarosamente encobria a face da colina toda... No aclive oposto, na sua completude,  os raios solares iluminavam tudo até o derradeiro momento em que o astro se escondia por trás do topo, a luminosidade esmaecendo  vagarosamente à medida que a tarde morria...

Nesses momentos fugazes, sentado numa pedra embutida entre as ramagens coladas na encosta sul, eu observava a exuberância dos pomares de pessegueiros, em plantas alinhadas, cujo esquadrejamento perfeito contrastava com a desordem aparente do mato contíguo...
Ao nascente, num aclive mais íngreme, o pomar terraceado acompanhava a curvatura do morro...  pelo poente... do lado oposto, numa inclinação menos acentuada, a chácara delineava-se de forma muito mais geométrica...
No entanto, o que diferenciava aquela tarde era a floração dos pomares que, em ambas as faces da serra, resplandecia ao sol que sucumbia no poente... um aclive contrastava com o outro... Enquanto as flores do poente exibiam um tom de rosa mais escuro pelo menor grau de luminosidade que recebiam, as do nascente rebrilhavam aos milhares conferindo a impressão de um certo tremeluzir diante do olhar do observador...
No final do dia, mesmo estando o sol encoberto por entre os topos dentados dos morros, uma luminosidade avermelhada ainda pairava sobre as colinas e perdia-se na imensidão do céu. Ao fixar as plantas à distância, delineavam-se os espíritos da natureza nos contornos mais definidos da floresta, em que as plantas individualmente perdiam sua identidade para conformarem-se na imagem da grande deusa das matas. Contornos enegrecidos projetavam-se no horizonte, deixando, aqui e ali, resquícios de azul, por entre ramagens esquálidas.

 Uma cúpula de trevas  aos poucos cobria a natureza toda... Por fim, tudo enegrecera... desci pela encosta, sentindo as flechadas dos arbustos nas canelas desprotegidas pela calça semi-arregaçada...

No olhar envolto pelas trevas, carregava ainda as cores abundantes da natureza e os vaga-lumes incendiavam-me o trilho que me conduzia ao fundo do vale... o vento levemente frio trazia-me para o mundo real... No espírito, abrigava raios de efusiva felicidade...