sábado, 6 de setembro de 2014

POSTEIRO


Prof. Dr. Oscar Luiz Brizolara

                A chuva rolava quente ladeira abaixo, engrossando à medida que se aproximava do fundo do vale. A água tomava a cor avermelhada do pó que se acumulara fino e leve por dias seguidos de sóis escaldantes, pisoteio de animais pesados e de lerdas carretas que se arrastavam numa direção e na outra oposta movidas pelos sonhos daquelas gentes simples e modestas. Nada de televisão, nem mesmo de rádio...
                O velho Morales se havia criado ali mesmo. Não tinha documento algum. Naqueles tempos que precediam o trabalhismo oficializado, não era preciso. Era a segunda metade do século XIX, lá pelos meados de 1868, um pouco mais. Setembro quase acabava. As grandes águas enchiam arroios e barragens e se armazenavam pelas brenhas das montanhas de onde escorreriam pelos meses afora, mitigando a sede de bichos e gentes
                Primeiro, estivera na estância do Coronel Py Crespo, para o qual cuidara de bicheiras de gados com benzocreol e, mais que tudo, esquilara milhares de ovelhas, amontoando toneladas lã, ao lado de outros tantos sem nada como ele. Depois, passara à estância dos Souto, onde ficara até que a companheira, depois de dezesseis partos, muitos enterros de pequenos e grandes, seus e dos outros, fora ela também enterrada de sob um montículo de terra vermelha na colina solitária dos ausentes.
                Quando não tinha mais préstimo na casa, o capitão Souto mandara seus peões construírem para ele um rancho barreado, de pau a pique e torrão para o qual se transferira a fim de esperar a morte. Um velho cão, o Guarani, o acompanhava. Sua moradia estava numa encruzilhada a distância estratégica da sede da fazenda. Devia reparar em tudo... nos passantes... se estivessem armados. Deram-lhe um velho petiço para avisar nas casas, se novidade acontecesse. E foi juntando cachorros perdidos, sem dono. Diziam que comia cachorro.
                Não era verdade. Depois que todos se tinham ido, uns para o cemitério, outros para a cidade, eles eram de companhia. Havia perdizes, perdigões e pombas selvagens. Carregava sua 28 de dois canos e se ia pelo campo. Trazia caça para si e para os cães. Todos os pobres faziam assim.
                Pois nessa tardinha chovia, como já se viu. Morales observava as formigas que haviam saído à busca de folhas para seu pão lá delas. Como elas sabiam da chuva? É bem verdade que sempre havia umas patetas, que a água levava. E enquanto coçava os pés com um caco de telha, sentado à soleira de pedra bruta, consultando o bestunto, vasculhava o passado.
                Pensava ser soldado como seu pai que lutara com Bento Gonçalves. Mas viveu no entre-revoluções. Pra mim, assuntava com seus botões, não teve vez... Se tiver revolução... tô quebrado... não presto mais. Quem ia me querê?  Posteiro é resto. É aposentadoria de peão que espera a morte. Sem documento. Sem nada. Em pouquíssimo tempo ninguém mais saberá de quem é aquela cruz. Os netos perguntando por quem era seu avô... Sei lá, diz a mãe, teu pai diz que foi um tal de Morales. E o menino esqueceu para não lembrar nunca mais.

                E a chuva corria pro vale, chorando um murmúrio, no silêncio da tarde, enquanto o sabiá e a rola aguardavam o sol para chamarem por seus amores na tarde seguinte no fluxo contínuo da vida que corre. Para onde?