domingo, 14 de setembro de 2014

COISAS DE ÍNDIOS E FILOSOFIA DE VIDA

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara

Eu descia pela margem direita do rio Jauru. Uma estrada de chão batido... terra vermelha... havia passado pela enorme ponte de madeira da estrada asfaltada que liga Cuiabá a Porto Velho... dobrara à esquerda no sentido em que o Jauru leva as suas águas para jogá-las no rio Paraguai... e acabara de passar pela pequena Porto Espiridião...
Era pouco mais de meia tarde e a temperatura beirava os 40º Celsius... à medida que a camionete da universidade que usávamos avançava entre os arbustos da margem do rio e as grandes árvores da floresta à direita um rolo de pó alaranjado permanecia no ar como se nada fluísse naquelas paragens distantes de todos e de qualquer coisa...
Aí tudo é enormemente grande... os rios... as árvores... as distâncias. ...longe é verdadeiramente longe...  ali é sempre e muito mais para lá do que seria em outra parte... Celular... não... TV, em poucos lugares... vilarejos perdidos... porém muito diferente do que está no imaginário do homem do sul... tudo tem dono... fazendeiro... posseiro... grileiro... mais a enormidade do impensável...
Quando um cidadão possui de 800 a mil hectares nesses espaços perdidos, ele diz que mexe com sítio... se diz que tem uma fazenda, deve ter pelo menos 5.000 hectares... mas há as de 30.000 hectares e muito mais até...
Um indígena jovem havia chegado de barco pelo Jauru à casa onde nos hospedávamos, professor e um grupo de estagiários do sul... sua irmã, lá dele, estava num parto complicado... peguei a pick up em que viajávamos e chamei uma japonesinha sextanista de medicina... em companhia do rapaz, descíamos rumo a aldeia dos Kaiapós em que nos aguardava a parturiente...

Depois de rodar por quase duas horas, chegamos em uma tradicional aldeia indígena... as construções, uma mistura entre oca e rancho... mistura cultural e racial... nossa estagiária era muito prática e habituada a tais ocorrências... isso me tranquilizava... embrenhou-se na casa e eu fiquei com a mãe da moça em uma peça grande, de chão batido, muito pó... sem móvel algum... trouxeram-me um cepo enorme e descansei minhas pernas doídas sobre ele enquanto os demais acomodaram-se naturalmente ao solo com os joelhos elevados e os pés cruzados...
A mãe me disse que se tratava do primeiro parto da jovem de dezoito anos... muito velha para isso, me dizia... enquanto uma menina de seus dez anos, praticamente nua, sentou-se diante de mim, sorrindo... e passando às minhas mãos uma pequena cuia fechada e seca, cheia de sementes que pipocavam a qualquer movimento e beijou-me carinhosamente...
Perguntei-lhe pelo nome ao que ela me respondeu... Juliana, mas me xingam de Jarina... e se foi... Então comecei a falar com um senhor mais idoso que tinha ares de chefe... indaguei-lhe sobre o modo de sobrevivência deles ali... que de fato eu já sabia... queria ver de novo...
Convidou-me para fora... eles não são caseiros... já de há muito me tocara disso... mostrou-me a roça... não mais de vinte pés de milho... um pouco mais de mandioca... as folhas já haviam caído... só os talos marcavam onde se escondiam as raízes comestíveis... ninguém se atreveria aqui no sul a chamar aquilo de roça... olhe lá uma horta... isso tudo num emaranhado de capins e cordas de toda a espécie...
Preocupado, perguntei por que não plantavam mais... ao que ele me respondeu com uma pergunta... pra quê?... isso dá pra nóis... a resposta deixou-me absolutamente desarmado... eles não têm nenhuma preocupação em produzir qualquer excedente... lembrei o meu tempo na roça... um hectare... lavourinha... lavoura era lavoura... se olhava longe... depois havia as lavouras médias das fazendas... 20 ou 30 hectares... e as lavouras grandes mesmo... mil quadras de arroz... ou as grande lavouras de soja ou algodão do Mato Grosso... 5.000 ou mais hectares...

Isso conduziu-me a um inexorável conflito... para que acumular tanto?... quando tudo deu certo... o menino na sala... passou por todos... a moça de pé... a japonesinha sorrindo... presentes de toda espécie... para a doutora... para mim... Juliana trouxe-me duas bananas geminadas... um Felipe doutor... Felipe?... nunca soube o que era... por fim... duas meninas... um lindo jabuti...  disse que onde eu moro não tem casa para ele... não precisa... ele faz numas pedras... como explicar para uma indiazinha da floresta que não dava... beijei-lhe os longos cabelos negros e botei o bicho na viatura... precisava cobrar deles a gasolina... mas como?... deixa pra lá... pra mim... o infinito há de prover...

E tirei-me dali confuso, rolando silencioso pela estrada solitária de pó e sem vento... valores... preocupações... quanta tralha inútil enche nossas casas... nossas mentes... nossas almas... pra quê?