domingo, 7 de setembro de 2014

BUDA E O BUDISMO


Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara



A palavra Buda é um nome genérico, é uma entidade, não uma pessoa. Esse substantivo provém do radical sânscrito Buddh, que significa despertar. Buda tornou-se um título na filosofia budista, reservado àqueles que atingiram esse grau filosófico de estar desperto e subsequentemente dedicam-se à divulgação dessa filosofia.
O budismo não é propriamente uma religião uma vez que não cultua uma divindade, porém, é mais do que uma filosofia, pois não permanece apenas no nível intelectual. Busca ao aperfeiçoamento humano através do ensinamento dos Budas, isto é, daqueles que despertaram. Para os budistas, o grande desejo de todos os seres é fugir do sofrimento e procurar a felicidade. Isso ocorre até mesmo com todos os animais, não se trata apenas de uma propensão humana. A dor e o sofrimento são provocados por mentes descontroladas que praticam ações não virtuosas.

O grande líder do budismo foi Sidarta Gautama, que viveu no século VI a. C., na região onde hoje se encontra o Nepal, que passou a ser conhecido popularmente como Buda. Ele dedicou a vida a ensinar sua filosofia. Sempre salientou que não era ele um ser sobrenatural. Teria vivido entre 563 e 483 a. C.
Buda

A biografia mais antiga é conhecida como Buddhacarita, poema épico atribuído ao poeta Ašvaghosa, datada do século II a. C., segue-se o Lalitavistara Sūtra, datada do século III da era cristã. Isso apenas para citar os trabalhos mais tradicionais.

Ao nascimento de Sidarta, a região onde ele nasceu era constituída de pequenas cidades-estados, cuja administração era, em algumas, o sistema republicano e, em outras, o sistema monárquico. Ainda segundo os biógrafos, o pai do fundador do budismo era rei Suddhodana, líder do clã Shakya, cuja capital era Kapilavastu (Capilvasto).

Quando sua mãe estava no final da gravidez, decidiu viajar à casa do próprio pai, tendo o menino nascido na viagem, sob uma árvore. O menino foi educado por uma tia materna. Aos dezesseis anos, o pai casa-o com uma prima, Yasodhara. Embora seu pai fosse um homem rico, Sidarta não elege como ideal multiplicar riquezas.
Jovem Buda

Embora seu pai escondesse dele a miséria humana, manifesta nas doenças e na velhice, um dia avistou um velho e seu cocheiro explicou-lhe que todos envelhecem e muitos adoecem. O pensador decide então sair de casa para conhecer o mundo. Nessa primeira saída encontra um doente, um cadáver e um asceta. Isso o deprime profundamente.

Decide, então, superar os males da vida através do ascetismo. Abandona o palácio paterno e passa a viver como mendicante. Com diversos mestres, dedicou-se à meditação e foi crescendo interiormente. Porém, exagerou tanto no jejum e sacrifício, que quase morreu. Aceitou leite e pudim de arroz de uma menina que, pela palidez, julgou tratar-se de um espírito. Assim, gradativamente vai descobrindo o caminho do meio. Sidarta descobriu que, assim como os excessos fazem mal ao corpo e ao espírito, do mesmo modo também, as excessivas privações também são prejudiciais. Do mesmo modo que o excesso de alimentação tem efeitos negativos, a privação excessiva leva à inanição. Descobriu, assim, o caminho do meio, a moderação.
Estas palavras de Sidarta Gautama mostram o princípio central desta filosofia: “Brâmane, assim como uma flor de lótus azul, vermelha ou branca nasce nas águas, cresce e mantém-se sobre as águas intocada por elas; eu também, que nasci no mundo e nele cresci, transcendi o mundo e vivo intocado por este. Lembre-se de mim como aquele que é desperto."
Flores de lótus no lago
Desse modo, deixa claro que não tem nenhuma pretensão de ser considerado como divindade. Situa-se entre os demais humanos, apontando para uma filosofia de vida em que se põe como mestre, mas jamais como Deus. Para ele, não há necessidade de intermediários entre o humano e o divino. Consideram-se um Buda, não o Buda, isto é, um ser humano que descobriu o caminho da verdade e serve de exemplo para que os outros façam o mesmo. A essência do budismo é propor uma arte de viver o dia-a-dia.
Jardim japonês com flores de lótus no lago
















Veja o texto abaixo sobre a filosofia budista:
Shikantaza(Apenas Sentar)
Rev. Kenshu Sugawara
Centro de Estudos Soto Zen
Pesquisador Sênior

