quinta-feira, 11 de setembro de 2014

MARTELO (CRÔNICA)

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara
Um martelo martelando, martelando... acordou-me pela manhã hoje  cedo... um páh-páh-páh-páh-páh... à distância por horas seguidas... repetia-se... num ritmo constante não chegando a perturba-me... identifiquei-lhe até mesmo o ritmo... os páhs não se davam todos com a mesma intensidade... havia tônicas, subtônicas, e mesmo a última era mais breve... talvez até houvesse um timbre especial de tábua para tábua... seguramente Mozart ou Hendel saberiam constatar isso...
Esse ritmo deve embalar os sonhos dele... automatizou as pancadas... o impulso do braço... a mão no bolso... um novo prego... repetindo batidas... tudo magnificamente perfeito no ritmo das pancadas automáticas e certas... o tempo do braço... do prego... da mão... da tábua que muda... da vida...
A mente distante... voava o matelo... do aço no prego... um prego... outro prego... mais tábua... mais prego... e o vento nas faces... o prédio que sobe... no ritmo lento... somando-se tábuas e lento... mui lento o dia se vai... no ouvido do homem não soa o martelo... na mão que se gasta... não sente o desgaste... na alma ele sonha com a casa dos dele... um dia ela sai... a filha na escola... o filho nas fraldas... e sente o sabor do feijão da marmita... e devora bem cedo... colher por colher... o martelo ditou o braço que sobre pra boca inda cheia... os goles da água... descendo sem ritmo...
E a tarde se vai... de prego após prego... de dia após dia... a vida caminha... a casa? Não veio... a filha se foi... nos braços de um doido... o menino... ah... o menino... a droga levou... o rosto tão lindo... ainda criança... sem sonho, sem nada... se foi para sempre... na roupa, tão belo em noivado com a morte... maldita esta sorte... não pude te amar... o prego não quis... o prego levou o tempo de falas... a vontade de amar... e o sono que o prego grudou no meu olho,... travou minha voz... matou meu afeto...
A velha lá em casa cansou de sonhar... sem martelo... sem prego... sem tábua nem nada... o ritmo do tanque, batendo na tábua as roupas de todos... e água correndo de limpa pra suja e suja no ralo se some no escuro com a vida, com tudo... o sonho pequeno... uma saia de cor... um sapato de salto... uma cama de molas... uma festa de luzes... As luzes que teve... tão poucas tão breves... nas curtas exéquias que o bolso e o martelo puderam pagar... ainda era boa... tão linda que fora... mas pouco restou...
A ele o martelo... o braço ainda sabe do prego o caminho... a força já falta... o trabalho também... um jovem mais forte... mais sonhos... mais pregos... mais tábuas num dia... não dá... não insiste... procura outra coisa... que coisa?... só sei de martelo... de prego e de casa...
Arrastando o chinelo... retorna pra casa... sozinho na vida... sem sonho... sem nada... que foi da existência... dos dias da infância... dos anos sem conta batendo martelo?... o martelo se foi... o prego também... a vida também... E rico, se fosse... martelo por tablet... cachaça por whisky... choupana ou palácio... a vida é a mesma... se escapa... se esvai... o banco... os saberes... o dólar... a ciência... vão dar muito pouco que o bicho não coma... da vida, pra todos só resta o que se é...
E resta o martelo soando nas almas de todos que ficam sonhando com quê?