1. Shikantaza como a doutrina essencial do Budismo Soto Zen Na Constituição Sotoshu (Sotoshu Shuken), a doutrina Budista Soto Zen (Shushi) está definida como “...seguindo o Verdadeiro Dharma diretamente transmitido pelo Buda e Patriarcas, a doutrina Sotoshu é para compreender o sentido de shikantaza (apenas sentar) e sokushinzebutsu (A própria Mente é Buda).” Isto significa que, como seguidores do Budismo Soto Zen, devemos praticar shikantaza de acordo com o correto Dharma genuinamente transmitido pelo Buda e Patriarcas. 
Devidamente transmitido, o zazen é uma arte prodigiosa e essencial praticada por todos os Tathagatas de Buda que transmitiram o maravilhoso Dharma para realizar o insuperável despertar completo. Zazen é a porta principal que nos liberta para o campo auto-receptivo Samadhi (jijiyu zanmai).
Em Chinês, a palavra shikantaza em si pode ser considerada uma expressão usada no cotidiano. ”Shikan” significa “estar unicamente concentrado em algo”. “Taza” significa “sentar”. 
Assim, shikantaza significa “estar unicamente concentrado em apenas sentar”. Esta expressão tem sido realçada no Budismo Soto Zen sob a forte influência do Mestre Zen, Tendo Nyojo (T'ien-t'ung Ju-ching). Foi o principal professor do Mestre Zen Eihei Dogen, que fundou o Templo de Eiheiji. Embora esta expressão não se encontre em Os Discursos Registrados do Mestre Zen Nyojo, em Hokyoki, o Mestre Zen Dogen disse: O monge principal (Nyojo) ensinou: “A prática de Zazen (sanzen) é a libertação do corpo-mente. Não precisa queimar incenso, prestar homenagens, fazer nembutsu, cumprir penitências ou ler sutras. Apenas convicto em sentar”.
O Mestre Zen Keizan disse a respeito do Mestre Zen Nyojo “Ele sempre se notabilizou em zazen” (Denkoroku do Mestre Zen Keizan, capítulo 50). Como podemos constatar em Os Discursos do Mestre Zen Eihei Dogen (Shobogenzo Zuimonki), o Mestre Zen Nyojo praticou pessoalmente zazen e 
muito diligentemente. Ele adotou zazen como um elemento importante da formação monástica, embora tenha sido muito criticado por isso. No fascículo de “Sutras de Buda” (Bukkyo) em Shobogenzo, Dogen diz que o Mestre Zen Nyojo “sempre” falou acerca da extrema importância de shikantaza. Isto sugere que nos seus sermões habituais, ele inspirou fortemente os discípulos para a prática de shikantaza.
No capítulo de “O Esclarecimento de Xuefeng no Monte Ao Shao, em Tu-Tang-Ji” (Sodoshu 祖堂集), encontramos a palavra “shikantaza” emparelhada com “shikantasui” (apenas dormir). Mas, mais tarde em “Shobogenzo de Tahui”, foram alteradas, respectivamente, para ikkozazen 
(unicamente zazen) e tadakoretasui (dormir diariamente). Por shikantaza, os Mestres Zen Nyojo e Dogen tentaram transmitir a ideia de ambas as expressões de “entrega total” e “diariamente”. Praticamos zazen diariamente, mas deve ser praticado com “entrega total” e não como parte de uma rotina comum.
É apenas porque admiramos e veneramos o Buda e os Patriarcas que praticaram shikantaza e,movidos pela mente Bodhi para dar continuidade à sábia vida do Buda e dos Patriarcas, que adotamos a prática de shikantaza.
2. O Conteúdo de Shikantaza Shikantaza destaca dois aspectos :
(1) A ênfase em zazen e rejeição de outras práticas (devoção total a zazen)
(2) A rejeição de zazen como meio para um fim (unidade da prática e realização)
Relativamente ao primeiro aspecto, o Mestre Zen Nyojo rejeitou outras práticas além do zazen, desde queimar incensos até a leitura de sutras no discurso citado anteriormente. Esta rejeição tem várias vertentes. A primeira é o valor religioso superior de zazen quando comparado com outras práticas. Em Shobogenzo Zuimonki, livro seis, o Mestre Zen Dogen respondeu a um praticante que comparou zazen com a prática de koan: “Ainda que pareça ter algum entendimento na leitura de koans, a obtenção da iluminação é devida ao mérito de sentar em zazen.” Num discurso em Eiheiji, disse que ”O verdadeiro Dharma corretamente transmitido pelo Buda e Patriarcas é simplesmente apenas sentar”. (Eihei Koroku vol. 4-319, jodo). Podemos constatar que ele rejeitou outros tipos de prática e realçou o zazen como a prática mais importante. No entanto, Mestre Dogen escreveu um fascículo sobre “Leitura de Sutras“ (Kankin). Também existe uma frase acerca da “leitura de sutra e recitação dos nomes de Buda” em “Eiheiji Chiji Shingi.” Isto significa que Mestre Dogen não excluiu totalmente outras práticas na formação monástica.
Mestre Dogen descreve o relacionamento adequado entre shikantaza e os sutras Budistas como “...a prática de sentar em zazen é inquestionavelmente um sutra de Buda, do princípio ao fim e do fim ao princípio” (Shobogenzo Bukkyo (“Sutras de Buda”)). Com isto, Mestre Dogen quer dizer que zazen é um sutra Budista. Da mesma forma, pode ser dito que um sutra Budista é zazen. Assim, em Daibutsuji (Eiheiji), onde as atividades diárias foram estabelecidas em torno de zazen, conforme citado no “Bendoho (“Método para Empreender o Caminho”), um ponto essencial da formação monástica foi, indubitavelmente, shikantaza. Por este motivo, Dogen estimulou os praticantes a darem prioridade a zazen sobre outras práticas. Realçou o fato de que deviam praticar zazen “para exclusão de todas as outras atividades” como fez o Quinto Patriarca Hongren no Monte Huangmei (Shobogenzo Zazengi (“Instruções para Zazen”)).
Relativamente ao segundo aspecto, se praticamos como meio para um fim, essa prática termina o seu papel quando o objetivo é cumprido. No entanto, em Fukanzazengi, o Mestre Dogen indica o exemplo do Buda Shakyamuni que se sentou direto em zazen durante seis anos, apesar de ser 
suficientemente sábio para conhecer o Dharma de Buda ao nascer. Também menciona Bodhidharma, que veio transmitir a mente do Buda e Patriarcas da distante Índia para a China e se sentou no Templo Shao-lin virado para uma parede durante nove anos e insiste que o Buda e os Patriarcas praticavam zazen sem fazer do mesmo o meio para um fim. Por este motivo, como é referido em Gakudo Yojinshu, “A realização reside na prática”. A iluminação é claramente manifestada em zazen do Buda e dos Patriarcas. Na mesma linha, em Bendowa, o Mestre Dogen escreveu: “Admitir que a prática e a realização não são uma só, é uma visão dos que se encontram fora do caminho de Buda. No Dharma de Buda, são inseparáveis”. Aos principiantes também ensina: “Não esperem a realização fora da prática”. A prática é a realização imediata e original. A prática da mente do principiante é, em si mesma, toda a realização original.

Dogen distingue claramente o zazen do Buda e Patriarcas, do zazen de outras escolas como segue: O princípio de zazen noutras escolas é esperar pela iluminação. Por exemplo, praticar é como cruzar um grande oceano numa jangada, pensando que, depois de ter atravessado o oceano, pode jogar fora a jangada. O zazen do Buda e Patriarcas não é assim, mas é simplesmente a prática búdica. Podemos dizer que o corpo simbólico dos seguidores de Buda consiste na prioridade e na unidade da doutrina, do discurso e da prática. (Eihei Koroku, vol. 8:11).
Noutras escolas, zazen é um meio para obter iluminação.Como uma jangada, deixa de ser útil quando o objetivo é alcançado. Algumas pessoas vangloriam-se das suas experiências de grande iluminação e kensho. Se a sua prática de zazen regredir devido a essas experiências, estas não sãonada senão um demonio que se torna um impedimento para prosseguir a prática. O Mestre Dogen diz que o zazen do Buda e Patriarcas é a prática búdica.
É uma prática muito simples e natural de permanecer sentado, deixando de lado as nossas perspectivas. No entanto, é um zazen que manifesta no corpo o estado de um seguidor de Buda” na qual a doutrina (ponto de apoio/iluminação), o discurso (explicação do Dharma) e a prática são uma coisa só. Assim, não é necessário procurar Buda ou o Dharma fora de zazen. Zazen não é uma prática para se tornar Buda e Patriarcas, mas é uma ação na qual Buda e os Patriarcas vivem como tais. O Buda e os Patriarcas são seres que já clarificaram todos os tipos de iluminação e circunstâncias. Não têm mais nada a alcançar, nada mais a realizar. Quando o nosso zazen é valorizado como uma prática executada por tais seres, o conteúdo desse zazen é chamado “nada a alcançar, nada a realizar” (Shobogenzo Zuimonki, livro 6).
Quando não há nada a alcançar, nada a realizar, sentar em zazen é a “libertação do corpo-mente (shinjin datsuraku)”. A libertação do corpo-mente não é um estado psicológico maravilhoso para alcançar como resultado de sentar em zazen. Pelo contrário, zazen é, em si próprio, nada mais do que “libertação do corpo-mente”. É para livrar-se de todos os tipos de apego. Quando nos sentamos em zazen, o nosso corpo-mente liberta-se naturalmente e o verdadeiro Dharma se manifesta. (Fukanzazengi).

Originalmente escrito em Japonês pelo Rev. Kenshu Sugawara
Traduzido para Inglês pelo Rev. Issho Fujita
Assistido pelo Rev. Tonen O'Connor e Rev. Zuiko Redding